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CAPÍTULO 2 POLÍTICA DE ESTADO DA SANTA SÉ PARA O BRASIL

2.3. A escolha do Coadjutor para o Cardeal Arcoverde

A crise do modelo de Estado liberal, que se estabeleceu ao longo da segunda década do século XX, já foi muito discutida pela historiografia a partir de abordagens e recortes temáticos variados 32. Nessa fase, a economia cafeeira entrou em crise e concomitantemente, fortaleceu-se a contestação do poder político das oligarquias regionais. Houve a consolidação do movimento operário, o crescimento da oposição de esquerda, com o PCB, a intensificação da crise econômica e o fortalecimento de grupos que se sentiam alijados ou não representados pela política dos Estados. Dois desses grupos eram: os tenentes e a Igreja Católica, que agiram politicamente nos governos de Epitácio Pessoa, Arthur Bernardes e Washington Luis, aproveitando a condição de instabilidade para organizar formas de pressão e de influência.

Dentro do exército crescia uma mentalidade intervencionista, que compreendia a corporação como capaz de interferir na política nacional. Uma tendência que se consolidaria, ao longo dos anos 1920, partindo de uma intervenção mais independente e isolada, em 1922 e 1924, e fortalecendo gradativamente, no final da década, o papel do exército como corporação e conjunto organizado, crente que era capaz de exercer o papel de pacificador e de mediador em caso de crises internas, colocando-se acima dos partidos políticos.

Ao longo do mesmo período, também a Igreja reivindicava para si o papel de pacificadora e mediadora. Apresentava-se como capaz de agir como árbitro nas disputas políticas nacionais, posição que vinha sendo construída internacionalmente pela Secretaria de Estado para a Igreja Católica, desde Leão XIII, intensificando-se, posteriormente, com Pio XII.

Tudo isso deve ser levado em conta na análise da aproximação das autoridades civis com Igreja Católica nessa fase. Para Bruneau que a Igreja agiu de maneira a “aumentar a sua legitimidade aos olhos do povo” 33. Nessa percepção, a

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José Murilo de Carvalho (2006), Boris Fausto (2006), Victor Nunes Leal (1975), Paulo Sérgio Pinheiro (2006), Aníbal Villela e Wilson Suzigan (1973), estão entre os muitos autores que estudaram esse período.

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aproximação entre o Estado e a Igreja teria sido condicionada pelo momento de crise vivido na Primeira República, tendo sido habilmente aproveitada pela confissão religiosa católica. Contudo, defende-se aqui que é prudente que esse momento seja analisado com base na inserção da Igreja Católica local num projeto maior e mais amplo, que vinha sendo executado pela Santa Sé há tempos. Em outras palavras, a aproximação entre o governo republicano e a Igreja Católica era um projeto de longo prazo e não uma ação construída simplesmente para atender aos interesses de um governo republicano abalado na sua estabilidade política. A Santa Sé agiu de maneira coerente com a sua estratégia de atuação e com o projeto estruturado para o Brasil desde Leão XIII.

Diante disso, a Secretaria de Estado articulou estratégias a serem seguidas pela hierarquia eclesiástica brasileira, de maneira a tirar o melhor proveito possível dentro do contexto político brasileiro que se desenhava no Brasil. Da mesma forma que já tinha feito no final do século XIX, planejava-se a intensificação do processo de “[...] restauração dos interesses do catholicismo n’essa Republica”, imprimindo um ritmo mais acelerado à cristianização do Estado Brasileiro 34.

Para a “defesa e conquista dos interesses católicos” era necessário que a liderança eclesiástica no Brasil, mais ligada à Santa Sé, portanto o cardinalato e a Nunciatura, criasse os meios mais eficientes de condução e organização de uma ação católica integrada e forte. Para executar uma tarefa de tamanha responsabilidade e tão complexa, a cúpula do Vaticano precisava escolher cuidadosamente o homem certo entre os membros do corpo eclesiástico nacional 35. A pessoa hierarquicamente mais indicada seria o Cardeal Joaquim Arcoverde. Contudo, ele estava velho e doente. Essa situação foi encarada pela Santa Sé como a oportunidade ideal para ascender à liderança da Igreja alguém com o perfil desejado.

Desde 1920 que a Santa Sé estava informada do agravamento do estado de saúde do Cardeal Arcoverde e vinha analisando e estudando como política de

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Despaccio, [Secretaria de Estado] 1917. Tradução de Lilian R. O. Rosa e Antonio Alfieri. A.S.V., A.E.S., Brasile, pos. 306, 308, 311, fasc. 27-29, ff. 23-26.

