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5 PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

7 A ESCOLA, A FORMAÇÃO DO HABITUS DO LEITOR E ASPECTOS DA PRIMEIRA EDUCAÇÃO DOS PROFESSORES

7.3 A ESCOLA QUE VERDADEIRAMENTE ESTIMULA A LEITURA

Cumprindo bem ou mal seu papel, é na escola que a maioria das crianças e jovens brasileiros tem seu encontro com o texto literário. Ezequiel Theodoro da Silva, desde Os descaminhos da escola (1978), vem defendendo com assertividade a democratização da leitura. Sua discussão sobre leitura, acesso ao livro ou literatura nunca está desatrelada da perspectiva social, como o fazem também vários pesquisadores referenciados nesta pesquisa. Por exemplo, a ideia de que o “desgosto” com a leitura é produzido socialmente dá a medida de sua discussão. Em Leitura e realidade brasileira (2012), o autor, na apresentação para a sexta edição, é axiomático: “Este livro, escrito em 1983, ainda mantém a sua atualidade em decorrência do seu teor de denúncia acerca das mazelas e barbaridades que estão presentes na realidade cultural brasileira” (SILVA, 2012, p. 12). Destaca-se uma longa e detalhada descrição elaborada pelo estudioso acerca da escola que verdadeiramente estimula e cumpre seu papel com a leitura:

Mais explicitamente: quais são as características de uma escola que concretamente estimula a leitura? Quais são os meios ou recursos a serem acionados no contexto escolar, visando o aprimoramento deste ato de consciência, chamado “ler”? Estabeleço esses meios ou estímulos em termos de uma imagem bem particularizada de escola – aqui existe uma biblioteca escolar cujo acervo atende às necessidades e interesses do corpo docente e discente; os serviços bibliotecários são colocados de forma viva, dinâmica e atuante no quadro das decisões curriculares e nos projetos de desenvolvimento comunitário. Aqui existe um serviço de acesso à internet. Aqui chegam com regularidade livros, revistas e jornais. O próprio currículo, nesse tipo de escola, prevê a sequenciação e integração das habilidades e conteúdos de leitura bem como os momentos e os espaços para a pesquisa, debate, discussão e outras formas de

confronto com textos. Aqui, a concepção de partilhada de leitura não está desvinculada das noções de vida, lazer, prazer e trabalho; o livro é tomado como um instrumento de conhecimento do mundo, como uma das diversas ferramentas para a aprendizagem e o conhecimento, para a ação e transformação social. Os educadores, nesse contexto, têm por lema o ditado “faça como eu faço”, ou seja, são pessoas que exalam amor e entusiasmo pela leitura, conhecem as características do processo de leitura a fim de encaminhar a prática pedagógica; selecionam textos potencialmente significativos para os seus alunos, apontando outras fontes particulares de que dispõem os assuntos estruturados, incentivando o uso da biblioteca; são abertos a outras interpretações de uma determinada obra e aprendem com elas; preparam a estrutura cognitiva dos alunos a fim de que estes possam confrontar-se com os diferentes textos propostos para a leitura; preocupam-se com a origem social dos seus educandos e, à luz desse conhecimento crítico, propõem textos como fatores de elevação cultural, ligados à realização de um projeto político-pedagógico (SILVA, 2012, p. 81, 82).

A contribuição de Silva (2012), nessa visão de escola, aprofunda a discussão sobre a leitura. A partir de algumas palavras-chave, repercutimos abaixo alguns pontos importantes de seu pensamento a respeito de uma escola ideal:

 BIBLIOTECA: além de existir, deve possuir um acervo que atende ao corpo discente e docente. No caso do corpo discente, talvez seja necessário incluir um conjunto de obras que professores e escola, de modo geral, não conhecem. Os serviços do bibliotecário deverão ser colocados de forma viva, dinâmica e, sobretudo, devem ser estar articulados com a organização curricular da escola.

 CIRCULAÇÃO DE MATERIAIS: precisa de internet, revistas, jornais e livros atualizados. A internet, revistas e jornais, a partir da mediação do bibliotecário e do professor, devem se integrar também ao projeto político-pedagógico da escola.

 COMUNIDADE DE LEITORES: a escola deve ser um fórum privilegiado para a pesquisa, debate, discussão e confronto de textos e com os textos. Professores, bibliotecários, alunos e outros atores do ambiente escolar devem ter uma concepção partilhada de leitura que esteja vinculada com vida, lazer, prazer e trabalho. A leitura, especialmente a literária, deve ter um papel central na vida social escolar.

