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O capítulo aborda a forma da decisão por uma ocupação nos diferentes grupos sociais durante os distintos períodos históricos da humanidade, sua transformação em campo disciplinar e prático, as diferentes concepções teórico/práticas de escolha ocupacional e seus desdobramentos, a escolha profissional dentro da perspectiva sócio-histórica e as práticas de orientação vocacional nas camadas pobres constituintes a sociedade brasileira.

3.1 A escolha profissional nos diferentes períodos históricos

O trabalho, enquanto dimensão da existência, sempre existiu nas sociedades dos homens. Porém, não se pode dizer que o homem sempre pode escolher de trabalhar naquilo que gostaria. No decorrer da história, os homens foram mais ou menos livres para escolher aquilo que gostariam de fazer.

Pimenta (1981, p.19) As primeiras comunidades humanas atribuíam às atividades ocupacionais de acordo com as habilidades peculiares apresentadas por cada gênero. Os homens eram responsáveis pelas tarefas que exigiam maior dispêndio da força muscular e do provimento alimentício, enquanto as mulheres eram incumbidas dos cuidados com a prole e dos afazeres domésticos. Nesse período histórico, não havia a preocupação com a escolha por uma determinada profissão, pois o trabalho não era encarado como um elemento propulsor para a satisfação tanto pessoal quanto social, mas, sim, era executado visando à sobrevivência da espécie (BOCK, S., 2006).

Na Idade Antiga, na sociedade greco-romana em sua complexa organização social, a divisão do trabalho era definida por grupo social de pertencimento ou por conveniência social. Nessa realidade sociocultural, os cidadãos nascidos na classe rica usufruíam privilégios e regalias peculiares de sua posição social, enquanto os indivíduos nascidos nas camadas pobres eram submetidos ao trabalho. Dessa maneira, as circunstâncias socioculturais e econômicas interferiam de forma decisiva na designação das atividades laborais do homem, que por sua vez, regulava e sustentava a estrutura social (ARANHA e MARTINS, 2003).

Durante a Idade Média, a sociedade feudal manteve esta forma de distribuição do trabalho, ou seja, pelo nascimento do indivíduo em sua classe social. Acrescentava-se aqui, como elemento importante, os desígnios divinos, como critério para atribuição. Sobre esse aspecto, afirma Bock, S. (2006), a igreja católica justificava a imposição social para a eleição

de uma profissão, sob a ótica de que o homem nascia predestinado a realizar uma missão divina aqui na Terra. Essa concepção religiosa prevaleceu durante o feudalismo, como frisa Bock, A. (2011a), negando ao homem o livre arbítrio acerca de suas decisões ocupacionais e impondo-lhe a naturalização de sua atividade de trabalho como herdada de sua família e/ou camada social.

O contexto histórico que contribuiu para o aparecimento das concepções e das práticas de orientação voltadas para o discernimento profissional de um indivíduo está intrinsecamente ligado à transição do sistema sócio-político-econômico feudal para o capitalista, sendo este o novo modelo produtivo e econômico. Tal sistema tornou-se hegemônico desencadeando severas mudanças na forma de poder, na relação de trabalho e nos meios de produção da sociedade pré-moderna. Essas alterações também corroboraram para a ruptura da conservadora concepção vocacional que o homem tinha de suas atividades laborais na época (BOCK, S., 2006).

Os primeiros escritos acerca da orientação profissional são datados de 1575, na obra do médico espanhol Juan Huarte, intitulada Examén de ingénions para las ciências. Em seus estudos, o autor afirmava que para auxiliar uma pessoa em seu processo de escolha ocupacional era imprescindível identificar suas aptidões inatas, que possibilitava que exercesse profissões adequadas ao seu conjunto de habilidades e competências individuais. Essa concepção, denominada inatista, concebia o indivíduo como portador, desde o nascimento, de determinadas capacidades, cabendo ao orientador apenas enquadrá-lo em um perfil profissional coerente às suas pré-disposições. (PIMENTA, 1984).

Na Idade Moderna, a consolidação e a expansão do capitalismo engendraram acentuadas transformações no estilo de vida da população mundial. Concomitante a esse período, eclodiu a revolução industrial na Inglaterra, que se disseminou por todo o mundo ocidental, desencadeando modificações no processo e na dinâmica das atividades de trabalho, como: a divisão social do trabalho, a especialização do serviço e a automação da técnica de produção. Nesse contexto, o trabalhador era forçado a adaptar-se ao recente modelo de produção industrial, submetendo-se aos novos encargos dos postos de trabalho e a exigência de saber manejar os equipamentos de produção de larga escala (WHITAKER, 1997).

