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A Escola Transmissiva e a Escola Construtiva

3. Modelos de Escola nas Representações da Família

3.1. A Escola Transmissiva e a Escola Construtiva

A escola transmissiva tem como principal função assegurar às crianças os ensinamentos básicos, tradicionais, sobrevivendo numa atitude de alheamento e até em oposição às realidades sociais e familiares. Este tipo de escola limita-se a inculcar saberes e valores pré-definidos, esquecendo os alunos como seres distintos, provenientes de meios e famílias distintas e com culturas bem diferenciadas. Os EE permanecem no exterior, pelo que a Escola se mantém afastada da comunidade e das famílias (Santiago, 1993). É a escola tradicional, com a qual a maioria dos EE, que hoje têm filhos na escola, foram confrontados no seu tempo e onde foram socializados e com base na qual, provavelmente, construíram as suas mesmas representações sociais acerca da escola e do seu papel nesta.

A escola transmissiva não valoriza os aspectos da individualidade do aluno, nem as experiências e conhecimentos de que este é portador. Considera que esta sapiência empírica, alcançada pelos alunos durante o seu processo de desenvolvimento, é ilusória e, como tal, pode ser potencial foco de perturbação do comportamento na escola, mais especificamente na sala de aula. Em compensação, é valorizado o grau de adesão do aluno à cultura emanada pela escola e que se alicerça em modelos preconcebidos de saber modesto e que são expostos como o produto terminado dos consensos culturais, sociais e científicos.

À escola transmissiva também é atribuída uma missão sócio-cultural e moral. Ela deve preparar os alunos para rapidamente entrarem no mundo do trabalho, transmitindo conhecimentos básicos e valores morais e culturais aceites pela sociedade. Segundo este estilo de aprendizagem, a criança é estimulada para a submissão e fidelidade aos valores que lhe são impostos. Não lhe é dado o direito de questionar. Todos se têm que identificar forçosamente com os modelos que lhes são apresentados. Os aspectos da personalidade e experiências subjectivas não têm qualquer valor.

Nesta perspectiva, o currículo é apresentado como um conjunto de saberes previamente definidos de uma forma rígida igual para todos, resultando daqui uma representação do ensino como um meio de selecção e modelagem de comportamentos, que visam a preparação do aluno para uma adaptação às estruturas sociais.

A Escola é um espaço fechado, independente da sociedade onde está inserida, recebe os alunos e, por vezes, ignora o meio sócio-familiar proveniente, dá-lhes instrução e depois devolve-os à sociedade. Assim sendo, a cultura de Escola, adopta

uma posição de algum isolamento face ao meio envolvente e das famílias, não havendo lugar à participação. Subsiste a representação de que a inteligência se desenvolve pela acumulação de conhecimentos, apelando à memorização. As dificuldades de aprendizagem eram atribuídas à falta de esforço, de aptidões e de atenção.

Fortes críticas se tecem em torno destes pressupostos em educação, tais como: tem carácter expositivo, o ensino está centrado nas actividades intelectuais, recusa as experiências individuais e o saber empírico, não reconhece as estruturas psicológicas específicas da criança, ignorando as fases de desenvolvimento, manifesta interesse pela origem sócio-cultural dos alunos e adapta-se melhor às classes sociais mais favorecidas, promovendo desigualdades.

No modelo de escola construtiva podemos encontrar princípios bem diferentes da anterior: esta enfatiza a construção progressiva da autonomia intelectual do aluno que é conseguida através da valorização da sua iniciativa e da experiência pessoal. Considera-se “o desenvolvimento como um processo interno à pessoa” e depreende-se que, o essencial na educação, são os processos e não os produtos de aprendizagem (Carvalho; Diogo, 1994:100-101). Privilegia-se, na sua acção educativa, o intercâmbio com as famílias e com a comunidade. Assim, os conhecimentos do aluno e das famílias tornam-se de grande utilidade e são tidos em conta para o desenvolvimento da aprendizagem. A Escola manifesta abertura ao meio com a intenção de entrosar o conhecimento social e familiar na acção educativa, daí resultando uma influência recíproca. Neste modelo de escola, é requerida a participação dos EE e da restante comunidade no processo de construção dos saberes pelos alunos (Santiago, 1996). Assim, o acto de ensinar processa-se a partir do acto de aprender, valorizando as experiências de vida do aluno, os seus interesses e necessidades imediatas e a longo prazo, e articulando as vivências escolares com as vivências na família e na comunidade. Para Santiago (1996) trata-se de um processo de individualização do ensino, que articula objectivos educacionais de tipo cognitivo ou instrumental com objectivos de cariz afectivo, social e moral. Estes são aspectos primordiais para o desenvolvimento global do aluno e para o crescimento das relações interpessoais que conduzem à formação de indivíduos capazes de saber ser e estar em sociedade.

Segundo esta filosofia de educação, a Escola deve organizar-se e abrir-se à comunidade e à Família, integrando, assim, a vida social e cultural do meio onde se insere. Nesta linha de pensamento, a Escola deve ter por princípio adaptar-se às diferenças e à individualidade de cada aluno e cada grupo. Neste modelo de Escola, os

Representações Sociais e Relações Família/Escola

EE e a comunidade envolvente têm um papel importante a desempenhar no processo educativo, tanto na promoção como na animação de actividades, bem como nas tomadas de decisão no plano da gestão escolar. Os EE devem assumir essas funções, envolvendo-se na dinâmica da Escola. A Escola deverá também ter sempre presente que lhe cabe a responsabilidade de criar condições adequadas para que o processo educativo se desenvolva num clima que facilite a autonomização dos alunos.

Mas se os princípios preconizados pela escola construtiva parecem conduzir a um estado perfeito em educação, o certo é que também se tecem algumas críticas à sua volta: pouca coerência entre os objectivos formulados e a prática educativa, confunde-se necessidades, interesses e iniciativas dos alunos com projectos propostos pelo Professor, continua a promover-se a estratificação social, apesar de integrar as representações externas sobre mudança.

Os modelos cujas características acabámos de expor são modelos ideais que apenas nos servem para melhor caracterizar as representações de Escola nos actores educativos. Segundo Santiago (1997:26), “os indivíduos, os grupos, as instituições e as instâncias de decisão educativa, constroem as representações da escola tendo por quadro de referência um continuum que se estende entre os dois paradigmas de escola”

Deste modo, a constituição de um corpo docente empenhado e dialogante pode gerar um ambiente de acolhimento e participação que estimule a intervenção dos diversos actores que compõem a comunidade educativa, possibilitando que cada vez mais, os EE possam ter um papel de evidência e interferir no funcionamento e no quotidiano escolar. Posto isto, cabe-nos a nós, os profissionais em Educação, desencadear acções e abrir as “portas” a novas e mais adequadas formas de intervenção da comunidade na vida das escolas, tendo presente que todos os parceiros são importantes condutores para a mudança de atitudes. É tempo de promover de dar espaço a esta representação.