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3.2 – A Escrita do Outro como Referencial

Seguindo o percurso da análise imagética será de vital importância considerar mais atentamente o conceito de perspectiva597– uma marca importante do Renascimento598–, pois,

595 Ana Lúcia Vieira, A Alteridade na Literatura de Viagens Quinhentista: olhares e escritas de Jean de Léry e

de Fernão Cardim sobre o índio brasileiro, Lisboa, Colibri, 2008, p. 127-128.

596 Carlos Geovane Steigleder, Staden, Thevet e Léry: olhares europeus sobre o índio e sua religiosidade, São

Luiz-MA, EDUFMA, 2010, p. 64.

597 “No Renascimento a palavra “perspectiva” – embora continuasse também a manter a sua tradicional acepção

– adquiriu um novo significado com a descoberta técnica pictórica que permitia representar uma cena tridimensional num plano, a partir de um ponto de fuga. O primeiro tratado sobre esta técnica foi escrito por Alberti e intitula-se De Pictura (1446). Antes dele, porém, já Masaccio (1401-1429) e Fra Filippo Lippi (1406- 1469?) tinham estabelecido correctamente alguns princípios de perspectiva. A técnica atingiu o seu apogeu com mestres como Leonardo da Vinci (1452-1519), Albert Dürer (1471-1528) e Rafael (1483-1520), entre outros. No seu Trattato dela Pittura, Leonardo da Vinci dedicou-lhe um longo capítulo, mas embora começassem a circular cópias manuscritas logo após a sua morte, o tratado só veio a ser impresso em 1651. O primeiro tratado francês sobre perspectiva foi escrito e publicado por Jean Cousin (1501-1590), mas o verdadeiro fundador da perspectiva teórica foi Ubaldo del Monte (1545-1607), autor de um livro de referência intitulado Perspectiva libri sex (1600)”. Luís Miguel Bernardo, Histórias da Luz e das Cores, vol. 1, 2.a ed., Porto, Universidade do

Porto, 2009, p. 279.

598 “Dentre as inovações surgidas durante o Renascimento, existe uma que marcou definitivamente a história da

ciência, da técnica e da arte: a invenção da perspectiva plana”. Andreia Guerra, Marco Braga, José Cláudio Reis,

Breve História da Ciência Moderna, das máquinas do mundo ao universo-máquina (séc. XV a XVII), vol. 2, 3.a

196 Jean de Léry faz uso prático deste conceito que evidencia o olhar do Outro como referencial de interpretação do mundo que o cerca. Olhar através do índio tupinambá transformando-o nas lentes que possibilitam enxergar e construir uma tradução do próprio europeu. O índio tupinambá é uma janela aberta para a Europa através da qual Jean de Léry olha atentamente com o objetivo de compreender o seu próprio mundo por meio da aplicação de uma concepção científica de sua época, além do mais, evidencia-se como uma expressão da íntima relação existente entre o calvinismo e o progresso da ciência moderna.599 Assim sendo, “esse sistema lhe permite reproduzir a natureza com maior fidelidade”.600

Segundo Panofsky, “„Perspectiva‟ é uma palavra latina que significa „ver através de‟”.601 Em Jean de Léry, o uso da perspectiva é traduzido como um olhar através do

tupinambá para enxergar a si mesmo. Utilizada como um modo de interpretar uma representação imagética, a perspectiva...

se transforma em uma “janela”, através da qual cremos olhar o espaço, isto é, quando a superfície material, pictórica ou em relevo, sobre a qual aparecem, desenhadas ou esculpidas, as formas das figuras individuais ou das coisas, é negada como tal e transformada no “plano figurativo” sobre o qual se projeta um espaço unitário visto através dele e compreendendo todas as coisas – independentemente do fato de que essa projeção seja construída com base na impressão sensível imediata ou mesmo mediante uma construção geométrica mais ou menos “correta”.602

Utilizado deste modo, o uso do conceito de perspectiva nas representações imagética aponta para a intenção objetiva do autor em representar a verdade, a realidade dos fatos como realmente se apresentam ao olhar, sem distorções ou imposições de quem as representa.603

599“A invenção da perspectiva não teve consequências puramente técnicas ou artísticas. Pode-se dizer que foi a

expressão de uma transformação maior. Num primeiro momento, ela educou o olhar dos florentinos e, em seguida, do restante da Europa. Diversas pinturas de outros povos da mesma época não possuem essa expressão da tridimensionalidade. O novo olhar foi de fundamental importância para as observações que passaram a ser feitas a partir daquele momento, tanto no campo da astronomia, com os telescópios, como no da história natural, com os microscópios”. Andreia Guerra, Marco Braga, José Cláudio Reis, Breve História da Ciência Moderna,

das máquinas do mundo ao universo-máquina (séc. XV a XVII), vol. 2, 3.a ed., Rio de Janeiro, Jorge Zahar,

2010, p. 44.

