• Nenhum resultado encontrado

No I Cultura e Negritude, em Santo Amaro, a UFRB realizava um pedido de benção e de licença ao lugar para que ali começasse a realizar suas atividades Nesse encontro estavam

IV. SER-SENDO SUJEITO CULTURAL NA RELAÇÃO COM O LUGAR, NA TENSÃO, NA TRANSFORMAÇÃO E NO ENCONTRO COM AS

4.3 A condição de sujeito cultural em formação no BICULT

4.3.1 A escolha pelo curso e o ingresso no BICULT

Por que o BICULT? Essa foi uma questão que os estudantes apresentaram nas suas narrativas de forma espontânea. Falar do como chegaram ao BICULT e das suas dúvidas em relação ao curso era uma urgência apresentada nas reflexões dos estudantes dada a necessidade de se situarem nas suas jornadas formativas.

Dos estudantes entrevistados, apenas os dois estudantes de Santo Amaro tinham convicção de que queriam o BICULT, os outros estudantes ou escolheram porque foi o que a nota deu, ou o colocou como segunda opção. No entanto, a maioria tem se sentido contemplada com a experiência formativa que está tendo no curso.

Uma questão que povoava o imaginário dos estudantes e das pessoas à sua volta era o que viria a ser o BICULT. Os estudantes estavam ingressando em um curso totalmente novo: primeiro, porque os BIs são uma realidade nova no campo da formação acadêmica no Brasil; depois, porque eles fazem parte da primeira turma do curso. Portanto, não tinham referência

126

para entender como era o curso. As únicas referências que tinham eram os documentos sobre o curso que já estavam disponíveis na internet.

No contexto de reestruturação pedagógica dos cursos de graduação, atendendo a metas do REUNI, em 2009, e buscando inovações curriculares e formativas críticoemancipatórias na educação superior foram concebidos os cursos de Bacharelado Interdisciplinar. Esse projeto foi estruturado com vistas a uma formação de natureza interdisciplinar, com enfoque nas culturas humanística, artística e científica, articuladas a saberes concernentes aos referenciais locais. Os BIs inauguram uma forma inovadora de acesso à universidade, por meio de ciclos de formação, sendo um primeiro ciclo de formação geral e básica, garantindo acesso e preparação para a formação específica em cursos profissionalizantes. (Projeto Pedagógico do BICULT)

Os excertos abaixo mostram como se deu o processo de escolha/ingresso dos estudantes no BICULT, mostrando suas dúvidas, expectativas e inseguranças em relação ao curso.

O BICULT veio assim, eu não esperava muito, né? Eu tinha me inscrito para o ENEM, lá em casa todo mundo sempre teve o sonho que eu fizesse faculdade. Era um sonho meu também. Minha vó falava que a gente tinha que estudar para poder mudar de vida, né? E sempre foi cobrado muito o estudo lá em casa. Daí eu fiz o ENEM, e no processo seletivo tinham vários cursos, mas cursos que, tipo assim, eu não sentia... eu não sentia identificação. Eu queria fazer arquitetura, mas eu queria fazer arquitetura na UNEB. Eu já tinha feito o vestibular da UNEB, só que ainda faltava sair o resultado do vestibular da UNEB, aí eu peguei e vi todos os cursos assim, e lendo sobre o BICULT, foi o curso que eu mais me identifiquei, mas foi assim, meio que com os olhos fechados porque eu não sabia muito bem o que era BI, não sabia como era que se procedia o curso, mas achei interessante e me inscrevi. Aí eu não saí na primeira chamada da UNEB, aí quando saiu o resultado do processo seletivo do SISU, minha mãe me avisou que eu tinha passado, aí eu me inscrevi no BICULT aí eu peguei e me inscrevi no curso e fiquei aguardando, né? Ansiosa para saber como seria. Já ia ter muita mudança na minha vida. Eu ia mudar de casa, mudar de cidade. Ia morar sozinha aqui, né? Então foi bom até pra mim, porque eu fiquei em uma cidade mais próxima da minha casa, eu pensei isso tudo. Eu sabia o que ia sentir fora de casa. E graças a Deus! Eu escolhi certo, eu acho. Porque hoje está me contemplando em várias coisas que eu sei que não teria em outros cursos. Hoje eu me identifico muito com o curso que eu faço. (Pyedra. Entrevista narrativa, dezembro de 2015)

vim pra esse curso. Não conhecia o BICULT. Estou conhecendo. Estou tendo novos conhecimentos. Estou gostando muito. Eu não conhecia o curso. Vim por vim para conhecer mesmo, porque foi o que a nota deu, aí eu vim parar aqui, mas estou gostando do curso, do BICULT. Tou tendo várias experiências. (Girlany. Entrevista narrativa, dezembro de 2015)

Vim para o CECULT vai fazer 2 anos. Foi quando eu fazia o cursinho pré- vestibular da UPT7 e não era exatamente o que eu queria. Eu queria fazer psicologia. Só que eu tentei. Só que havia uma pressão dentro de casa de entrar

127 logo na faculdade, e eu fui e fiz o ENEM joguei pro SISU e passei no BICULT, e acabei... foi se colar colou porque acabei gostando e não penso em trocar de curso. Quer dizer, é... não penso em trocar não, porque quando acabar esse aqui eu penso em fazer psicologia, mas agora não. (Catherine. Entrevista narrativa, dezembro de 2015)