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Vários documentos (cartas, despachos, telegramas, relatórios, recortes de jornais, cópias de correspondências de bispos brasileiros constam de: Arcoverde, 1920 - 1924. Tradução de Lilian R. O. Rosa e Antonio Alfieri. A.S.V., A.E.S., Brasile, pos. 781 (IV), fasc. 152.

Estado a delicada questão da sua sucessão. Essa era uma situação complexa tanto no campo político como no religioso 36.

Politicamente, a escolha de um substituto para D. Joaquim Arcoverde deveria ser pensada com cautela, levando em conta o peso que o Brasil tinha dentro da política de Estado da Santa Sé para a América Latina. Afinal, com a morte de Arcoverde haveria uma corrida ao cardinalato por outros países do continente e essa disputa não envolveria, como se confirmaria alguns anos depois, somente as Igrejas Católicas locais, mas também os interesses políticos dos Estados.

Entre os anos de 1920 e 1921 nota-se, a partir do pedido oficial de um auxiliar feito pelo próprio Cardeal Arcoverde, a intensificação na correspondência entre a Nunciatura brasileira, a Congregação de Negócios Extraordinários e a Secretaria de Estado da Santa Sé sobre os procedimentos quanto à sucessão 37.

Diante do projeto da Secretaria de Estado para o Brasil e da expectativa de uma pressão advinda de outras nações latino americanas em torno da sucessão de Arcoverde, o Secretário Pietro Gasparri agiu rápido: respondeu que um auxiliar seria insuficiente e que seria nomeado um Coadjutor.

A Secretaria já tinha em mãos a concordância do Núncio Enrico Gasparri sobre quem deveria assumir esse cargo estratégico: D. Sebastião Leme. Tudo indica que também o presidente Epitácio Pessoa teria sido consultado, pois existem no Arquivo Secreto Vaticano telegramas confirmando as visitas e os contatos entre o presidente, o Núncio e o Monsenhor F. Cortesi, auditor da Nunciatura naquele período. Além dos indícios, da aprovação do governo republicano e da amizade existente entre D. Leme o Núncio, o seu trabalho era acompanhado pela Santa Sé desde a sua atuação como Bispo Auxiliar do Cardeal Arcoverde, no Rio de Janeiro, entre 1911 e 1916, período durante o qual as relações entre o Cardeal e D. Leme firam estremecidas 38.

O próprio D. Leme, antes de saber que seria nomeado, escreveu ao Núncio sobre as suas reservas relativas à Arcoverde:

36

Arcoverde, 1920 - 1924. A.S.V., A.E.S., Brasile, pos. 781 (IV), fasc. 152, passim. 37

Ibid. 38

[...] o ambiente do Rio está algo melhorado pela prudência e habilidade de Mons. Cortesi. Antes parecia que um estado de guerra separava os homens da Nunciatura. Eram intrigas, calunnias, vozes, boatos, etc. Tudo passou, graças a Deus. Si não fossem certas causas que V.Ex. facilmente adivinha, eu iria imediatamente visitar o novo Núncio. Entretanto, para tranquillidade moral e para evitar interpretações, não pretendo ir, impondo, assim, um sacrifício ao meu coração. V. E., que há de ser o mesmo Mons. Gasparri antigo para o mesmo Mons. Leme, me desculpará. [...] 39

D. Leme tratou nessa correspondência de dois assuntos que o Núncio já conhecia bem. O primeiro era o complexo trato entre a Nunciatura e as lideranças eclesiásticas instaladas no Rio de Janeiro, que se sentiam vigiadas e controladas pelo Núncio. O que não era de todo um engano. O segundo era o relacionamento pouco amistoso de D. Leme com o Cardeal Arcoverde e o grupo de eclesiásticos que ficava próximo a ele.

A Santa Sé ignorou esses conflitos internos e levou em conta a experiência do jovem Bispo, principalmente em Olinda e Recife, e o seu perfil de homem de ação, associado a uma formação na disciplina tridentina perfeitamente adaptada a situação brasileira e à “conformidade dos tempos”. Esse perfil desejado pela Santa Sé vinha dos posicionamentos e das ações de Leme. Ao assumir a diocese de Recife e Olinda, em 1916, o Bispo escreveu:

Somos a maioria e quase totalidade da nação. Agora bem [...] somos uma maioria cônscia dos seus deveres religiosos e sociais?

Infelizmente, parece-nos que não! [...]

Na verdade, os católicos, somos a maioria do Brasil e, no entanto, católicos não são os princípios e os órgãos da nossa vida política. Não é católica a Lei que nos rege. Da nossa fé prescindem os depositários da Autoridade.