600 Maria Cândida Ferreira de Almeida, Tornar-se Outro, o topos canibal na literatura brasileira, São Paulo,

Annablume, 2002, p. 135.

601 Erwin Panofsky, A Perspectiva como Forma Simbólica in Giulio Carlo Argan, História da Arte Italiana, vol.

2, São Paulo, Cosac & Naify, 2003, p. 108.

602 Erwin Panofsky, A Perspectiva como Forma Simbólica in Giulio Carlo Argan, História da Arte Italiana, vol.

2, São Paulo, Cosac & Naify, 2003, p. 108.

603 No Renascimento “o espírito investigativo tomou conta desse homem “universal”, que buscou novas

maneiras de desenvolver suas obras, seja por meio do uso de novas técnicas de pintura, seja por meio do uso da perspectiva, que o ajudaram a alcançar uma representação mais fiel da realidade”. Patrícia Rita Cortellazzo, A

197 Esta intenção se coaduna com o real ofício do historiador, conforme expõe Dosse ao versar sobre Michel de Certeau como historiador:

A história permanece como uma mescla, ela nasceu de uma ruptura inicial com o mundo da epopeia e do mito. A erudição da história tem por função reduzir o erro da fábula, diagnosticar o falso, escantear o falsificável, mas com uma incapacidade estrutural para dar acesso a uma verdade estabelecida pelo vivido no passado. Esta posição, fundamentalmente de mediação, faz com que a história se situe entre um discurso fechado, que é seu modo de inteligibilidade, e uma prática que remete a uma realidade.604

Essa relação inscreve Jean de Léry no ofício de historiador, ou, como segundo afirma Michel de Certeau, Léry apresenta uma lição de escrita, uma operação historiográfica.605 Obviamente não há isenção e neutralidade do historiador que produz uma interpretação da realidade, porquanto está inserido em um lugar social que autoriza o seu discurso. No entanto, evidencia-se em Léry o seu desejo de não interferir consciente e premeditadamente nas representações imagéticas, ou objetivando interesses desonestos, mas, contrariamente, expressa uma honestidade não impositiva na sua análise. A operação historiográfica se caracteriza como uma “revelação da verdade”.606

O objetivo primordial de Jean de Léry é apresentar o real, mesmo que condicionado às limitações próprias da atividade histórica em reter na sua totalidade o objeto intencionado. Desta feita, as representações imagéticas em Jean de Léry se constituem em um espelho do real para entender a si próprio. Possivelmente o grande programa intelectual de Michel de Certeau tenha sido o de questionar a relação entre escrita e história, até que ponto a escrita reflete de fato o real, assim sendo, em Léry encontra um historiador que está de fato compromissado em apresentar um discurso, escrito ou imagético, que seja compromissado com o real que se expressa através de processos científicos modernos e inovadores, e acima de tudo respeitosos com o sujeito historiografado.

Giulio Argan, historiador da arte, é esclarecedor ao apresentar o pensamento do humanismo como influência produtora de modificação nas concepções de espaço e tempo. Deste modo, “os infinitos e diversos aspectos do real classificam-se e ordenam-se em um

604 François Dosse, De Certeau: un historiador de la alteridad in Perla Chinchilla (coord), Michel de Certau, un

pensador de la diferencia, Ciudad de México, Universidad Iberoamericana, 2009, p. 21.

