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A ESCOLA NOVA: origem, conceito e pressupostos

Capítulo 1 – Teorias pedagógicas modernas circulando entre dois continentes

1.1 A ESCOLA NOVA: origem, conceito e pressupostos

Na fronteira entre os séculos XIX e XX já havia muitas revistas e instituições dedicadas ao estudo da infância e à propagação de novas teorias relativas à educação como, por exemplo, a Société libre pour l'étude psychologique de l'enfant. Criada em 1899 por Ferdinand Buisson, a instituição francesa foi dirigida por Alfred Binet a partir de 1902, e teve entre seus membros e colaboradores Roger Cousinet – talvez o principal militante pela Escola Nova na França e inspetor do ensino primário desde 1910. Em decorrência dos estudos dessa Sociedade, é criada em 1906 a revista l’Educateur

Moderne, destinada a pais, professores, médicos, e a todos que se encarregam da criança,

com o objetivo de formar o educador moderno, ou seja, aquele que conhece a personalidade das suas crianças e a respeita sua individualidade.

O nome Escola Nova foi adotado pela primeira vez por Cecil Reddie quando criou, em 1889, The New School, numa propriedade rural de Abbotsholme, interior da Inglaterra. O termo passou a ser usado para designar lares-internato situados no campo, de práticas pedagógicas inovadoras, onde a experiência pessoal da criança era o motor da aprendizagem. Nessas escolas, onde as turmas eram de poucos alunos, as vivências educativas davam-se ao ar livre, através de trabalhos manuais aplicados dentro de um

sistema de co-educação dos sexos que estimulava a autonomia do educando sob o princípio da liberdade regido pelo chamado self-government. Esse sistema pressupõe um conselho de estudantes que toma decisões sobre o cotidiano escolar e no qual o professor seria um agente facilitador.

Algumas nuances foram matizando esse conceito de escola “nova”, de sorte que foram incluídas no rol das suas práticas educativas as seguintes atividades: artes (desenhar, colorir, música, canto, dança, modelagem, recorte, colagem, dobradura, etc.); ginástica natural;40 jogos e brincadeiras; trabalhos individuais e também trabalhos em grupo; tarefas diversas (marcenaria, gráfica, jardinagem, agricultura, cuidar de animais, pequenos consertos, tarefas domésticas, entre outras); acampamentos e passeios a pé ou de bicicleta; a liberdade de escolha das atividades a partir dos interesses de cada um.41

Após longas temporadas visitando escolas novas de vários países europeus, Ferrière publica em 1919 um opúsculo onde ele retoma uma definição – que já havia sido publicada por ele em 1915 – sobre os trinta traços característicos das escolas novas. A quarta edição desse texto com os trinta pontos, revista e ampliada, é publicada sob a forma de um artigo na P.E.N. n° 15, em 1925.42 Esta parece ser a mais completa descrição do que era e do que pretendia uma instituição nesses moldes; em certa medida, aqui estaria uma receita de como deve ser o cotidiano de crianças e jovens em período de escolarização, pelo menos do ponto de vista europeu.

Uma vez que esta tese trabalha com a hipótese de que Monteiro Lobato e Paul Faucher fizeram livros para crianças a partir de uma concepção escolanovista da infância, é pela expectativa de leitura que eles tinham do seu público – crianças ativas – que eles orientaram a sua produção. A adesão de ambos aos princípios do movimento, a maneira como cada um se apropria dessas concepções, a leitura que cada um faz das teorias

40 A ginástica natural – valorizando a interação do corpo com a natureza – era uma prática disseminada pelo movimento escoteiro (scoot), que era contemporâneo à Escola Nova e também se deu no Brasil.

41 Estimulava-se a iniciativa dos alunos dando-lhes a liberdade de escolher as atividades segundo os próprios interesses e aptidões, porém eles tinham obrigação de escolher.