Durante o período moderno, o capitalismo, sustentado pela concepção ideológica do liberalismo e pelo sistema produtivo taylorista/fordista, influenciou diretamente as práticas laborais da sociedade industrial. Nesse contexto histórico, as práticas de orientação profissional estavam voltadas para as demandas das grandes fábricas, consistindo na seleção da mão-de-obra adequada para a produção de bens de consumo em larga escala, visando,

dessa forma, maior produtividade e lucratividade. Deste modo, incidiam na eleição de uma ocupação pelo indivíduo mais as questões econômicas institucionais do que os interesses pessoais do sujeito (BOCK, S., 2010).

Nessa perspectiva produtiva e mercantil, que no início do século XX, na Europa e nos Estados Unidos foram criadas as primeiras instituições voltadas ao exercício de orientação vocacional centrada nas habilidades individuais do sujeito para o trabalho. O primeiro serviço de orientação ocupacional que se tem notícia teve sua fundação em Munique, na Alemanha, em 1902. Entretanto, a inauguração do centro de orientação profissional, em Boston nos Estados Unidos, em 1907, por Frank Parsons, tornou-se o marco oficial do nascimento da área de investigação e intervenção no processo de escolha por uma profissão de um indivíduo ou grupo (LASSANCEe SPARTA, 2003).

Na época, a ideia de organizar e estruturar locais específicos destinados às atividades de orientação para a escolha ocupacional, logo se disseminou pelos países europeus, conquistando muitos estudiosos adeptos a exercer tal prática. Na França, com Binet em 1906; na Suíça, com Claparède em 1916; na Espanha, com Myra y Lopes em 1919; na Inglaterra, com Meyers em 1920; na Itália, com Gemelli em 1921; dentre outros simpatizantes. Entretanto, esses profissionais adotavam diferentes concepções teóricas. Sendo assim, as suas instituições aplicavam distintos procedimentos metodológicos para orientar a escolha profissional (PIMENTA, 1984).

Mediante esse contexto, o norte-americano, Frank Parsons (1854-1908) é considerado o precursor das atividades de orientação para a escolha vocacional. Tal título é atribuído a ele devido aos seus inúmeros estudos voltados às práticas de intervenção na escolha ocupacional. Esses trabalhos contribuíram de forma significativa para a elaboração de constructos essenciais para esse campo disciplinar, especialmente em seu livro “choosing a vocation”

publicado em 1909. Nesta obra, o teórico sistematizou métodos e técnicas possíveis de aplicação nos atendimentos relacionados ao processo de escolha profissional de um indivíduo ou grupo (RIBEIRO e UVALDO, 2007).

No início, as práticas de orientação para a escolha vocacional foram marcadas pelo primado da psicologia, apesar dos inúmeros aportes teórico-metodológicos existentes. Essa supremacia da área mental é decorrente do frequente uso de técnicas psicológicas e psicométricas, como: o uso dos testes psicológicos, a aplicação de inventários, a informação profissional e o aconselhamento psicológico. Todos esses procedimentos tinham como finalidade conciliar as características inatas pessoais com algum tipo de perfil de profissão possível ao indivíduo exercer (FERRETI, 1988).

Na contemporaneidade, o processo de globalização da economia mundial, a adoção dos novos estilos de organização do trabalho e a inserção do aparato tecnológico no processo produtivo, desencadearam expressivas transformações na relação homem-trabalho-mundo, especialmente no mercado de trabalho. Nesse contexto, as concepções liberais disseminaram a ideia de que a escolha por uma profissão está vinculada à eleição por uma atividade de trabalho, a qual possibilitará o sujeito à ascensão profissional e social. No entanto, a escolha vocacional não é um processo simples, mas, sim, complexo e profundo, além de envolver aspectos psicológicos, sociais e econômicos da sociedade em que o indivíduo está inserido (LEVENFUS e SOARES, 2010).

