4. As mutações no mercado de trabalho
4.2. As principais mutações registadas no mercado de trabalho 1. A persistência do desemprego
4.2.2. A escolha do momento de saída do mercado de trabalho
É certo e sabido que, em condições de normal funcionamento do mercado de trabalho, o acesso à pensão de velhice processa-se no final da vida activa dos indivíduos, em geral, no decurso de um processo de transição de uma situação anterior de emprego e após o indivíduo atingir a idade legal de reforma.
Contudo, em contextos de mudança do mercado de trabalho, tendem a instituir-se algumas regras de flexibilização da idade de reforma. Em Portugal tais regras também existem (ver Anexo 1), cobrindo situações derivadas do exercício de profissões particularmente desgastantes, da natureza conjuntural a que determinadas actividades se encontram sujeitas, de situações de desemprego involuntário em idades avançadas ou, “apenas”, enquanto mecanismo de “reconhecimento” do desgaste resultante de longas carreiras contributivas.
Perante a existência de tais mecanismos e perante um contexto macroeconómico claramente desfavorável (em que, relembre-se, as taxas de desemprego têm vindo a atingir valores bastante elevados mesmo entre os trabalhadores mais velhos), no final de 2007 as pensões antecipadas representavam em Portugal 9,1% do total das pensões por velhice, o que corresponde a um stock de 134 mil pensões antecipadas num universo de 1480 mil pensões por velhice. Em termos comparativos, importa ter presente que em Dezembro de 1999 o peso das pensões antecipadas no total das pensões de velhice situava-se nos 3,3% e, em 2001, em 5,2%.
Assim, analisando a trajectória de evolução das pensões antecipadas num período longo (1999 a 200822) é possível verificar-se que estas têm vindo a observar uma trajectória constante de crescimento, sendo ainda possível detectar duas fases de pico nos anos imediatamente subsequentes à introdução de normas legislativas que, de certo modo, facilitaram o acesso à reforma antecipada23: fala-se, em concreto, das medidas implementadas em 1999 através dos Decretos-Lei 9/99 e 119/99, cujo impacto se verifica no acréscimo de pensões antecipadas registado em 2000 e 2001, assim como da medida excepcional introduzida no âmbito do Programa de Emprego e Protecção Social (PEPS), cujos reflexos se repercutiram quer em 2004, quer ainda em 2005. Já em 2008 registou-se um crescimento bastante mais moderado desta tipologia de pensões.
22 De acordo com os valores publicados, relativos ao último mês do respectivo ano.
23 Para uma análise detalhada das alterações legislativas introduzidas no domínio da flexibilização do acesso à pensão de velhice consultar Anexo 1.
Gráfico 17 – Evolução do número de pensões antecipadas, 1999-2008 (valores acumulados no final do ano)
0 20000 40000 60000 80000 100000 120000 140000 160000
1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008
Pensões antecipadas
Acréscimo das pensões antecipadas face ao ano anterior
Fonte: MTSS, Instituto de Informática (dados mensais disponíveis em www.seg-social.pt)
Considerando o motivo inerente à atribuição da pensão antecipada verifica-se que, entre 2005 e 2008, os regimes especiais24 viram o seu peso reduzir-se continuamente (representando estas situações, no final de 2008, apenas 4,9% do número total das pensões antecipadas existentes a essa data). Denota-se ainda a crescente importância que tem vindo a ser assumida pelas situações de desemprego de longa duração dos trabalhadores mais velhos que, no final de 2008, representavam 57,4% dos casos totais de antecipação da reforma.
24 Os regimes especiais integram as pensões antecipadas atribuídas às seguintes profissões ou sectores: Bailado;
Bordadeiras; CECA; Controladores de Tráfego Aéreo; Despachantes Oficiais; Eleitos Locais; Mineiros; Mineiros – Protocolo ECD; Mineiros – Protocolo Pirites Alentejanas; Pensões Extraordinárias Açores – Base das Lages;
Gráfico 18 – Distribuição das pensões antecipadas por motivo da antecipação, 2005-2008
0%
10%
20%
30%
40%
50%
60%
70%
80%
90%
100%
Jan-05 Mar-05 Mai-05 Jul-05 Set-05 Nov-05 Jan-06 Mar-06 Mai-06 Jul-06 Set-06 Nov-06 Jan-07 Mar-07 Mai-07 Jul-07 Set-07 Nov-07 Jan-08 Mar-08 Mai-08 Jul-08 Set-08 Nov-08
Regimes especiais Desemprego de longa duração Longas carreiras contributivas Fonte: MTSS, Instituto de Informática (dados mensais disponíveis em www.seg-social.pt)
Analisando a repartição das pensões antecipadas pelo respectivo enquadramento legal verifica-se que a antecipação da idade de reforma enquadrada à luz do Decreto-Lei 9/99, que representava cerca de 45% do total das pensões antecipadas em 2005, mantém um peso significativo na repartição de 2008. Importa, contudo, notar que sendo este um esquema de enquadramento fechado (que, por motivos meramente demográficos, desde Março de 2006 perdeu mais de 17 mil pensionistas).
