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A ESCRITA EPISTOLAR: NAS ENTRELINHAS DAS CARTAS

No documento mariaclaudiahelenadesouza (páginas 51-57)

4 A CRÍTICA GENÉTICA: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

4.3 A ESCRITA EPISTOLAR: NAS ENTRELINHAS DAS CARTAS

Matildes

Demétrio dos

Santos

(1998),

em

seus

estudos

sobre

comunicação. Com regras e normas capazes de diferenciá-la, a carta é classificada

pelos geneticistas como um gênero literário.

Um dos autores dos primeiros manuais epistolográficos do mundo ocidental

que escreveu sobre cartas foi Demétrius, cujos escritos datam do século III a.C. Ao

longo da história, a carta foi utilizada como instrumento de registros, de

comunicação, de conselhos, de recomendações e exaltação da fé cristã, como é o

caso das epístolas bíblicas.

O desenvolvimento econômico, a partir do século XI, confere à carta um

caráter comercial, na medida em que trata não só de assuntos pessoais, como

também financeiros. Durante o período das grandes navegações, as cartas

adquirem a função de relatar e descrever sobre as terras encontradas, as

características da flora, da fauna e dos habitantes de lugares desconhecidos.

A carta foi utilizada também de forma muito intensa no ambiente literário. A

publicação do romance em estudo, Memórias sem malícia de Gudesteu

Rodovalho, deu-se na década de 1940, período marcado por intensa comunicação

entre escritores por intermédio das cartas. Gilberto de Alencar encontra-se inserido

nesse grupo de escritores, pois mantinha intenso convívio literário com outros

intelectuais da época, fato comprovado pela correspondência existente no acervo,

totalizando 1.090 documentos, entre eles: cartas, cartões, cartões postais e

telegramas.

É notório que a correspondência ativa do escritor é de grande importância

para o estudo de sua obra. Não menos importante é a sua correspondência passiva,

pois, embora tenha sido escrita por outros, é valiosa fonte de informações para se

conhecer um pouco melhor o seu destinatário.

Segundo Santos (1998, p. 65-66), a carta, além de dizer sobre o remetente,

também conduz a avaliações sobre o destinatário:

[...] a carta não só diz do remetente, como abre brechas para o conhecimento do destinatário, expondo-o através de observações, comentários, elogios e críticas daquele que escreve. É questão de perceber que o outro é “visto” de um modo particularizado, à luz das opiniões, necessidades reais ou supostas de um eu que comanda a escrita. Isso acontece porque, na maioria dos casos, não se tem a correspondência passiva de um escritor e essa ausência, longe de ser um entrave à comunicação, acaba por convidar o leitor a ocupar esse espaço vazio e a desconfiar que o interlocutor, alojado do outro lado da cena, mereça atenção, pois é ele quem dá eco e vida ao diálogo epistolar.

As cartas, na maioria das vezes, revelam informações de ordem pessoal do

destinatário e do correspondente; todavia, compreender o conteúdo de uma epístola

não é suficiente para conhecê-los como, de fato, foram. Não se trata de formar uma

imagem definitiva, mas, sim, de ter a possibilidade de construí-la juntamente com o

enriquecimento de outras informações.

Os documentos que compõem a correspondência de um escritor registram

informações importantes sobre o cenário intelectual e cultural, bem como sobre o

momento histórico vivido. Escrever cartas é também uma forma de arquivar-se,

segundo o pensamento de Philippe Artières (1998, p. 31)a respeito do arquivamento

do eu:

O arquivamento do eu não é uma prática neutra; é muitas vezes a única ocasião de um indivíduo se fazer ver tal como ele se vê e tal como desejaria ser visto. Arquivar a própria vida, é simbolicamente preparar o próprio processo: reunir peças necessárias para a própria defesa, organizá-las para refutar a representação que os outros têm de nós.

Para Artières (1998), o autor, por meio de sua escrita, expõe sua imagem da

forma como deseja e se reafirma, resistindo ao esquecimento. Fazendo isso, ele

está organizando o próprio processo, preparando sua defesa de forma intencional,

deixando em evidência a imagem de si mesmo que deseja imortalizar, ou seja,

firmando o discurso desejado.