A sociedade mundial vivencia um período denominado por alguns autores de pós- industriais (De Masi, 1999a, 1999b; Pochmann, 2001). Nesse contexto, o mundo do trabalho é competitivo, volátil e perverso, marcado pelo paradigma de redução do quadro funcional das fábricas, terceirização de serviço, limitação dos direitos trabalhistas, maior qualificação para cargos elementares nas empresas e o desemprego de uma grande parcela de trabalhadores. Entretanto, o discurso neoliberal camufla essa realidade e defende a concepção de que vivemos em condições semelhantes de oportunidades. Desse modo, os jovens têm um suposto livre arbítrio para escolher sua profissão. No entanto, na verdade, aqueles que não se adequam às exigências do mercado são excluídos deste (LASSANCEe SPARTA, 2003).

Diante dessa realidade, a escolha por uma profissão é um processo com dimensões pessoais e sociais, que ocorre de maneiras diferentes para os integrantes das distintas camadas sociais brasileiras. Geralmente, a camada alta pode custear a contratação de um serviço privado de orientação profissional, enquanto as camadas pobres, na maioria das vezes, não têm as mesmas oportunidades. Dessa forma, a escolha de uma ocupação acompanhada por um trabalho específico é privilégio de um pequeno contingente populacional, sendo assim uma atividade restrita e pouco acessível às pessoas oriundas das camadas menos favorecidas da sociedade contemporânea (FERRETI, 1988).

Nesse contexto, a escolha ocupacional torna-se uma área de intervenção e prestação de serviço do orientador vocacional que ocorre de forma gratuita ou particular em diferentes ambientes institucionais. Nessas práticas, buscam-se suscitar momentos de formação, de indagação e de reflexão acerca das profissões e do mundo do trabalho aos orientandos. Tal atividade deve suceder em sua execução de forma sequencial e contextualizada, levando em consideração, os aspectos: políticos, históricos, sociais, culturais e econômicos da sociedade, em que os participantes estão inseridos, na tentativa de garantir a melhor escolha possível pelo orientando (BOCK, S., 2010).

Na atualidade, segundo Oliveira (2009), há uma diversidade de visões teóricas neste campo, com matizes epistemológicos, metodológicos e procedimentos bastante diversificados, permitindo estudos mais aprofundados e posturas mais críticas durante as práticas interventivas de orientação para a escolha de uma profissão por um sujeito. Portanto, cada perspectiva teórica, a partir de uma concepção de homem e de mundo, desenvolve procedimentos interventivos distintos, voltados para o processo de escolha ocupacional de um indivíduo ou grupo.

3.2 A escolha profissional e as classificações de orientação vocacional

A questão da escolha profissional não pode ser considerada um problema natural e universal dos seres humanos. A ideia de liberdade de escolha profissional constitui-se em dada base material, o capitalismo, que recoloca a temática do trabalho para além da mera sobrevivência pessoal.

Bock, S. (2006, p. 25) Desde o início as práticas dos orientadores vocacionais tinham como balizes as diferentes abordagens teóricas. Tais correntes metodológico-científicas de formação para o trabalho foram agrupadas, pelo orientador vocacional, John Orr Crites (1969), em três grandes categorias: as teorias não psicológicas, teorias psicológicas e as teorias gerais. Entretanto, o procedimento de categorização infelizmente reuniu em um mesmo grupo, diferentes concepções teóricas divergentes quanto à compreensão do processo de escolha profissional. Havia aquelas que defendiam a ideia de fatores determinantes intrínsecos ao sujeito e outras que atribuíam a elementos extrínsecos ao indivíduo para a escolha ocupacional (PIMENTA, 1984).

Na classificação denominada de teorias não psicológicas estavam inseridos os seguintes arcabouços teóricos: a teoria do acidente, a teoria econômica, a teoria cultural e a teoria sociológica. Essas teorias entendiam que o processo de escolha profissional era influenciado pelo contexto social, cultural e econômico, no qual a família e o indivíduo encontravam-se inseridos, ou seja, a escolha ocupacional do sujeito ocorria por fatores externos, independentemente de suas habilidades e aspirações. Dessa forma, essas teorias em suas práticas interventivas, voltadas para a escolha da profissão, privilegiavam os aspectos externos sobre os internos (BOCK, S., 2006).

No agrupamento chamado de teorias psicológicas estavam arrolados os seguintes matizes científicos: teoria de traço e fator, teorias psicodinâmicas, teorias da personalidade, teorias desenvolvimentais e teorias decisionais. Essas abordagens teórico-práticas concebiam

a escolha ocupacional como um fenômeno interno, ou melhor, era consequência de um processo de desenvolvimento e de maturação de aptidões inatas do indivíduo. Desse modo, as atividades de intervenção estavam centradas no sujeito, visando à manifestação do amadurecimento das habilidades individuais, em detrimento, das questões socioculturais e econômicas. (PIMENTA e KAWASHITA, 1984).