Quanto às situações cobertas pela legislação introduzida em 2007 estas abrangiam, no final de 2008, 13,3% do total das situações de reforma antecipada, sendo a grande maioria dessas situações referentes a situações de antecipação sujeitas à aplicação do factor de redução.
Gráfico 19 – Enquadramento legal das reformas antecipadas, 2005 e 2008
Repartição dos pensionistas com reforma antecipada, segundo o enquadramento legal, 2005
Repartição dos pensionistas com reforma antecipada, segundo o enquadramento legal, 2008
Fonte: MTSS, Instituto de Informática (dados mensais disponíveis em www.seg-social.pt)
Importa notar que o enquadramento jurídico do acesso à pensão antecipada na sequência de desemprego de longa duração se reporta, não à data de acesso à pensão antecipada, mas sim à data em que os beneficiários requereram as prestações de desemprego. A taxa de redução aplicável à pensão varia, igualmente, em função da data de requerimento da prestação de desemprego uma vez que o acesso à pensão antecipada decorre da duração da prestação de desemprego.
Quadro 15 – Enquadramento legal das reformas antecipadas decorrentes da situação de desemprego, consoante a data de requerimento da prestação de desemprego
À data do desemprego À data do início da pensão
DL 119/99
Idade igual ou superior a 50 anos e pelo menos 20 anos civis com registo de remunerações
Idade igual ou superior a 55 anos; ter sido esgotado o período de concessão do Subsídio de Desemprego ou Subsídio Social de Desemprego (inicial); manutenção da situação de desemprego involuntário.
4,5% por cada ano de antecipação em relação
aos 60 anos
DL 84/2003
Idade igual ou superior a 55 anos e pelo menos 30 anos civis com registo de remunerações
Idade igual ou superior a 58 anos; concessão de, pelo menos, 30 meses de Subsídio de Desemprego ou Subsídio Social de Desemprego (inicial); manutenção da situação de desemprego involuntário.
Sem redução
DL 119/99
Idade igual ou superior a 50 anos e pelo menos 20 anos civis com registo de remunerações
Idade igual ou superior a 55 anos; ter sido esgotado o período de concessão do Subsídio de Desemprego ou Subsídio Social de Desemprego (inicial); manutenção da situação de desemprego involuntário.
0,5% por cada mês de antecipação em relação
aos 60 anos
DL 119/99 Idade igual ou superior a 55 anos
Idade igual ou superior a 60 anos; prazo de garantia para a atribuição da pensão de velhice; ter sido esgotado o período de concessão do Subsídio de Desemprego ou Subsídio Social de Desemprego (inicial); manutenção da situação de desemprego involuntário.
Sem redução
DL 220/2006
Idade igual ou superior a 52 anos e pelo menos 22 anos civis com registo de remunerações
Idade igual ou superior a 57 anos; ter sido esgotado o período de concessão do Subsídio de Desemprego ou Subsídio Social de Desemprego (inicial); manutenção da situação de desemprego involuntário.
0,5% por cada mês de antecipação em relação
aos 62 anos *
DL 220/2006 Idade igual ou superior a 57 anos
Idade igual ou superior a 62 anos; prazo de garantia para a atribuição da pensão de velhice; ter sido esgotado o período de concessão do Subsídio de Desemprego ou Subsídio Social de Desemprego (inicial); manutenção da situação de desemprego involuntário.
Sem redução *
* Se o desemprego resultar de cessação de contrato por mútuo acordo é aplicada uma taxa de redução adicional (que é anulada aos 65 anos)
Taxa de redução
Procedendo a uma análise de fluxo – e considerando o número de pensionistas cujo primeiro processamento de pensões de velhice do regime geral de segurança social ocorreu durante o ano de 2007 – verifica-se que, nesse ano, 40% dos novos pensionistas tiveram acesso à pensão de velhice por via da antecipação da idade de reforma. Por idades, verifica-se que 43%
dos pensionistas que em 2007 acederam à reforma antecipada tinham mais de 60 anos (entre 60 e 64 anos), 23% tinham 59 ou 60 anos e 34% tinham entre 55 e 58 anos de idade.
As situações de desemprego de longa duração foram, de longe, o principal motivo para o acesso à reforma antecipada, sendo que dos 30 mil novos casos de reforma antecipada registados em 2007 mais de 26,5 mil (ou seja, 87%) representaram transições do desemprego para a reforma.