Leigas são as nossas escolas, leigo o Ensino. Na fôrça armada da República, não se cuida de Religião.

Enfim, na engrenagem do Brasil oficial não vemos uma só manifestação de vida católica. [...]

Que maioria católica é essa, tão insensível, quando leis, governos, literatura, escolas, imprensa, indústria, comércio e todas as demais funções da vida nacional se revelam contrárias ou alheias aos princípios e práticas do Catolicismo?

[...] somos uma maioria que não cumpre os seus deveres sociais. [...] chegamos ao absurdo máximo de formarmos uma grande fôrça nacional, mas uma fôrça que não atua, e não influi, uma fôrça inerte. Somos, pois, uma maioria ineficiente.

39

Carta do Monsenhor Leme, Arcebispo de Olinda e Recife dando as boas vindas ao novo Núncio, 25 jan. 1921. A.S.V. Arch. Nunz. Brasile, Busta 173, fasc. 946, ff. 6-7.

Eis o grande mal. [...]

Ah! É certo, é evidente, é palpável que não sabemos aproveitar a nossa fôrça. [...]

Não agitamos, não movemos, não agimos.

Que propaganda fazemos? Que programa desdobramos? Que resistência opomos? [...]

O Brasil que aparece, o Brasil-Nação, esse não é nosso. É da minoria. [...]

Será no dia em que, instruídos na Religião, constituírem os católicos uma cruzada vencedora contra a descrença que assola e devasta a organização da Pátria. [...]

Seremos – oh! Aproxime Deus esse dia! – seremos a maioria absoluta do País, não somente pelo número, [mas] pela fôrça das nossas convicções e pelo clarão fulgente dos nossos arraiais40.

Era o que a Santa Sé projetava para o Brasil, nas palavras de um D. Leme inquieto, dinâmico, ativo e principalmente inconformado com a laicização, condição que perduraria nos próximos anos, mesmo depois de ter implantado ações de recristianização da sociedade brasileira.

Vivo angustiado com o muito que ainda não fiz e devo fazer. É formidável a responsabilidade dos bispos no atual momento histórico. Ou saímos a campo já, ou chegaremos tarde. Na parte que me toca essa reflexão, que não parece exagerada, enche-me o espírito de apreensões. Falam em questão operária, mas eu creio que o que está em jogo é a questão humana. A nós, homens de fé e da Igreja, cabe impor ao mundo a ordem cristã 41.

D. Leme era inconformado com mudanças que se processavam no mundo e achava que a hierarquia eclesiástica deveria assumir um papel atuante no controle e na contenção das transformações provocadas pela chamada modernidade, de maneira a implantar uma sociedade integralmente cristã. Foi essa visão de mundo em consonância com o projeto da Santa Sé, que o levou à liderança da Igreja Católica local, mesmo contra a sua própria vontade.

Em 16 de fevereiro de 1921, o Núncio escreveu para D. Leme informando que a Secretaria de Estado o havia nomeado Coadjutor “com futura sucessão Excelentíssimo Cardeal Arcoverde [...]” e solicitando ao Bispo que respondesse o

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Carta Pastoral de D. Leme, 1916 apud SANTO ROSÁRIO, Irm. Maria Regina do. (Laurita Pessoa Raja Gabaglia). O Cardeal Leme (1882 – 1942). Rio de Janeiro: José Olympio, 1962. p. 61-81. 41

Carta a Carlos de Laet, citada por Joaquim Mafra de Laet, na sessão da Confederação Católica de 28 de maio de 1936, apud SANTO ROSÁRIO, 1962, p. 53.

mais breve possível dando o seu consentimento à nomeação já feita42. Em 24 de fevereiro D. Leme recebeu a correspondência e respondeu imediatamente recusando o cargo:

[...]

Cumprindo este dever de coração, devo cumprir o que a consciência me impõe de confirmar o meu telegramma cifrado em que eu dizia: “tanto quanto em boa consciência posso recusar, eu recuso. Si depois de conhecer esta minha resposta, o S. Padre confirmar a nomeação já feita, só me resta concordar.”

O meu pensamento está claro: 1) não devo e não posso aceitar; 2) Não devo e não posso ir além do que me permite a docilidade e obediência devida ao S. Padre; por isso, si apezar da minha grave formula de recusa, S. Santidade, nomear-me, resignado, mas de coração largo, irei [...] 43.