Na categorização intitulada de teorias gerais encontravam-se alocados os constructos teóricos advindos de distintas áreas das ciências. Neste enfoque tentava compreender o processo de escolha vocacional abarcando as implicações dos fatores psicológicos e socioeconômicos. Essa abordagem tinha Blau (1968) como seu principal expoente, o qual se aventurava em perspectiva holística interdisciplinar para demonstrar a importância dos aspectos mentais e econômicos para a decisão ocupacional do indivíduo. Neste contexto, as práticas orientação profissional tentavam envolver os fatores tanto internos quanto externos ao sujeito (BOCK, S., 2006).

No Brasil, o orientador vocacional Silvio Bock, em 2002, ao analisar a classificação esbouçada por John Orr Crites (1969), percebeu as divergências conceituais e/ou metodológicas entre as teorias, mesmo entre aquelas postas em um grupo classificatório similar. Na tentativa de fornecer parâmetros mais rígidos e a partir das concepções subjacentes de homem e de sociedade, o autor realizou uma reclassificação teórica consistido em três grandes blocos: as teorias tradicionais (abordagem liberal), as teorias críticas e as teorias para além da crítica. Nesse processo de classificação, a concepção de homem e sociedade foi evidenciada, em detrimento dos procedimentos metodológicos e técnicos das distintas abordagens teóricas (OLIVEIRA, 2009).

As teorias tradicionais de orientação profissional concebem a escolha ocupacional, a partir de um princípio de conciliação entre as habilidades inatas do indivíduo e os vários perfis de profissão existentes. Nessa abordagem, utilizam-se instrumentos como: testes, inventários, entrevistas, dramatizações, dentre outros recursos. Tais procedimentos tinham como finalidade conhecer os traços específicos de personalidade, aptidões inatas e determinados interesses do orientando; em seguida, buscava-se enquadrá-lo em um espectro profissional. Nessa perspectiva, o homem nasce com determinadas capacidades que o profissional deverá identificar para orientar o indivíduo em sua colocação profissional no mundo do trabalho (BOCK, S., 2006).

Essas perspectivas teóricas defendiam a concepção de que a escolha profissional ocorria por meio de um processo complexo e gradativo de desenvolvimento, no qual o indivíduo alcançaria a maturidade psicológica e o autorreconhecimento de suas capacidades

inatas. No momento da escolha ocupacional, a profissão eleita seria a resultante da negociação entre as exigências psíquicas e a necessidade da realidade social. Sobre esse aspecto, complementa Mello (2002) ―por mais rudimentar, tortuoso, preconceituoso, simplista ou impulsivo que seja o processo mental de escolha, nele o jovem sempre usa algum tipo de autodiagnóstico e de autoprognóstico‖ (p. 107). Nesse contexto, o sujeito torna-se passivo quanto a sua autonomia no processo de escolha vocacional.

As teorias críticas de orientação vocacional surgem, no Brasil, como uma crítica à abordagem tradicional. Os principais questionamentos se referem à visão naturalizadora destas abordagens. São questionados os conceitos de aptidão, de vocação e dom. O sujeito, ainda que se mantenha como aquele que escolhe, precisa ser analisado em sua inserção em uma sociedade, na qual o modo de produção, as classes sociais e a ideologia são fatores determinantes e essenciais da escolha. Ficavam assim questionadas as visões estritamente psicológicas e de perfis que alimentavam o campo da orientação profissional, hegemônicas naquele período histórico (OLIVEIRA, 2009).

As teorias para além da crítica nascem a partir de uma tentativa de superação da dualidade entre o indivíduo e a sociedade que marcou os paradigmas teórico-científicos tradicionais e que as abordagens críticas não superaram. A abordagem sócio-histórica aceita as visões das teorias críticas; entretanto, Bock, S. (2006) assinala a necessidade de ―um avanço na compreensão da relação indivíduo-sociedade, de forma dialética, e não idealista ou liberal; isto é, deve-se caminhar para a compreensão do indivíduo como ator e ao mesmo tempo autor de sua individualidade‖ (p. 67), concebendo-o como um ser ativo, social e histórico em sua constituição subjetiva e coletiva, e essa realidade embasará sua decisão durante o processo de escolha ocupacional.

