2.2 EXTRAINDO OS DADOS
2.2.1 A ESCOLHA DOS PADRINHOS
Quanto à preferência no apadrinhamento para áreas como a nossa já se viu que a preferência recaía sobre indivíduos pertencentes à camada dos livres, denotando a tendência dos cativos em estabelecer relações verticais. Pode-se argumentar de maneira
contrária que as escolhas partiam do proprietário do escravo, que limitava a autonomia cativa, buscando padrinhos de seu próprio círculo de convivência. De fato essa questão não pode ser resolvida por inteiro, entretanto devemos acreditar que ambos os anseios poderiam estar satisfeitos uma vez que tanto escravos e libertos, como livres e parentes do senhor, e até senhores de outros escravos serviram de padrinhos. Cacilda Machado em seu estudo a Freguesia de São José dos Pinhais, a partir da análise de trajetórias familiares de escravos, aferiu que muitas delas estavam tecendo relações de compadrio com parentes de seus senhores, deduzindo que essa prática trazia algum grau de controle dos senhores sobre a socialização de seus cativos.69 Talvez os mundos dos escravos e de seus senhores não estavam tão distanciados como supõe os “xiitas” do tema. O distanciamento entre as funções de padrinho e senhor, padrão consagrado e anteriormente citado nesse trabalho, estava sendo mantido, uma vez que em “zero” ocasiões o proprietário figurava como padrinho em nossa amostragem.
De fato vemos que na maioria das anotações estão presentes padrinhos livres. Do total geral contabilizamos 157 batismos onde ambos, padrinho e madrinha, eram indivíduos livres, perfazendo 68% da amostragem. Ainda mais, se escolhermos somente o padrinho como livre, em 80% dos assentos eles compareciam, com o numeral de 185 anotações. Em nove ocasiões houve apenas o padrinho livre batizando a criança escrava.
Quando a escolha era mista, padrinho livre e madrinha escrava ou liberta, temos cerca de oito por cento dos registros com esse tipo de configuração, 17 casos com escrava e dois casos com madrinha liberta.
Passando a análise das madrinhas livres, constatamos que em 70% dos casos ela era livre, com 163 episódios. Em sete batismos só havia a presença de madrinha, três livres, duas escrava e duas liberta. Outro dado curioso constatado é que em nenhum dos registros de madrinha livre um escravo estava apadrinhando, o que denota que na escolha por indivíduos livres como compadres o papel masculino era mais valorizado, uma vez que trazia melhores condições de melhoria material aos seus afilhados. Dos 231 assentos de batismo devemos excluir dois casos em que o pároco batizou em “articulo mortis”, ou seja, a criança faleceu antes do rito de passagem.
Os resultados por nos encontrados se aproximam de um padrão estabelecido para áreas onde pequenas escravarias predominam como nos mostrou o estudo de Cacilda Machado para São José dos Pinhais, verificando em 70% dos registros batismais a escolha
69 MACHADO, Cacilda. A trama das vontades, negros, pardos e brancos na produção da hierarquia social do Brasil escravista. Rio de Janeiro: Apicuri, 2008. p.192.
de um par de padrinhos livres e menos de 20% em que ambos eram escravos. Completa sua análise com a observação de que quando a madrinha escolhida era escrava aumentavam as chances de o padrinho ser livre.70 Para localidades com grandes contingentes de escravos encontraram-se resultados diversos dos nossos. Notadamente nesses lugares o forte incremento realizado pelo tráfico proporcionou relações mais freqüentes dentro das comunidades escravas. Na região de Inhaúma, com grandes escravarias, José Roberto Góes também concluiu que dos batizados escravos, 66,6%
tinham como padrinhos outros escravos, “os escravos reunidos em plantéis menores buscavam padrinhos, via de regra, em cativos de outros senhores, e o inverso se dava nos maiores”.71
Para os assentos onde escravos serviram como padrinhos, observamos em nossas fontes para o período (1842-1863) que em dezoito ocasiões havia um par de escravos batizando outro escravo, perfazendo 8% do total. Quando consideramos ao menos o padrinho como escravo temos um soma de 31 casos, aumentando para 13% dos assentos, neste caso estamos computando nove apadrinhamentos com madrinha liberta e outros quatro casos onde aparece somente o padrinho escravo, com madrinha ausente. Em trinta e nove das ocasiões que encontramos escravas como madrinhas, cerca de 16% dos registros, em duas o padrinho era um liberto, e em dezessete era um indivíduo livre. Em apenas um registro casal de libertos serviu de padrinhos.
Ao levarmos em consideração a situação de legitimidade dos registros de batismos, veremos aumentar proporcionalmente a escolha de padrinhos condição social semelhante a dos pais. Dos 52 batizados legítimos, sete tem como padrinhos um par de escravos. Em dez rituais ao menos a madrinha era escrava, sendo três em conjunto com padrinho livre. Se selecionarmos os casos em que o padrinho era escravo temos quatorze ocorrências, totalizando por volta de 1/4 de nossa amostra relativa aos legítimos (52). Entre as crianças ilegítimas esse valor ficou em cerca de dez por cento dos 177 casos. Portanto os cativos com uniões legitimamente sancionadas pela Igreja procuraram mais freqüentemente seus padrinhos entre indivíduos de mesma condição jurídica.
Talvez as famílias escravas que não possuíam a distinção de ter seu relacionamento reconhecido legalmente poderiam estar estabelecendo relações de compadrio com pessoas
70 Op. Cit. MACHADO, 2006, p.52.
71 GÓES, José Roberto. O cativeiro imperfeito. Um estudo sobre a escravidão no Rio de Janeiro na primeira metade do século XIX. Vitória: Lineart, 1993. p.78
livres na tentativa de ganhar vantagens que a associação com elementos cativos não podiam trazer.
A seguir procuramos realizar algumas investigações em nossas fontes que possam trazer subsídios para corroborar a tese de que o ambiente local era propício a formação e estabilidade da família escrava. Nesse sentido a busca de determinados exemplos podem auxiliar na argumentação de que, a despeito das altas taxas de “ilegitimidade” expressas em vários assentos sob a anotação de “pai incógnito”. Recusamos, portanto, a constatação ligeira de que essas crianças batizadas não possuíam pai, mas concordamos com a assertiva de José Roberto Góes de que, por vezes, são crianças de cujo pai a fonte não nos fala.72
72 Idem, ibidem, p. 118