Depois de ser taxativo em sua recusa, D. Leme seguiu a carta justificando sua decisão com base no comportamento pouco amistoso e até mesmo ofensivo que Arcoverde tinha assumido em relação a ele. O Bispo também afirmou não sentir-se competente e nem experiente o suficiente para assumir o cargo, além de desejar permanecer com a obra já iniciada em Olinda e Recife. D. Leme considerava a responsabilidade muito grande diante do momento que vivia o Brasil.

Nenhuma justificativa dada por D. Leme foi aceita pela Santa Sé. Por telegrama datado de 24 de março, D. Enrico informou que era desejo do Santo Padre que o Bispo aceitasse o cargo. Diante do posicionamento da cúpula do Vaticano, D. Leme resignou-se.

Por sua vez, Arcoverde recusava-se a ter um Coadjutor, antes mesmo de saber que este seria D. Leme. Chegou a ameaçar com a sua renúncia. Diante dessa situação, o Núncio escreveu a Pietro Gasparri informando sobre as providências que tomou para que o Cardeal Arcoverde aceitasse a nomeação de D. Leme e para evitar que vazasse para o público externo sua insatisfação com a escolha da Santa Sé.

Chamei à Nunciatura o Monsenhor Moura, secretário particular de sua Eminência e, depois de ter-lhe declarado que a nomeação já era um fato e que não havia mais possibilidade de modificação, [...]. Então, fiz [...] a conveniência, e também a necessidade, de se evitar

42

Carta de Enrico Gasparri para D. Leme, 16 fev. 1921. A.S.V., Arch. Nunz. Brasile, busta 173, fasc. 946, ff. 70-71.

43

Carta de D. Sebastião Leme recusando o cargo de Coadjutor, 25 fev. 1921. A.S.V., Arch. Nunz. Brasile, busta 173, fasc. 946, ff. 85-89.

que isto chegasse ao público, o que prejudicaria enormemente e sem vantagem alguma, o prestígio do Cardeal. Roguei, também, que o Monsenhor Moura embutisse no ânimo de Sua Eminência as seguintes ideias:

1. [...] era evidente que a escolha do Santo Padre recairia quase exclusivamente sobra a pessoa do Monsenhor Leme porque, já tendo sido auxiliar de Sua Eminência, era o único que conhecia perfeitamente o estado da Arquidiocese do Rio e, também, o mais apto a assumir a sua administração.

2. Que o Monsenhor Leme foi educado, formado e modelado pelo mesmo [...] Cardeal, e suas atitudes, e suas belas qualidades e, também, os seus bons resultados da sua administração redundarão todos em prestígio e glória de Sua Eminência.

3. Que o Monsenhor Leme era o único que poderia seguir os passos do Cardeal, que aplicaria os mesmos princípios de administração e o único que poderia estar a frente das numerosas obras iniciadas por Sua Eminência. [...].

Se o Cardeal se mostrar publicamente descontente com a escolha feita pela Santa Sé, colocando a parte o direito (que neste caso não favorece de fato o Cardeal), se teria um escândalo, que poderia ser, também, desfrutado pelos inimigos da Igreja, prejudicando sobremaneira o prestígio do Cardeal, o ato de Sua Eminência seria considerado como um desrespeito a Santa Sé, em desconformidade com a profunda veneração e incondicionada submissão ao Chefe da Igreja, qualidade especialíssima que brilhou sempre na pessoa do Cardeal Arcoverde!! 44.

A nomeação de D. Leme foi uma imposição da Santa Sé também para ele próprio quanto para Arcoverde e os seus subordinados. Essa determinação não deixava dúvidas do tipo de relação que se estabelecera entre o Vaticano e a Igreja Católica local, esta era uma parte inseparável da Igreja Católica Apostólica Romana, uma instituição hierárquica e que, com Pietro Gasparri, se tornava cada vez mais centralizadora. Mesmo que o Cardeal Arcoverde tenha se rebelado e ameaçado renunciar, que tenha desqualificado D. Leme, inclusive com palavras de baixo calão, a Santa Sé confiou que a relação hierárquica prevaleceria e o velho Cardeal não iria a público. Nas palavras do próprio Cardeal “[...] o Santo Padre o nomeou e nós devemos aceitá-lo bem [...]” 45.

D. Leme chegou ao Rio de Janeiro em 31 de julho e tomou posse da Arquidiocese em 05 de agosto de 1921 46. Logo depois de instalado, colocou em prática o plano da Santa Sé de defesa e conquista dos interesses católicos no Brasil.

44

Rapportto Nunziatura per C. Pietro Gasparri, 28 mar. 1921. Tradução de Lilian R. O. Rosa e Antonio Alfieri. A.S.V. Arch. Nunz. Brasile, busta 174, fasc. 946, ff. 76-81.

45

Ibid., ff. 76-81. 46