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Além da socialização familiar, os agentes sociais passam por outras instâncias socializadoras, dentre elas a escola, a igreja, os meios de comunicação de massa32. Com

efeito, “todas essas instâncias distintas e heterogêneas tendem a ‘formar’, buscam modelar a estrutura de pensamento dos indivíduos ao difundir uma concepção de mundo a partir de uma gama variada de formas simbólicas” (SETTON, 2002b, p.109).

Com relação à escola como instituição formadora, todos os entrevistados puderam narrar sobre as lembranças dos tempos de escola. Os seis docentes afirmaram ter estudado em escolas públicas, sobretudo pela condição social destes. A visão que os docentes possuem dessa instituição é destacada nos recortes abaixo:

Da minha primeira série até o superior foi pública [...] nunca estudei em escola particular. Eu tive bons professores, tanto que eu fazia sozinha as tarefas de casa, era só com as explicações da escola [...] (Professora A. Simião).

Nós estudamos sempre em escola pública (da 1ª série até o 3º ano do ensino médio) e a escola pública nessa época era referência e funcionava de verdade [...] até pelo contexto cultural da época – nós estávamos em pleno regime militar - existia disciplina no colégio, os alunos respeitavam

a direção, respeitava professor e também respeitava os pais em casa. (Professor A. Batista).

Comecei a estudar aos 7 anos, minha escolarização até 2º grau (Ensino Médio) foi todo em escolas públicas de Timon [...] mas se eu tivesse estudado numa escola particular, sei lá, não é nem que tenha diferença entre escola particular e pública porque eu não via essa questão de escola particular e pública como se fosse um empecilho para você adquirir um curso melhor ou pior, tanto é que na época a própria escola que eu estudava muita gente saiu para outros cursos e o ensino era bom, muito bom mesmo (Professora Deusa).

Na visão da professora A. Simião, o fato de ressaltar que teve “bons professores” indica a crença que esta tinha da escola pública, convergindo com a percepção do professor A. Batista, quando diz que “a escola pública nessa época era referência e funcionava de verdade”. Em aspectos mais gerais, o contexto educacional que temos atualmente em nosso país, sendo este “acessível a todos”, independente de classe social, produziu uma explosão de matrículas, o que por sua vez, não recebeu o devido investimento em qualificação docente, mudanças estruturais (físicas) nos estabelecimentos escolares e ainda uma atualização dos currículos, metodologias e o sistema avaliativo e isso consequentemente fez disseminar no imaginário social a ideia de que a escola pública de hoje não tem qualidade.

Por outro lado, mesmo ressaltando a qualidade oferecida pelo ensino da escola pública, a professora Deusa deixa escapar no seu relato que “se tivesse estudado numa escola particular”, poderia ter recebido um ensino diferenciado, talvez de melhor qualidade. No entanto,

o problema da baixa qualidade de ensino na etapa obrigatória de escolarização, ao contrário do que vem sendo propagado, não atinge somente as escolas públicas. Franco (2002), ao analisar os resultados do PISA (teste de aferição de conhecimentos internacional realizado em 2000, em que o Brasil teve a sua primeira participação), propôs a comparação do desempenho dos alunos oriundos das elites econômicas de sete países que participaram do teste (Brasil, Coréia do Sul, Espanha, Estados Unidos, Rússia, França, México e Portugal). No Brasil, esses alunos tipicamente estudavam em escolas particulares [...] Os alunos brasileiros mantiveram o pior desempenho, o que comprova que nem mesmo a escola das elites é de qualidade, comparativamente à boa escola de outros países. (OLIVEIRA & ARAÚJO, 2005, p.16)

Não obstante, no outro recorte da fala da professora Deusa, esta coloca que não “via empecilho em conseguir adquirir um curso melhor ou pior” estudando em escola pública, uma vez que ela tinha metas bem definidas, qual seja: “conseguir melhorar de vida”. Isso reflete o argumento de que para alcançar o êxito escolar, a valorização (investimento) do próprio aluno no estudo é um dos fatores determinantes para garantir seu sucesso.

Concomitante com esse argumento, Passos e Pereira (2006) em uma pesquisa intitulada “A herança cultural dos alunos do curso de Serviço Social da Universidade Federal do Piauí”, identificou que 25,5 % de um total de 199 alunos do curso de Serviço Social da UFPI, possuíam baixo capital cultural e alto desempenho acadêmico, contrariando a lógica de que a impossibilidade de acumular capital cultural indica o fracasso escolar do aluno. Nas suas análises, estas consideram que

o êxito do aluno está relacionado a um conjunto de variáveis ligadas à herança cultural: ethos da família – postura de valorização da escola [...] e capital cultural familiar, que confere-lhe uma situação bastante original em relação ao grupo social do qual faz parte, como, por exemplo, a presença de ao menos um parente que tenho feito ou esteja fazendo um curso superior.(ibid, p.8).

Por sua vez, Setton (2005) acrescenta que o acesso ao conhecimento geral através da mídia fornece uma abertura para organizar todo um aparato cultural disponibilizado pelas culturas de massa e assim, produzir anseios subjetivos de sucesso escolar. Portanto, a facilidade de acesso a alguns bens culturais que antes estavam muito distante de agentes pertencentes à classe popular, hoje já se encontram disponíveis pela cultura midiática que se consolida nas periferias das cidades a um custo muito menor. Por exemplo, a presença de lan houses33 nos espaços urbanos de áreas periféricas e até mesmo nos espaços rurais.

Logo, a possibilidade de ascensão pela escola produz um efeito positivo frente à mesma, sobretudo através do bom desempenho escolar. (BOURDIEU, 1998b).