Mário de Andrade, em sua crônica intitulada “Epistolografia”, publicada no

Diário Nacional de São Paulo, em 28 de setembro de 1930, preocupa-se com esse

tema, quando trata a questão da sinceridade das cartas, enfatizando sobre o que

elas dizem e o que querem dizer realmente. Nesse texto, segundo Marcos Antonio

de Moraes (2000, p. 2), “Mário de Andrade reafirma que carta é máscara, uma

‘encenação’ exigida pela urbanidade e fundada nas relações diferenciadas entre os

interlocutores”. Matildes Demétrio dos Santos (1998, p. 21) incita uma importante

reflexão quando afirma: “Se o texto romanesco trapaceia maravilhosamente com o

leitor, jogando ações e sentimentos de personagens irreais, a correspondência, ao

contrário impõe-se como um discurso sem máscaras”.

Cabe, então, a reflexão sobre essa duplicidade de olhares que a carta

permite, confirmando a consideração de Philippe Artiéres quando afirma que o

arquivamento do eu não é uma prática neutra: ela pode ou não ser uma máscara.

Conforme Moraes (2007), a correspondência de Mário de Andrade apresenta-

se como uma valiosa fonte de consulta para se conhecer o processo de criação de

seu texto. Seu acervo é composto de 6.951 documentos, revelando-se grande

potencial de pesquisas. Por essa razão, é possível que esse autor seja o mais

pesquisado até o momento, no que se refere ao estudo da correspondência, face ao

extenso diálogo que manteve com intelectuais brasileiros e a importância do

conteúdo de suas cartas para os estudos literários.

Telê Ancona Lopez (2000, p. 277) estima que Mário de Andrade tenha escrito

mais de 10 mil cartas, “era um correspondente fecundo, contumaz, como ele próprio

se classificou”. Segundo a autora, sua correspondência ativa pode ser comparada,

em termos de valor, à dos grandes nomes da epistolografia universal, razão que

justifica o grande interesse dos estudiosos por esses documentos.

Exemplificando, nessa linha, apresenta-se um dos estudos de Eliane

Vasconcellos

8

(2002), que, na apresentação do livro intitulado Inventário do

Arquivo Carlos Drummond de Andrade, em sua segunda edição, ressalta a

importância de suas missivas, quando escreve sobre a cronologia da vida e da obra

do autor, sua bibliografia, suas correspondências, sua produção intelectual,

produção intelectual de terceiros, documentos pessoais e a documentação

complementar, entre outros. A autora, no texto intitulado “O arquivo Carlos

Drummond de Andrade”, que abre a edição desse Inventário, afirma:

As cartas, de um modo geral, irão revelar dados de ordem pessoal do destinatário e do correspondente, além de registros, fatos relacionados ao âmbito literário, muitas vezes caracterizado pelo agradecimento e oferta de livros, comentários rápidos sobre o fazer poético de ambos, além do comentário de momentos históricos e políticos. São comuns os pedidos de colaboração para jornais e revistas, de autorização para publicação de poemas. Pode-se também por meio da correspondência de leitores estudar a recepção crítica da obra de Drummond (INVENTÁRIO DO ARQUIVO CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, 2002, p. 11).

8

Pesquisadora do Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa, por ocasião da publicação da obra referida.

Ainda, como organizadora da obra Inventário do Arquivo Pedro Nava,

publicado pela Casa de Rui Barbosa, Vasconcellos (2001, p. 32), referindo-se ao

acervo do escritor juizforano, afirma que os originais e papéis arquivados por ele,

durante toda a sua vida, “são pródigos de muitos outros elementos, e não apenas

rascunhos de sua escrita”. Entre esses documentos, encontram-se sua

correspondência ativa, pessoal, de terceiros e familiar. Segundo a autora, esses

originais e papéis oferecem o que há de melhor para compreender-lhe o processo

criativo e facilitar a implementação de pesquisas no campo da Crítica Genética.