42 É justamente esse artigo da P.E.N. que Lourenço Filho traduz e inclui no seu livro de 1929, Introdução

ao Estudo da Escola Nova (pp. 162-164) – que veio a se tornar uma referência na história da literatura

pedagógica brasileira. Observamos que, além de fazer uma adaptação do texto original, ele menciona apenas 29 dos trinta pontos enunciados por Ferrière. O item excluído do original é o 23°, que trata das tarefas sociais que os alunos devem exercer, todavia, não cabe a esta tese detalhar uma comparação entre os textos de Ferrière e a tradução feita por Lourenço Filho.

escolanovistas é que explicaria, em parte, as apostas que eles teriam feito em suas iniciativas editoriais. A fim de melhor compreender a criança “ativa” a quem Lobato e Faucher se dirigiam, optamos ainda por reproduzir alguns trechos da fala de Ferrière sobre as características das escolas novas:

- a Escola nova é um laboratório de pedagogia prática;

- ela visa a preparar as crianças para a vida moderna, com suas exigências materiais e morais;

- a Escola nova organiza trabalhos manuais;

- a Escola nova promove nas crianças trabalhos livres (atividades que ela escolha fazer);

- a escola nova entende por cultura geral a cultura do julgamento e da razão (método científico: observação, hipótese, verificação, lei);

- a escola nova baseia seu ensino sobre os fatos e experiências; - a Escola nova recorre à atividade pessoal da criança (associando um trabalho concreto à maior parte dos estudos abstratos);

- a Escola nova estabelece seu programa a partir dos interesses espontâneos da criança;

- a classe será mais freqüentemente uma classe-laboratório ou uma classe-museu do que um lugar de abstração pura;

- a escola nova forma em certos casos uma república escolar (onde uma assembléia geral toma todas as decisões importantes referentes à vida da escola);

- esse regime supõe uma influência moral preponderante do diretor sobre os “condutores” naturais da pequena república; - na Escola nova procedemos à eleição de chefes (os alunos preferem ser conduzidos antes pelos seus chefes do que pelos adultos);

- a escola nova faz a educação da consciência moral (apresentando, todas as noites, às crianças leituras ou narrativas tomadas da vida ficcional ou real);

- a escola nova faz a educação da razão prática (suscitando nos adolescentes reflexões que estejam associadas de um lado à biologia, à psicologia e à fisiologia, de outro lado à história e à sociologia).43

As concepções modernas de infância e educação que fundamentam os pressupostos escolanovistas têm origem em Rousseau e também em métodos educativos

43 Tradução nossa. Para conferir o texto original, na íntegra, cf. FERRIÈRE, Adolphe. L’Ecole « nouvelle » et le Bureau international des Ecoles nouvelles. In : Pour l’Ere Nouvelle : Revue internationale

pioneiros, sobretudo o de Pestalozzi e o de Fröbel. A influência do pedagogo teórico que foi Rousseau, e das práticas experimentadas por esses dois inovadores, foi declarada no discurso de abertura do Congresso de Montreux em 1923, pelo principal representante do movimento na Europa, Adolphe Ferrière – o texto foi reproduzido na revista Pour l’Ère

Nouvelle.44 De fato, os livros II e III do Emílio de Rousseau parecem um esboço da forma como a Escola Nova trataria algumas questões. Eis alguns dos temas tratados: - educação da sensibilidade (incluindo “o bem-estar da liberdade”)

- educação moral

- educação intelectual (incluindo “partir do interesse sensível”; experiências, e não discursos”; “construção de máquinas”)

-educação do corpo (incluindo “exercícios físicos” e “preceitos de higiene”) - educação sensorial (abordando os cinco sentidos)

- educação manual e social (incluindo “educação social”; e “necessidade de trabalho manual”)45

Como se pode observar, as atividades praticadas nas instituições que se auto- denominavam “escolas novas” estão muito próximas ao modelo de educação prescrito por Rousseau; assemelham-se aos métodos pioneiros de Pestalozzi e de Fröbel, para os quais cada criança é única em sua maneira de sentir e estar no mundo, cada uma com suas características e aptidões inatas, que devem ser respeitadas. Para que se desenvolva plenamente, ela precisa basicamente de liberdade e atividade.

