4 A CRÍTICA GENÉTICA: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
4.3 A ESCRITA EPISTOLAR: NAS ENTRELINHAS DAS CARTAS
Matildes
Demétrio dos
Santos
(1998),
em
seus
estudos
sobre
comunicação. Com regras e normas capazes de diferenciá-la, a carta é classificada
pelos geneticistas como um gênero literário.
Um dos autores dos primeiros manuais epistolográficos do mundo ocidental
que escreveu sobre cartas foi Demétrius, cujos escritos datam do século III a.C. Ao
longo da história, a carta foi utilizada como instrumento de registros, de
comunicação, de conselhos, de recomendações e exaltação da fé cristã, como é o
caso das epístolas bíblicas.
O desenvolvimento econômico, a partir do século XI, confere à carta um
caráter comercial, na medida em que trata não só de assuntos pessoais, como
também financeiros. Durante o período das grandes navegações, as cartas
adquirem a função de relatar e descrever sobre as terras encontradas, as
características da flora, da fauna e dos habitantes de lugares desconhecidos.
A carta foi utilizada também de forma muito intensa no ambiente literário. A
publicação do romance em estudo, Memórias sem malícia de Gudesteu
Rodovalho, deu-se na década de 1940, período marcado por intensa comunicação
entre escritores por intermédio das cartas. Gilberto de Alencar encontra-se inserido
nesse grupo de escritores, pois mantinha intenso convívio literário com outros
intelectuais da época, fato comprovado pela correspondência existente no acervo,
totalizando 1.090 documentos, entre eles: cartas, cartões, cartões postais e
telegramas.
É notório que a correspondência ativa do escritor é de grande importância
para o estudo de sua obra. Não menos importante é a sua correspondência passiva,
pois, embora tenha sido escrita por outros, é valiosa fonte de informações para se
conhecer um pouco melhor o seu destinatário.
Segundo Santos (1998, p. 65-66), a carta, além de dizer sobre o remetente,
também conduz a avaliações sobre o destinatário:
[...] a carta não só diz do remetente, como abre brechas para o conhecimento do destinatário, expondo-o através de observações, comentários, elogios e críticas daquele que escreve. É questão de perceber que o outro é “visto” de um modo particularizado, à luz das opiniões, necessidades reais ou supostas de um eu que comanda a escrita. Isso acontece porque, na maioria dos casos, não se tem a correspondência passiva de um escritor e essa ausência, longe de ser um entrave à comunicação, acaba por convidar o leitor a ocupar esse espaço vazio e a desconfiar que o interlocutor, alojado do outro lado da cena, mereça atenção, pois é ele quem dá eco e vida ao diálogo epistolar.
As cartas, na maioria das vezes, revelam informações de ordem pessoal do
destinatário e do correspondente; todavia, compreender o conteúdo de uma epístola
não é suficiente para conhecê-los como, de fato, foram. Não se trata de formar uma
imagem definitiva, mas, sim, de ter a possibilidade de construí-la juntamente com o
enriquecimento de outras informações.
Os documentos que compõem a correspondência de um escritor registram
informações importantes sobre o cenário intelectual e cultural, bem como sobre o
momento histórico vivido. Escrever cartas é também uma forma de arquivar-se,
segundo o pensamento de Philippe Artières (1998, p. 31)a respeito do arquivamento
do eu:
O arquivamento do eu não é uma prática neutra; é muitas vezes a única ocasião de um indivíduo se fazer ver tal como ele se vê e tal como desejaria ser visto. Arquivar a própria vida, é simbolicamente preparar o próprio processo: reunir peças necessárias para a própria defesa, organizá-las para refutar a representação que os outros têm de nós.
Para Artières (1998), o autor, por meio de sua escrita, expõe sua imagem da
forma como deseja e se reafirma, resistindo ao esquecimento. Fazendo isso, ele
está organizando o próprio processo, preparando sua defesa de forma intencional,
deixando em evidência a imagem de si mesmo que deseja imortalizar, ou seja,
firmando o discurso desejado.
Mário de Andrade, em sua crônica intitulada “Epistolografia”, publicada no
Diário Nacional de São Paulo, em 28 de setembro de 1930, preocupa-se com esse
tema, quando trata a questão da sinceridade das cartas, enfatizando sobre o que
elas dizem e o que querem dizer realmente. Nesse texto, segundo Marcos Antonio
de Moraes (2000, p. 2), “Mário de Andrade reafirma que carta é máscara, uma
‘encenação’ exigida pela urbanidade e fundada nas relações diferenciadas entre os
interlocutores”. Matildes Demétrio dos Santos (1998, p. 21) incita uma importante
reflexão quando afirma: “Se o texto romanesco trapaceia maravilhosamente com o
leitor, jogando ações e sentimentos de personagens irreais, a correspondência, ao
contrário impõe-se como um discurso sem máscaras”.
Cabe, então, a reflexão sobre essa duplicidade de olhares que a carta
permite, confirmando a consideração de Philippe Artiéres quando afirma que o
arquivamento do eu não é uma prática neutra: ela pode ou não ser uma máscara.
Conforme Moraes (2007), a correspondência de Mário de Andrade apresenta-
se como uma valiosa fonte de consulta para se conhecer o processo de criação de
seu texto. Seu acervo é composto de 6.951 documentos, revelando-se grande
potencial de pesquisas. Por essa razão, é possível que esse autor seja o mais
pesquisado até o momento, no que se refere ao estudo da correspondência, face ao
extenso diálogo que manteve com intelectuais brasileiros e a importância do
conteúdo de suas cartas para os estudos literários.
Telê Ancona Lopez (2000, p. 277) estima que Mário de Andrade tenha escrito
mais de 10 mil cartas, “era um correspondente fecundo, contumaz, como ele próprio
se classificou”. Segundo a autora, sua correspondência ativa pode ser comparada,
em termos de valor, à dos grandes nomes da epistolografia universal, razão que
justifica o grande interesse dos estudiosos por esses documentos.
Exemplificando, nessa linha, apresenta-se um dos estudos de Eliane
Vasconcellos
8(2002), que, na apresentação do livro intitulado Inventário do
Arquivo Carlos Drummond de Andrade, em sua segunda edição, ressalta a
importância de suas missivas, quando escreve sobre a cronologia da vida e da obra
do autor, sua bibliografia, suas correspondências, sua produção intelectual,
produção intelectual de terceiros, documentos pessoais e a documentação
complementar, entre outros. A autora, no texto intitulado “O arquivo Carlos
Drummond de Andrade”, que abre a edição desse Inventário, afirma:
As cartas, de um modo geral, irão revelar dados de ordem pessoal do destinatário e do correspondente, além de registros, fatos relacionados ao âmbito literário, muitas vezes caracterizado pelo agradecimento e oferta de livros, comentários rápidos sobre o fazer poético de ambos, além do comentário de momentos históricos e políticos. São comuns os pedidos de colaboração para jornais e revistas, de autorização para publicação de poemas. Pode-se também por meio da correspondência de leitores estudar a recepção crítica da obra de Drummond (INVENTÁRIO DO ARQUIVO CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, 2002, p. 11).
8
Pesquisadora do Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa, por ocasião da publicação da obra referida.