Enfatizando o objeto desta pesquisa, a correspondência privada de um

escritor é fonte substancial para se compreender sua obra. Em se tratando de

correspondência, uma questão que se coloca é sobre o que é considerado público e

o que é privado. Juridicamente, a carta está protegida. De acordo com o inciso XII

do Artigo 5º da Constituição Federal: “é inviolável o sigilo da correspondência”

(VADE MECUM SARAIVA, 2013, p. 8). Conforme o Código Penal brasileiro, em seu

Artigo 153, constitui-se crime contra a inviolabilidade dos segredos “Divulgar alguém,

sem justa causa, conteúdo de documento particular ou de correspondência

confidencial, de que é destinatário ou detentor, e cuja divulgação possa produzir

dano a outrem” (Ibid., p. 541).

A Lei nº. 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, conhecida como a Nova Lei de

Direito Autoral, também preserva a carta, em seu artigo 41 do Código Civil: “Os

direitos patrimoniais do autor perduram por 70 (setenta) anos contados de 1º de

janeiro do ano subsequente ao de seu falecimento, obedecida a ordem sucessória

da lei civil” (Ibid., p. 1678). Uma obra ou documento cai em domínio público somente

após decorrido o período citado. A instituição que abriga o acervo é apenas guardiã

dos documentos; portanto, é necessário obter permissão por parte da família para a

reprodução dos documentos que compõem a correspondência.

No campo literário, é bastante divulgado o pedido que Mário de Andrade

procedeu em suas cartas para que os destinatários não as publicassem, como pode

ser comprovado em carta endereçada a Murilo Miranda, de 19 de agosto de 1943:

“[...] declaro solenemente, em estado de razão perfeita, que quem algum dia publicar

as cartas que possuo ou cartas escritas por mim, seja em que intenção for, é filho da

puta, infame, canalha e covarde. Não tem noção da própria e alheia dignidade”

(ANDRADE, 1981, p. 158).

Percebe-se que, apesar de Mário de Andrade saber da grande importância de

sua correspondência para a Literatura Brasileira, e que seu arquivo seria fonte de

estudos e pesquisas, estabeleceu que, após sua morte, as cartas recebidas e

conservadas em pastas fossem lacradas e assim deveriam permanecer por 50 anos.

Diante de trabalhos como os que foram citados sobre a correspondência de

escritores, com edição de documentos inéditos, organização de cartas, por meio da

reunião de ensaios sobre o diálogo epistolar, foi possível traçar um plano de

atividades para leitura e estudo das missivas de Gilberto de Alencar referentes ao

período de 10 de agosto de 1945 a 12 de setembro de 1965, que compõem o objeto

de pesquisa desta dissertação.

A análise da correspondência do acervo de Gilberto de Alencar permitiu

reconstituir parte da vida literária do Brasil e de Minas Gerais. O lote de cartas

consultado tornou possível constatar o convívio literário intenso entre os intelectuais

da época, através de amplo relacionamento social, político e cultural. Informações

sobre a produção intelectual, bem como questões ligadas à publicação, editoração e

divulgação, traduzem-se em elementos muito ricos para se conhecer parte do

universo literário e elegem as missivas como documentos importantíssimos para

estudos não só no campo da literatura, mas também de outras áreas do

conhecimento.

Visitar o vasto arquivo de Gilberto de Alencar conduz a inquietações.

Conhecer as confissões, os desejos, os anseios e as frustrações do escritor é o

mesmo que investigar a sua intimidade. Parte da vida do autor está ali, depositada

em documentos, manuscritos e dactiloscritos, que merecem muito respeito, cuidado,

delicadeza e, acima de tudo, muita seriedade no tratamento por parte do

pesquisador, a fim de que o mesmo possa agir sob os limites impostos pela ética.

Pode-se afirmar que o estudo das cartas, cujo objetivo é a elaboração de uma

edição anotada de parte da correspondência do escritor Gilberto de Alencar, muito

contribuirá para o resgate de sua memória e compreensão de sua obra. A

constituição da chamada Edição de fontes reafirma a grande importância da epístola

como testemunho do fazer literário.

No documento mariaclaudiahelenadesouza (páginas 51-57)

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