Quadro 16 – Distribuição do número de pensões antecipadas com o primeiro processamento registado em 2007, por idade do pensionista e enquadramento legal
Com bonificação
DL.9/99 DL.187/07 DL.187/07 DL.119/99 DL.187/07 DL.84/2003 DL.119/99 DL187/07
55 0 0 1 1 0 0 0 1153 455 1608 16
TOTAL 2915 608 311 3834 5789 0 9469 6883 4402 26543 30377
Total Geral
Fonte: Centro Nacional de Pensões
Todavia, as medidas legislativas no domínio da flexibilização da idade de reforma, para além de considerarem a hipótese dos trabalhadores saírem antecipadamente do mercado de trabalho consideram, igualmente, a aplicação de medidas incentivadoras à permanência dos trabalhadores no mercado de trabalho após completarem a idade legal de reforma e após reunirem as condições de acesso à pensão.
Mas, embora em 2007 mais de 20% dos novos pensionistas se tenham reformado com mais de 65 anos de idade, apenas 2,1% tiveram acesso ao mecanismo de bonificação das pensões previsto na lei de flexibilização da idade de reforma. Este factor é revelador de que uma parcela significativa dos idosos portugueses continua a apresentar carreiras contributivas (com o respectivo registo de contribuições) inferiores ao prazo de garantia legalmente exigido.
De entre os que tiveram acesso à bonificação das pensões importa ainda notar que, em termos médios, a idade de acesso à pensão não se afastou muito da idade legal de reforma – em média, as pensões bonificadas foram atribuídas a pensionistas que adiaram o acesso à pensão de velhice por apenas 9 a 10 meses após terem completado os 65 anos de idade.
Importa ainda notar que 2007 foi um ano de transição em termos do enquadramento legal destas situações (sendo que o Decreto-Lei 187/2007 apenas entrou em vigor a partir do mês de Junho). Assim, para aqueles que em 2007 ainda acederam à pensão bonificada ao abrigo do Decreto-Lei 9/99 (4% dos casos), a idade média de acesso à pensão foi superior aos 68 anos (ou seja, cerca de dois anos e meio a mais do que a média de idades daqueles que, nesse mesmo ano, acederam à pensão bonificada ao abrigo do Decreto-Lei 187/2007).
A diferença no perfil de pensionistas enquadrados por cada um destes regimes legais faz-se ainda sentir ao nível da duração da carreira, do valor médio da remuneração de referência e, consequentemente, no valor médio da pensão atribuída. Os pensionistas que acederam à pensão bonificada ao abrigo do Decreto-Lei 9/99 apresentam, em média, cerca de 47 anos de carreira contributiva (mais 9 anos do que os pensionistas enquadrados através da nova
legislação de 2007), uma remuneração de referência superior a 1900 euros (face a 865 euros) e um valor médio de pensão próximo dos 2000 euros (face 700 euros dos restantes).
É ainda curioso destacar que a carreira contributiva dos beneficiários com pensões bonificadas é, em média, inferior à carreira contributiva das pensões antecipadas.
Quadro 17 – Valor médio da remuneração de referência, carreira contributiva e pensões com o primeiro processamento registado em 2007, por enquadramento legal
Pensionistas Idade Pensão Média Carreira Contributiva
Remuneração de Referência Total das novas pensões em 2007 75199 63.4 494.62 € 30.0 678.64 €
BONIFICADAS 1576 65.8 765.11 € 38.0 911.34 €
Das quais:
Bonificação DL9/99 68 68.3 1,972.47 € 46.9 1,925.27 €
Bonificação DL187/07 1508 65.7 710.67 € 37.6 865.62 €
Fonte: Centro Nacional de Pensões
No quadro das pensões bonificadas os homens representam a grande maioria (73%) dos beneficiários que acederam aos esquemas de bonificação. Para as pensões bonificadas atribuídas no âmbito do Decreto-Lei 9/99 a disparidade entre homens e mulheres é pouco significativa, tanto em termos das remunerações de referência, como de duração das carreiras contributivas, pelo que as pensões bonificadas das mulheres são apenas inferiores em 10% às pensões atribuídas aos homens. Já no âmbito do Decreto-Lei 187/2007, a base salarial de referência das mulheres corresponde a apenas cerca de 60% da dos homens e as suas carreiras são muito inferiores às dos homens (menos 14 anos de contribuições), factores que conduzem a que o valor da pensão bonificada das mulheres represente cerca de metade do valor das pensões bonificadas atribuídas aos homens.
Quadro 18 – Valores médios das pensões bonificadas com o primeiro processamento registado em 2007, por género e enquadramento legal
Sexo Total Pensionistas Média Idades
Anos de
Carreira Total Pensões Pensão Média
Valor Médio Remuneração
Referência
M 59 68.1 47.0 117779.5 1996.26 1969.66
F 9 69.6 46.3 16348.3 1816.48 1634.25
M 1085 65.4 41.6 879775.6 810.85 971.06
F 423 66.6 27.3 191910.7 453.69 595.17
Bonificação DL9/99
Bonificação DL187/07
Fonte: Centro Nacional de Pensões