Eu escolhi o CECULT por causa daquela questão... dessa amplitude cultural, de se permitir sentir e conhecer o outro, porque até o momento eu não conheci nenhum outro curso que fosse assim... em nenhum centro, nenhum campus, nenhuma universidade, que lidasse tanto com a questão cultural quanto esse. E aquela questão de que eu quero fazer algo que depois traga algo de positivo, sabe? Tipo assim, pra minha terra, pra meu espaço. Ainda mais por se tratar de um centro dentro de Santo Amaro. Falei assim, não, não tem outro. É isso aí mesmo, porque eu fazer algo dentro da minha casa que pode trazer um significado, uma importância pro reconhecimento, pra aqui também. Não importa se, tipo assim, se depois saia, ter a questão de conviver com outras coisas que não sejam ligadas tanto assim a Santo Amaro, tanto à cultura daqui, mas foi por isso que escolhi o CECULT/BICULT, por essa questão cultural, por não ver isso em nenhum outro curso, e por achar assim que me representa, não só agora, como representará toda a comunidade mais para a frente, e eu quero sim ver mais pessoas daqui se sentindo representadas e aqui dentro tomando posse de um espaço que pode ser seu, que pode ser deles no caso. (Vinícius. Entrevista narrativa, dezembro de 2015)

Eu vim. No começo eu nem sabia. Eu tinha lido a proposta do curso, tinha gostado. Mas eu não imaginava assim o que poderia ser. Porque eu imaginava uma coisa, e tou vendo que é outra. Vim pro CECULT, eu sabia que seria um desafio, porque é um centro novo. Aí todo mundo falava assim para mim: “você sabe que é um centro novo e tal... no período que eu passei, eu tava trabalhando na UFRB (...)Aí quando eu passei, assim... os funcionários de lá, alguns professores falavam assim: “Tem certeza que você quer? Você sabe que é um centro novo, e vai ter muita dificuldade, e... além de ser um centro novo é um curso totalmente diferente” eu falei: não! Mas eu vou tentar, vou ver. E vindo pra cá, foi realmente tudo... eu imaginei uma coisa e tou vivendo outra, tou estudando outra, porque eu imaginei, sabe? Estudar culturas diversas, e a gente foca mais na cultura aqui, do Recôncavo, principalmente de Santo Amaro. Mas assim, é legal tá no CECULT, e às vezes, não sei, o espaço sufoca a gente, né? Porque não tem nem para onde ir dentro da Universidade, mas é legal. (Liziane. Entrevista narrativa, dezembro de 2015) Aí eu resolvo fazer ENEM, com a mente no curso de vernáculos. É tanto que eu fiquei assim, eu entrei na fila, no SISU, noventa vagas, aí eu era a noventa e oito. Fiquei lá na fila umas duas semanas, e a fila alterou três posições. Então eu já tava em noventa e cinco na primeira chamada. Aí o que foi que eu fiz: Ah! Tem um curso aqui em Santo Amaro! Li o que era o BICULT. Li o projeto Político Pedagógico dessa universidade e li o Projeto Político Pedagógico do Curso que eles estavam abrindo, que seria o nome “Engenharia do Espetáculo”, que mudou para Bacharelado Interdisciplinar em Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas, que na concepção era “Engelharia do Espetáculo”. E vim pra aqui porque era tudo muito meu, né? foi assim que eu vim parar no CECULT. (Rosângela. Entrevista narrativa, dezembro de 2015) Sempre estudei em Santo Amaro, aqui desde o primário. Agora estou fazendo esse curso do CECULT. Que foi assim, pra eu fazer o curso... eu sempre quis fazer faculdade mas não havia condição fazer faculdade fora, a presencial... à

128 distância, eu nunca achei importante fazer, à distância. Eu só faria uma faculdade à distância se fosse pra ter um emprego bom e aumentar o meu salário, que em relação a conhecimento eu achava que não daria. E quando a UFRB inaugurou em Santo Amaro, abriu, aí eu disse “agora eu vou fazer o ENEM”. Aí fiz o ENEM, em 2013; em 2014 entrei na UFRB. Vim pra aqui foi bem programado, aquela coisa de intuição. Pense! Porque eu fiz o ENEM, eu vou fazer, eu quero ser da primeira turma da Universidade em minha cidade. Isso foi muito engraçado porque pensei assim. Fui fiz o ENEM com esse fim e tanto que eu fiz o que? Coloquei a primeira opção em Santo Amaro, no BICULT, e a segunda opção em Cachoeira a noite, porque se eu trabalhando não ia atrapalhar, eu ia à noite. E voltar de manhã cedo para trabalhar. Foi bem assim intuitivo, eu não sei, mas foi uma coisa que eu direcionei, e deu certo. Não vim ao acaso, eu tinha vontade de fazer faculdade. E fiz o ENEM pensando em está aqui, e estou aqui já no terceiro semestre, já um ano. (Alberto. Entrevista narrativa, dezembro de 2015)

Uma dúvida que os estudantes ainda possuem é de qual é o seu real campo de atuação profissional, uma vez que a área da cultura não tem oferecido grandes possibilidades de inserção no “mercado de trabalho”. A forma como Murillo resolveu para si esta questão foi decidindo: “não vou fazer terminalidade não, vou fazer o mestrado”.