605 Michel de Certeau, A Escrita da História, 2.ª ed., Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2002, p. 214-216. 606 Françoise Dosse, A História à Prova do Tempo: da história em migalhas ao resgate do sentido, São Paulo,

198 sistema racional, manifestam-se em uma forma unitária e universal, o espaço. Do mesmo modo ordenam-se os infinitos e diversos eventos que se sucedem no tempo”.607 A perspectiva

é uma ocupação formal e representativa do espaço segundo um modelo racional, Jean de Léry expressa este modelo moderno, no entanto, vai além, porque segue em um lógica histórica, porque, constrói uma sucessão de eventos em suas representações imagéticas. Assim, atesta Argan a operação imagética de Jean de Léry como uma construção histórica da realidade que presenciou, um registro compromissado com a verdade dos fatos que representa. Observemos:

Uma vez que essa ordem não está nas coisas, mas é imposta às coisas pela razão humana que as pensa, não há diferença entre a construção e a representação do espaço e do tempo. A perspectiva dá o verdadeiro espaço, isto é, uma realidade da qual é eliminado tudo o que é casual, irrelevante ou contraditório; a história dá o verdadeiro tempo, isto é, uma sucessão de fatos da qual é eliminado o que é ocasional, insignificante, irracional. A perspectiva constrói racionalmente a representação da realidade natural, a história, a representação da realidade humana: pois que o mundo é natureza e humanidade, perspectiva e história se integram e, juntas, formam uma concepção unitária do mundo.608

O uso do conceito de perspectiva que é aplicado às representações imagéticas em Jean de Léry não está condicionado às imagens somente, mas transcende a estas, e passa a figurar em seu próprio texto de um modo pictórico. A descrição minuciosa leva o leitor a viajar juntamente com o autor, inserindo-o na realidade a qual é construída por imagens mentais fidedignas. De fato, o discurso escrito ou imagético na obra História de uma Viagem feita à Terra do Brasil, também chamada América, provocam a utilização do índio tupinambá como um paralelo de análise, um parâmetro interpretativo para a realidade europeia, e até mesmo para o próprio europeu. Esta imagem realista converte-se em um espelho para o europeu conhecer a si mesmo.

Esta relação entre perspectiva (espaço) e história levantada por Argan apontam para a análise de Michel de Certeau no que diz respeito à relação entre espacialidade e temporalidade. Para Certeau esta espacialidade apresenta-se como um quadro que coincide com o de um sistema sem história que na construção elaborada por Jean de Léry transforma- se em uma construção histórica, ou seja, ele concede pela operação historiográfica uma genealogia ao índio tupinambá, um exorcismo da morte histórica. Esta concepção de mundo,

607 Giulio Carlo Argan, História da Arte Italiana, vol. 2, São Paulo, Cosac & Naify, 2003, p. 131. 608 Giulio Carlo Argan, História da Arte Italiana, vol. 2, São Paulo, Cosac & Naify, 2003, p. 132.

199 em Léry é exatamente a construção etnográfica que tem como objetivo a articulação das leis que organizam o espaço que pertence ao Outro, privilegiado pela fidelidade do relato historiográfico. Portanto, nesta dialética entre natureza e cultura a lição de escrita que Jean de Léry apresenta se constitui como uma interpretação, uma hermenêutica do Outro, e acima de tudo uma interpretação de si mesmo pelo Outro, a sua heterologia propriamente dita. Nesta ciência do Outro, segundo Certeau criação de Léry, encontramos um discurso do Outro, sobre o Outro que produz o clímax onde o Outro mesmo é quem fala. Deste modo, no uso da teoria da perspectiva, Léry dá voz ao índio tupinambá para expressar o seu discurso mais intrinsecamente verdadeiro ao registrar em suas representações imagéticas a realidade que fora por ele mesmo presenciada. Assevera Dosse: “a intervenção do historiador pressupõe dar espaço ao outro, sempre mantendo o vínculo com o sujeito que fabrica o discurso histórico”609; é exatamente esta ação que encontramos vívida em Léry em sua relação com

Outro, o índio tupinambá do século XVI no Brasil. Uma preservação da verdade discursiva que possibilita a construção história, portanto, etnológica e heterológica. De modo que, ao fazer uso do Outro como referencial, Léry se utiliza de uma circularidade hermenêutica, em que o índio é trazido como objeto imagético e literário que lhe permite um retorno nesta viagem interpretativa a si mesmo, contudo, mediado ou “através de” (perspectiva) o tupinambá, mais uma vez evidenciando a construção da sua heterologia calvinista que se traduz em valorização do ser humano.