Com o tempo, o termo Escola Nova deixou de significar exclusivamente

instituições experimentais privadas situadas no campo para se converter em movimento

pedagógico que marcaria as décadas de 20 e 30 do século XX, atingindo também a escola pública em alguns países. Diretores de escola e professores primários insatisfeitos com os métodos tradicionais de ensino começaram a se reunir, trocar suas experiências em congressos e artigos; cientistas e intelectuais ligados à educação começaram a publicar seus estudos e teorias, criando um circuito de idéias e ações em larga escala, que traz em

44 FERRIÈRE, Adolphe. L’Ecole active et l’esprit de service. Discours d’inauguration. In : Pour l’Ère

Nouvelle : Revue internationale d’éducation nouvelle. Genève, n° 8, 2ème année, pp. 72-79, octobre 1923. 45 ROUSSEAU, Jean-Jacques. Émile ou de l’éducation. Paris : Garnier-Flammarion, 1966.

si diversas correntes de pensamento. O movimento ganhou mais teorias, mais adeptos, diferentes aplicações e também algumas contradições.

Para Martin Stauffer – que estudou a Escola Nova brasileira e sua posição (injustamente) marginalizada na pedagogia internacional – o movimento renovador da educação no Brasil foi mais importante do que as suas manifestações na Europa e Estados Unidos “porque essas Escolas Novas se concentraram nas escolas privadas e não foram realizadas reformas globais do ensino público como no Brasil”.46

Entre os educadores brasileiros que já escreveram sobre a Escola Nova, foi justamente Lourenço Filho quem abordou o tema de forma mais detalhada em Introdução

ao Estudo da Escola Nova (1929). A obra foi um marco tanto para a literatura pedagógica

nacional, quanto para garantir o prestígio e a circulação internacional do autor; foi vertida em outras línguas, teve muitas reedições, uma delas prefaciada por Paul Fauconnet e elogiada por Édouard Claparède,47 Henri Piéron, entre outros nomes que lideravam o movimento na Europa. Começando pela origem do termo Escola Nova, ele diz:

Esse singelo nome foi por alguns adotado para caracterização do trabalho em estabelecimentos que dirigiam e, logo também, por agremiações criadas para permuta de informações e propagação dos ideais de reforma escolar. Mais tarde, passou a qualificar reuniões nacionais e internacionais, bem como a figurar no título de revistas e séries de publicações consagradas ao assunto. Dessa forma, a expressão escola nova [grifo do autor] adquiriu mais amplo sentido, ligado ao de um novo tratamento dos problemas da educação, em geral.

Nessa acepção, ainda agora se emprega. Não se refere a um só tipo de escola, ou sistema didático determinado, mas a todo um conjunto de princípios tendentes a rever as formas tradicionais do ensino. [grifo nosso] Inicialmente, esses princípios derivaram de uma nova compreensão das necessidades da infância, inspirada em conclusões de estudos da biologia e da psicologia. [grifo nosso] Mas alargaram-se depois, relacionando-se com outros muito numerosos, relativos às funções da escola em face de novas exigências, derivadas de mudanças, da vida social.48

46 STAUFFER, Martin. A Escola Nova brasileira como referência internacional. s/d, p. 2. Artigo gentilmente enviado por e-mail pelo pesquisador Dr. Stauffer, da Universidade de Berna (Suíça), com quem troquei algumas idéias que contribuíram bastante para a elaboração deste capítulo da tese. 47 Cf. carta de Fauconnet a L. Filho, prometendo o artigo solicitado sobre seu livro, no anexo n° 6. 48 LOURENÇO FILHO, Manoel Bergström. Introdução ao Estudo da Escola Nova. 8ª ed. São Paulo: Edições Melhoramentos, 1963. p. 17

Mas qual poderia ser considerado o ponto de partida oficial da Escola Nova? O estudo de RAYMOND (2002),49 que investigou todos os anais dos congressos da

Ligue Internationale pour l’Education Nouvelle (L.I.E.N), aponta um parâmetro razoável:

mesmo que tenha se originado de um conjunto de práticas que vinham, desde o século XIX, sinalizando uma nova compreensão da infância em vários países, a escola nova se estabelece oficialmente, como movimento organizado, junto com a criação da Liga, durante o Congresso de Calais, em 06 de agosto de 1921. Teria surgido, portanto, a partir da institucionalização dessas teorias, que ganham propostas definidas, carta de princípios e planos de ação coordenados por órgão oficiais e divulgados por uma imprensa destinada especificamente à circulação dessas idéias, iniciativas, e discussões em revistas.