O autor acrescenta que a perspectiva sócio-histórica emerge como uma alternativa para a superação da dicotomia indivíduo-sociedade, ou seja, ―não há ruptura do indivíduo com a sociedade e nem a sua anulação enquanto ser singular‖ (p. 70). Nessa abordagem as práticas de orientação para escolha profissional são concebidas como um fenômeno marcado por eventos históricos, culturais, políticos, sociais e econômicos. Tais iniciativas devem auxiliar o indivíduo em seu processo de escolha ocupacional, a partir de uma relação interacional entre indivíduo-sociedade, quando, ao modificar o contexto sociocultural, o indivíduo torna-se homem, e ao tornar-se homem possibilita o autoconhecimento e a autorreflexão de suas ações no mundo.

3.3 A escolha profissional na perspectiva sóciohistórica

A escolha profissional resulta de um processo, mas efetivada em determinado momento, estabelecido socioculturalmente. A ocasião da escolha profissional não acontece em função de um pressuposto amadurecimento biopsicológico do indivíduo, mas é determinada pela cultura educacional/profissional de uma classe e/ou de uma sociedade.

Bock, S., (2006, p. 179) A psicologia sócio-histórica nasceu partir do marxismo adotando como filosofia, teoria e método, o materialismo histórico e dialético, elaborado por Karl Marx e Friedrich Engels (1818-1883). Este constructo científico possui uma compreensão de homem e de mundo a partir de uma constituição dialética de único processo, como frisa Bock, A. (2011a) ―são dois aspectos de um mesmo movimento, de um processo no qual o homem atua e constrói/modifica o mundo e este, por sua vez, propicia os elementos para a constituição do homem‖ (p. 22). Desse modo, o mundo objetivo só existe por meio da atividade humana, onde cada transformação oferece condições para sucessivas transformações, em um processo histórico e social, e não natural.

A abordagem sócio-histórica defende a concepção que para compreender o homem é imprescindível concebê-lo como um ser ativo, social e histórico, que se constitui dialeticamente em sua interação com o meio sociocultural. Por esta razão, não pode ser visto como um sujeito estratificado ou dicotômico, mas sim, constituído a partir de suas relações mediadas por instrumentos construídos historicamente, em um mundo complexo e contraditório. Sobre esse contexto, afirma Gonçalves (2011a), ―não há um homem universal, não há homem que se realize individualmente. Há homens concretos, determinados pela realidade social e histórica e, ao mesmo tempo, determinantes dessa realidade, através da ação coletiva‖ (p. 50).

Nessa perspectiva, a escolha por uma profissão é marcada por múltiplas determinações de dimensões pessoais, sociais, econômicas e históricas. O processo de escolher vivenciado por um sujeito se constitui a partir das exigências individuais e coletivas de um determinado grupo e contexto social. O sujeito escolhe uma ocupação em um movimento dialético, como enfatizam Aguiar, Bock, A. e Ozella (2011), ―o indivíduo irá se constituindo, constituindo também suas formas de pensar, sentir, agir, além de construir e expressar nesse processo suas formas de escolher. As formas de escolher do indivíduo, portanto, expressam sua consciência, e assim sua saúde/doença‖ (p. 172).

A partir desta concepção, Bock, S. (2006) propõe uma prática de orientação para a escolha ocupacional ―que entenda o indivíduo em sua relação com a sociedade, superando visões que o colocam como mero reflexo da sociedade ou como totalmente autônomo em relação a ela‖ (p. 69). O autor defende um trabalho voltado para a escolha vocacional, abordando alguns determinantes, como: mercado de trabalho, relações familiares, os meios de comunicação e o provimento de informações acerca das profissões, buscando suscitar momentos de reflexões durante o processo de orientação, na tentativa de oportunizar escolhas mais realistas e coerentes com os aspectos socioeconômicos dos orientandos, principalmente aos jovens provenientes das camadas pobres.

Nesse sentido, as práticas de orientação profissional na Psicologia sócio-histórica, segundo Aguiar, Bock, A. e Ozella (2011) tornam-se uma atividade de promoção da saúde ―o indivíduo se constrói numa relação de mediação com o meio social e, portanto, saúde e doença estarão sendo construídas nesse processo‖ (p. 171). Dessa maneira, o profissional ao

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