Para os monges cristãos antigos, a prática de escrever diários parece ter sido uma espécie de exercício por meio do qual reavaliavam suas ações, direcionando-as para o caminho da vida perfeita. A escrita diarística monástica, junto de outras práticas cristãs, colaborava na imitação de Cristo. De acordo com Derek Krueger, Atanásio, na Vida de
santo Antão, apresenta-o encorajando os monges a manterem diários como “ferramenta
através da qual poderiam monitorar os movimentos da alma” (KRUEGER, 1999, p. 218). De modo análogo, a escrita hagiográfica representa não somente uma obra biográfica santoral, mas objetiva levar seu próprio autor, como também seus leitores e ouvintes, à prática do exercício espiritual, à ascese. Escrever Vida de santos é prática que ultrapassa os limites propriamente literários, sendo um método ascético através do qual o hagiógrafo pode avaliar suas próprias ações, comparando-as com os eventos biográficos que narra.
Esse aspecto da escrita santoral é percebido com a leitura atenta dos prólogos ou epílogos das obras hagiográficas, pois é nessa parte que os autores expõem seus objetivos, apresentando também a estrutura seguida e os caminhos adotados na composição textual. Krueger, analisando o prólogo da Vida de Daniel, obra do século VI, nota que o autor anônimo declara não estar à altura de narrar os feitos da vida de um homem admirável,
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contrapondo sua pouca habilidade literária à glória do santo. Krueger salienta que essa estratégia é, na verdade, uma escolha retórica com um propósito moral, pois almeja levar o interlocutor à prática da virtude cristã. Mas a intenção da hagiografia não se resumiria a isso, pois os “hagiógrafos não descrevem somente o mundo dos ascetas”, mas “também participam desse mundo através da observância da convenção ascética na produção dos textos” (KRUEGER, 1999, p. 217). A própria produção do texto hagiográfico é uma maneira de praticar a ascese espiritual.
Em Pratum spirituale, obra do século VII que narra diversas experiências ascéticas, João Mosco aconselha seu companheiro Sofrônio a incluir em suas práticas espirituais a criação literária. Em suas palavras, para alcançar a vida piedosa é necessário, além do estudo divino e do pensamento elevado, “a descrição escrita da vida dos outros” (MOSCO
apud KRUEGER, 1999, p.219). Para Mosco, a prática hagiográfica é, em si, um exercício
espiritual através do qual o hagiógrafo se purifica, pois pode avaliar se está trilhando o mesmo caminho do santo biografado, exemplo concreto da prática ascética. Leôncio de Neápolis, no século VII, procura também vincular seu texto hagiográfico à ascese, quando narra a vida de São Simeão, “o louco”. Ele se sente incapaz de apresentar, através de sua vida, a imagem da ação virtuosa, o que procura realizar ao escrever a vida do santo. Nessa mesma trilha caminha o autor anônimo da História dos monges do Egito que relaciona a escrita da vida de santos a um modelo de ascetismo através da mimesis. Para Krueger, o hagiógrafo, ao escrever uma hagiografia, “trabalha com a esperança de autoaperfeiçoamento”, ou seja, “ilustrar os santos é uma atividade criativa através da qual o autor reformula a si mesmo” (KRUEGER, 1999, p. 220).
Ponto comum dos prólogos hagiográficos, a virtude da humildade parece delinear toda a narrativa santoral. O autor sempre se apresenta como alguém indigno de narrar a vida do santo, ao mesmo tempo em que a própria narrativa se torna um exercício de humildade. Analisando a temática da humildade nas obras hagiográficas escritas por Cirilo de Citópolis, em tono de 550, Krueger diz que
Cyril wrote not only at the request of his superior but also with the miraculous help of the saints themselves. Rather than divorcing the activity of literary composition from his ascetic labors, Cyril, like John Moschus, understood his
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writing as integrated with that practice. In Cyril's self-portrayal, the writing of saints' lives exemplified the performance of Christian virtues of humility (KRUEGER, 1999, p. 220).
Na dedicatória da Vita Euthymii, Cirilo alerta o interlocutor de que utilizará um estilo ingênuo, sem o conhecimento da cultura secular. A tópica da modéstia, tão cara à literatura hagiográfica, faz-se presente, também, na Legenda Maior, como veremos no quinto capítulo. Segundo Krueger, essa técnica é uma ferramenta de autoconsciência, que chama de “retórica da humildade almejada”50. Ela seria notada com mais clareza na Vida de
Sabbas, do próprio Cirilo. No prólogo dessa obra, o autor diz escrever a vida do santo
“tendo o conhecimento de sua própria ignorância” (apud KRUEGER, 1999, p. 221). Estando já em curso a narrativa da vida de Sabbas, Cirilo revela que fez da humildade e da obediência os pilares de sua vida espiritual. O leitor tem diante de si, portanto, duas características para serem imitadas. O próprio Cirilo, em diversas passagens do prólogo, se apresenta como um imitador dessas virtudes que ele denomina ascéticas.
