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A Escola na Prisão: condicionalismos e aspectos de

Capitulo 4. – A Prisão e o seu papel Reeducador

4.1. A Escola na Prisão: condicionalismos e aspectos de

A estrutura dos Estabelecimentos prisionais tendem a dificultar o processo reeducativo destas instituições devido às penalidades corporais e psicológicas aplicadas como a constante vigilância física, restrições alimentares, tendência para o isolamento em celas específicas para o efeito (solitárias), privação sexual, excesso de ócio, desrespeito moral, retiro de direitos sociais e aplicação de uma “disciplina torturante” ao comportamento. Os alunos-reclusos podem sentir-se satisfeitos quando participam no processo educativo, nas aulas e nas actividades ali desenvolvidas. Porém tendem a sentir algum desconforto pois o ambiente prisional difere do ambiente tradicional educativo, o que pode trazer obstáculos na aprendizagem.

[…] a todo o instante os presidiários alunos são «advertidos», tacticamente , para retomarem sua condição de sujeito encarcerado. Ou seja, nem mesmo as eventuais fugas espirituais ou de imaginação se dão por completo: tenha-se em visto o conjunto de factores que cumprem o papel de reconduzi-los, imoderadamente, à condição de presidiários. É o caso de estrutura gradeada do ambiente, da vigilância incessante, das cadeiras nomeadas para facilitar a

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fiscalização quando a possíveis danos materiais com o fim de fabricar artefatos que possam ser usados em rebeliões ou escavações, da obrigatoriedade de andar algemado até a sala de aula […]. (Linhares & Teodoro, 2010,p. 82)

Para além das características físicas, o ambiente social nas prisões não se revela apropriado ou contributivo na escolarização dos reclusos. Neste sentido Linhares & Teodoro (2010) refere:

Como componente deste processo, o que não se pode deixar de destacar é que a heterogeneidade dos indivíduos, e de seus delitos, gera uma aprendizagem paralela de um conjunto de comportamentos que pode desvirtuar a expectativa do preso em relação ao programa. É outro grande desafio. Por isso, vale a reflexão: o indivíduo está sem liberdade, com excesso de ócio, convivendo com pessoas muitas vezes mais perigosas que ele, por meio desse ambiente propício, começa a descobrir outras modalidades de crime; ora, é possível que sua expectativa de retomar a liberdade a partir da educação no presídio seja unicamente para cometer outros crimes. ( p.63)

Embora detenha um papel de reabilitação através de uma educação (re) construtiva, a prisão parece comprometer o processo de recuperação do indivíduo pela privação da liberdade, em que o indivíduo limita-se a este ambiente físico e social limitador e hostil.

A aplicação dos programas educativos nos Estabelecimentos Prisionais, apesar dos obstáculos apresentados, pode obter resultados positivos. Desde do momento que a sua implementação seja efectuada de acordo com as necessidades sentidas, não esquecendo os factores delimitadores, o papel “reeducador” da prisão pode revelar-se pertinente no processo reabilitador do recluso.

Quando o ambiente académico nestas instituições é devidamente adaptado para as salas de aula, a ponto de parecer que se encontram em liberdade, o aluno recluso tende a sentir-se mais estimulado. A sala de

65 aula é normalmente considerada um dos poucos espaços menos hostis da prisão. Por vezes, pode gerar alguma tensão no que se refere à rotina diária destes espaços. O acompanhamento dos reclusos pelos guardas pode implicar uma reestruturação da segurança sobretudo quando o acompanhamento é feito a reclusos problemáticos ou quando a sala de aulas fica a uma distancia considerável das celas. “A questão da

segurança á basilar, pois qualquer falha pode gerar rebeliões ou fugas. Para estes agentes, esse tipo de trabalho é uma espécie de ofício à parte.” (Linhares e Teodoro, 2010, p. 66).

Após a sua integração, a rotina das aulas parece alimentar as expectativas dos reclusos-alunos quer a nível das próprias aulas como dos resultados daqui provenientes: redução da pena, maior facilidade na obtenção de emprego e melhores garantias de reinserção social. Quando a evolução académica surte efeitos positivos, o indivíduo pode sentir vontade de continuar o seu percurso académico em liberdade. Nas situações de analfabetismo, a aquisição de competências de leitura e escrita pode levar a que o indivíduo ganhe sensação de valorização própria como demonstra em situações essenciais no seu dia-a-dia:

As cartas da minha esposa, eu já leio sozinho. É que antes, quando chegavam as cartas, tinha um parceiro da cela que sabia ler e lia as cartas para mim. Hoje não. Sou eu quem leio. Era chato. Meu parceiro de cela sabia mais da minha mulher do que eu. […] Eu estou tentando ler a Bíblia todo o dia. E já consigo. Eu não tinha Deus no coração. Mas a palavra Dele está me fazendo melhorar. Já pensou se eu não tivesse aprendendo a ler?” ( Linhares & Teodoro, 2010, p.66)

Considerado um lugar privilegiado, na “cela de aula” a pedagogia é estruturada de modo especifico tendo em conta que estes alunos têm uma história pessoal própria e que “[…] a prisão também apresenta uma

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organização, uma cultura própria que deve estar presente durante as aulas.”(Linhares & Teodoro, 2010, p.66). O professor nestes

estabelecimentos não é apenas um educador ou pedagogo, torna-se também numa figura importante no processo de mudança e recuperação destes indivíduos.

O professor, então, significa a liberdade em meio à disciplina e à submissão. É a demonstração de esperança onde o tempo è marcado por desastres passados, privação no presente e indefinições futuras. É o exercício da ética em meio a uma estrutura violenta e corrupta. E, por fim, é a ponte entre as cores do mundo externo e o pesadelo sob a cor de concreto sujo e mal cheiroso. (Linhares & Teodoro, 2010, p.67)

Apesar da importância que exercem tanto no campo de reinserção social, muitos dos professores em estabelecimentos prisionais não possuem formação específica que os prepare para leccionarem nestes meios. A sua presença tende a ser fruto da sua própria iniciativa e vontade de explorar novos e diferentes desafios. Poderá sentir alguns constrangimentos iniciais devido ao funcionamento destas instituições, enfrentando alguns obstáculos: ausência de um registo adequado da evolução académica do recluso, medidas de segurança instituídas, a falta de objectivos claros em alguns projectos pedagógicos desta natureza, a falta de uma devida colaboração de alguns elementos da equipa técnica do estabelecimento, como os carcereiros, que não valorizam os projectos desenvolvidos. Mesmo assim, em grande parte das prisões, os professores parecem mostrar-se resilientes e esforçam-se por assegurar resultados positivos do projecto implementado. Segundo Linhares &

67 Teodoro (2010), o sucesso do projecto pedagógico instituído passa pelos encarcerados:

[…] os presidiários – alunos demonstram forte aptidão para o processo educativo por desejarem «pagar» pelo erro cometido. Daí a possibilidade de que em alguns presídios onde as características dos presidiários saíam desse padrão o programa não obtenha bons rendimentos. Mas onde ele é implantado, apesar das falhas na estrutura de gestão e de monitoramento, o detento, por desenvolver condições psicológicas positivas, tende a dar suporte ao programa de maneira tal que estudos como este concluem haver um resultado positivo e esperançoso quanto ao melhoramento de tal estrutura (re) socialização, uma vez que o público em questão já dá sua contribuição. (p. 72)

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