O compromisso de Jean de Léry com a fidelidade do relato é um reflexo da fidelidade com a revelação que fora apreendida do reformador João Calvino, que compreendia a existência de dois modos de Deus se revelar, através da criação e por meio da revelação especial na Escritura, a Palavra de Deus. No seu comentário à Carta aos Hebreus, afirma Calvino que “em toda a arquitetura de seu universo, Deus nos imprimiu uma clara evidência de sua eterna sabedoria, munificência e poder”.610 E ainda: “o mundo, portanto, é com razão

chamado o espelho da divindade”.611 Deste modo, para Léry, representar o índio tupinambá

no seu contexto vivencial com fidelidade é acima de tudo um compromisso com o próprio Deus, porque, nesta relação está a possibilidade de conhecer ao Criador que tem na criação o

609 François Dosse, De Certeau: un historiador de la alteridad in Perla Chinchilla (coord), Michel de Certau, un

pensador de la diferencia, Ciudad de México, Universidad Iberoamericana, 2009, p. 18.

610 João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo, Paracletos, 1997, p. 300. 611 João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo, Paracletos, 1997, p. 300.

200 reflexo de sua natureza divina.612 Portanto, o compromisso de Léry em representar o homem em suas relações do dia-a-dia encontra uma analogia na responsabilidade do teólogo calvinista em formular a sua teologia fundamenta na fidelidade à Palavra de Deus. Calvino atestou esta fidelidade quando de sua morte, e vale a pena repetir aqui uma das suas últimas palavras antes de falecer: “Quanto à minha doutrina, tenho ensinado com fidelidade e Deus me concedeu a graça de escrever: o que eu fiz o mais fielmente que pude e não adulterei uma única passagem da Escritura nem a deturpei conscientemente. E muito embora tivesse realmente possibilidades de descobrir sentidos sutis, se me tivesse aplicado com subtileza, empreendi tudo isso e me apliquei com simplicidade”.613

Observemos atentamente detalhes do relato de Jean de Léry, quando finaliza o principal capítulo onde descreve em detalhes as características dos índios tupinambás “Sobre a índole, força, estatura, nudez, disposição e ornatos de corpo dos homens e mulheres selvagens brasileiros, habitantes da América, entre os quais permaneci quase um ano”, bem como, encontramos evidência suficiente deste uso do Outro como referencial de interpretação, sem contudo, suprimir sua visão de mundo calvinista caracteristicamente condicionada aos limites da Escritura Sagrada. Éric Fuchs ao falar sobre a ética de Calvino, especificamente no sub-tópico “Uma ética que é uma hermenêutica da Escritura”, atesta o zelo que possuía o reformador genebrino pela Palavra de Deus como fonte única e determinante para regular a prática moral dos homens ao apontar que “trata-se, portanto, de saber o que Deus quer de nós. E, para tanto, é preciso pôr-se na escola da Bíblia. De toda a Bíblia. Nesse ponto, Calvino é de um rigor e de uma originalidade notáveis”.614 Deste modo, a Escritura é o limite

determinante da análise que Léry apresenta em seu relato de viagem.

612 “O tema central da teologia da Reforma era “a glória de Deus”. Kepler escreveu, em 1598, que os

astrônomos, na qualidade de sacerdotes de Deus no que diz respeito ao livro da natureza, deviam ter em mente não a glória de seu próprio intelecto, mas, acima de tudo, a glória de Deus. (...) A Igreja reformada ensinava que a obrigação de glorificar a Deus por todas as Suas obras deve ser cumprida por todas as faculdades do homem, e não somente pelos olhos, mas também pelo intelecto. Calvino era de opinião que aqueles que negligenciavam o estudo da natureza eram tão culpados como aqueles que, ao investigarem as obras de Deus, se esqueciam do Criador. Reprovava veementemente aqueles “fantásticos” antagonistas da ciência que diziam que o estudo apenas torna os homens soberbos e que não reconheciam que isto levava ao “conhecimento de Deus e à orientação da vida”. Reiteradas vezes afirmou que a pesquisa científica é algo que penetra muito mais profundamente nas maravilhas da natureza do que a mera contemplação. Ao fazer essa declaração, não se referia à “física” especulativa de sua época, mas às sólidas disciplinas empíricas então existentes, ou seja, a astronomia e a anatomia, que revelavam, segundo ele, os segredos do macrocosmo e do microcosmo”. R. Hooykaas, A

Religião e o Desenvolvimento da Ciência Moderna, Brasília, UnB, 1988, p. 137-138.

613 Jean Delumeau, Nascimento e Afirmação da Reforma, São Paulo, Pioneira, 1989, p. 123.

614 Éric Fuchs, verbete “João Calvino” in Monique Canto-Sperber (org.), Dicionário de Ética e Filosofia Moral,