Segundo Krueger, Doroteu de Gaza apresenta duas formas de humildade para praticar a ascese51. A primeira é o ato de colocar-se abaixo de seus companheiros como uma forma de combate à vanglória. O segundo relaciona-se mais diretamente ao texto hagiográfico, pois o autor atribui a Deus suas virtudes e dotes literários. Portanto, o hagiógrafo age por inspiração divina e não deve atribuir a si as qualidades ou benefícios dessa ação. Essa estratégia, em alguns casos, leva-o à autossupressão a ponto de atribuir, implicitamente, a autoria do texto a Deus. Esse é o caso da Vida de Antônio, o grande, de Atanásio, em cujo epílogo o autor declara que a obra objetiva exaltar a vida do santo biografado e não a do autor. Dessa forma, este procura o anonimato, afirmando que “apesar de compor sua obra em segredo e de desejar permanecer na obscuridade, o Senhor a mostra como lâmpadas para todos” (ATANÁSIO apud KRUEGER, 1999, p. 227). Ao descrever a humildade do santo, o autor dessas vidas segue o mesmo caminho através da autossupressão, já que ele “também deseja obscurecer a si mesmo, omitindo sua ação, atribuindo a ‘manifestação’ que ocorre ao Senhor” (KRUEGER, 1999, p. 227). Nesse sentido, importantes hagiógrafos,
50 Cf. KRUEGER, Derek. “Hagiography as an Ascetic Practice in the Early Christian East”. In: The Journal of Religion. Vol. 79, n. 2. The University of Chicago Press, 1999, p. 221.
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como Teodoreto de Ciro e Jerônimo, nos prólogos de suas obras, invocam a manifestação do Espírito. Boaventura, fiel a essa tradição, tem a mesma atitude no prólogo do
Itinerarium mentis in Deum:
Começo por invocar o primeiro Princípio, isto é, o eterno Pai, Pai das luzes, fonte de todo conhecimento, de toda dádiva boa e de todo dom perfeito. Invoco-o por meio de seu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, para que pela intercessão da Santíssima Virgem Maria, sua mãe, e do bem-aventurado Francisco, nosso guia e nosso pai, ilumine os olhos de nossa mente e dirija os nossos passos no caminho da paz, que ultrapassa todo sentimento [...] (Itin. Prol., 1)52.
Esses autores antigos arrolam para seu texto a inspiração divina, à maneira com que a tradição encarou o próprio escrito bíblico, ou seja, texto inspirado por Deus. Para Krueger, esse recurso também colabora para a autossupressão do autor, cuja ação passa a ser a de figurante, fazendo da humildade um exercício ascético. O autor deseja imitar a humildade do santo cuja vida narra, de forma que, “nas mãos dos hagiógrafos, a escrita, assim como o jejum e a oração, se torna um mecanismo para atingir o objetivo de sua própria atividade ascética” (KRUEGER, 1999, p. 232). Cultivando a escrita hagiográfica como uma forma de exercício ascético, os autores cristãos construíram uma “teologia cristã da composição literária”, “estabelecendo o lugar da produção literária na formação ascética” (KRUEGER, 1999, p. 232).
Ao mesmo tempo, estas técnicas devem garantir a produção de um efeito emotivo nos ouvintes ou leitores, capaz de desencadear a conversão ou fortalecer a convicção no caminho espiritual. A prática da escrita ascética não é, portanto, contraditória aos objetivos persuasivos almejados, e seus procedimentos retóricos (o exercício da humildade, por exemplo) tendem a convergir. Não é de surpreender que a hagiografia recupere aspectos retórico-literários de algumas vertentes da narrativa antiga, sobretudo aquela de caráter exemplar.
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Itin. Prol., 1: In principio primum principium, a quo cunctae illuminationes descendunt tanquam a Patre luminum, a quo est omne datum optimum et omne donum perfectum,1 Patrem scilicet aeternum, invoco per Filium eius, Dominum nostrum Iesum Christum, ut intercessione sanctissimae Virginis Mariae, genitricis eiusdem Dei et domini nostri Iesu Christi, et beati Francisci, ducis et patris nostri, det illuminatos oculos2 mentis nostrae ad dirigendos pedes nostros in viam pacis illius, quae exuperat omnem sensum [...].
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Askesis filosófica e askesis cristã em Sêneca e Francisco de Assis