 REPRESENTAÇÃO DO LIVRO: o livro deverá ser visto como uma das ferramentas para a aprendizagem, o conhecimento, a ação e transformação social.

 EDUCADORES LEITORES: os educadores a partir do lema “faça como eu faço” devem dar testemunho de leitores apaixonados. Devem, conforme palavras do autor, ser pessoas que “exalam amor e entusiasmo pela leitura. Além disso, precisam estar preparados para conduzir com segurança uma boa prática pedagógica. A condução desses educadores nas práticas correntes de leitura e leitura literária em sala de aula, ainda precisa ter uma atenção especial com a abertura que dão a novas interpretações de uma obra selecionada para a leitura. O lema é “faça como eu faço” e não “leia como eu leio”.

 A CONDIÇÃO SOCIAL DO ALUNO: por fim, a escola que “concretamente” estimula a leitura, segundo Silva (2012), precisa se preocupar com a origem social dos alunos. A seleção dos textos também tem de ter como critério fatores de emancipação social dos alunos e refletir um projeto político-pedagógico. Vale destacar que o pesquisador não está restringindo a literatura a uma função, mas associando uma prática social cumulada de significados à possibilidade de mudança de cenário. Quanto a isso, o autor se manifesta em outro ponto de seu trabalho: “Em verdade, fruir o texto literário e crescer pessoalmente ou transformar-se politicamente são partes do mesmo ato. Ao leitor do texto literário cabe, então, não só compreender, mas transformar e transformar-se...” (SILVA, 2013, p. 30).

Para esta escola que “concretamente” estimula a leitura, Silva, em Leitura de

si, o professor enquanto pessoa (2014), enfatiza a profunda dependência da

valorização do magistério. O professor tem protagonismo no alcance do êxito na formação do leitor literário, mas não pode assumir este papel se não tiver assegurado para si um lugar de valorização na sociedade. Esse lugar precisa ultrapassar o vazio das campanhas publicitárias que anualmente o cumulam de predicados em seu dia de comemoração para em seguida deixá-lo no ostracismo e ensimesmado em seu “feixe de misérias”, que se traduz numa rotina de trabalho opressora. Em todo o país, especialmente nas grandes metrópoles, o trabalho docente tem encontrado muitos desafios. Entre eles, destacam-se a violência sofrida no ambiente escolar, a dupla ou tripla jornada de trabalho e concomitante falta de tempo para atividades de planejamento e

formação. Além disso, é preciso destacar no pensamento de Silva (2012, 2013 e 2014) a importância especial que concede às condições materiais para o trabalho do docente. Mesmo que seja bem formado, para fazer um bom trabalho é preciso contar com condições materiais favoráveis.

Na abordagem que se fez aqui do tema “relações entre literatura e escola,” percorreram-se vários outros desdobramentos temáticos afins a ele. Nesse circuito, foram apontadas algumas convicções oriundas da pesquisa de importantes pesquisadores brasileiros e de fora do país. Entre os temas contemplados estiveram:

 a relação histórica entre a literatura e a escola e os seus respectivos papeis;

 a escola como inculcadora de ideologias;

 o Estado e seus interesses ideológicos;

 a escola como uma máquina repisadora, um ambiente de repetição da linguagem encrática. Aquela, segundo Barthes (2010), que se constitui e se dissemina sob a proteção do poder;

 o lugar do texto literário na escola que se realiza a partir dos interesses de seu mantenedor;

 a necessidade de literaturização da escola a partir de mudanças na macroestrutura do poder educacional com desdobramento no fortalecimento do leitor, na democratização da sala de aula de literatura e o reconhecimento do poder político-pedagógico da literatura;

 a formação de comunidades de leitores como efeito de literaturização da escola;

 a crise do ensino de literatura apesar dos esforços articulados para o seu desenvolvimento;

 a prática de ensino de leitura literária na escola e seus objetivos e tensões;

 questões ligadas ao texto literário e sua recepção entre alunos do Ensino Médio;

 o retrato de uma escola que “concretamente” cria condições para práticas de leitura; e

 a importância concedida às condições materiais de trabalho do docente. Todos esses desdobramentos temáticos inerentes ao tema literatura e escola guardam já desenvolvido algum tipo de convicção e encaminhamento entre seus pesquisadores. Dentre essas convicções, algumas já são enraizadas e outras estão a caminho. Entre as que estão, a principal delas diz respeito ao fato do ensino de literatura ir muito mal na escola, não obstante esse não ser o enfoque desta pesquisa.

7.4 O LIVRO E LEITURA NO HABITUS DO PROFESSOR EM SUA