• Nenhum resultado encontrado

A esfera pública representativa da Idade Média

Capítulo 1 – Esfera Pública: Representatividade e Leitura Crítica

1.2 A esfera pública representativa da Idade Média

A Idade Média (476 – 1453) na Europa é um período interessante de se debruçar para analisar a gênese do conceito de representação. Naquela época, a sociedade era organizada por feudos, que eram lotes de terra de propriedade de um senhor feudal e neste lote habitavam e trabalhavam os seus servos (camponeses), que realizavam trabalhos agrícolas e pecuários para a subsistência do feudo. Não havia um poder centralizado, mas sim descentralizado, onde o domínio era exercido por cada senhor feudal em seu respectivo feudo. Como disse Habermas (2011, p.99):

“Sem dúvida, também nesse ponto a organização econômica do trabalho social faz da casa do senhor o elemento central de todas as relações de dominação.” Esta organização socioeconômica estrutural deu-se o nome de feudalismo.

Por conta destas condições de organização social que não há divisão clara entre o público e privado. As relações entre os suseranos (senhores feudais) e vassalos (camponeses e servos), apesar de ser uma relação de dominação, não era

16

uma relação em termos contratuais, formais ou até mesmo jurídicos. Isto provoca involuntariamente uma união do público e do privado. Como explica Habermas e Brunner:

Há “soberanias” baixas e altas, “prerrogativas” baixas e altas, porém não há um status estabelecido pelo direito privado, seja de que maneira for, a partir do qual pessoas privadas possam, por assim dizer, distinguir-se na esfera pública. [...] O poder doméstico não é uma dominação privada nem no sentido do direito civil clássico nem no sentido do direito civil moderno. Aparecem algumas dificuldades quando essas categorias são transpostas para as relações sociais, que não fornecem uma base para uma separação entre esfera pública e domínio privado:

se compreendemos a terra como a esfera do público, então estamos tratando o poder exercido na casa e pelo senhor da casa como um poder público de segunda ordem, que, certamente, é um poder privado em vista da terra a qual está subordinado, porém, num outro sentido, não é privado se consideramos a ordem moderna do direito privado. Assim, parece-me mais esclarecedor entender que as capacidades de domínio “públicas” e “privadas” se fundem em uma unidade indivisível, de modo que ambas resultam de um poder único, estão presas à terra e ao solo e podem ser tratadas como direitos privados legítimos. (HABERMAS, 2011, págs 99 e 100, apud BRUNNER, 1943, p.

386).

Habermas traz a questão de que, ainda que haja diferenciação de poder entre os senhores dos feudos, a posse da terra em si não os diferenciava entre eles. Isso se faz em oposição à esfera pública helenística, onde o pater famílias que dominava a esfera privada da sua casa (oikos) conseguia a diferenciação (aristoiein) entre os seus iguais (homoioi) pela prática do debate (léxis) na ágora da pólis. Esta dinâmica se torna basilar para o direito civil clássico e vai se efetivar no direito civil moderno no advento do Renascimento. Contudo, no período medieval, esta prática não é possível porque o poder feudal estava restrito ao seu feudo e, portanto, não havia articulação e deliberação política entre iguais dentro daquele domínio específico. É isso que explica o desfalecimento do princípio do direito civil clássico e, sobretudo, a falta de status pela posse da propriedade privada.

Brunner leva essa questão para o seguinte corolário: se não podemos chamar o poder feudal de doméstico pelo significado de propriedade privada nos tempos modernos, e não podemos chamá-lo de público, já que o poder está atrelado à terra

17

onde se circunscreve as relações sociais (especialmente as relações de dominação e de trabalho social), isso leva a crer que não existia uma separação entre esfera pública e domínio privado, formando uma unidade indivisível. Tudo se resume à posse de terra do senhor feudal, que é legítima. Ela é o começo e o fim das relações de trabalho e da vida em conjunto, é pelas relações de suserania e vassalagem que se legitima essa posse e essa dominação.

Se as estruturas daquela sociedade estão circunscritas no feudo, se é dentro deste território que as relações de dominação e de trabalho se estabelecem, como se organizava esse espaço? Quais eram os significados que o senhor feudal possuía e que os camponeses possuíam?

O domínio é público, publica; o poço, a praça do mercado são acessíveis publicamente e para o uso comum, loci comunes, loci publici. A esse Gemeinen [comum], que etimologicamente é associado ao bem comum ou público (commonwealth, public wealth), opõe-se o que é Besondere [particular]. É o que é separado no sentido do que é privado, que ainda hoje usamos ao equiparar interesses particulares e interesses privados. No entanto, no quadro da constituição feudal, o particular se refere também àqueles que eram distinguidos por direitos particulares, com imunidades e privilégios. Nessa perspectiva, o excepcional, o particular, constitui o núcleo da dominação feudal e, consequentemente, “do que é público”. [...] – o homem comum sem patente, sem a particularidade de um poder de comando que era interpretado como “público”. Nos documentos oficiais da Idade Média, herrschaftlich [senhorial] é usado como sinônimo de publicus; publicare significa requisitar em nome do senhor. (HABERMAS, 2011, págs. 100 e 101)

Pela unidade entre o que é público e o que é privado, Habermas traduz estes elementos no contexto medieval. Ele apresenta uma ambivalência no significado destes conceitos, a saber: é público todo o espaço que tem acessibilidade e uso universal, como também a dominação feudal encapsulada nos privilégios senhoriais e personificada nos próprios senhores; o particular, por sua vez, são os espaços de uso privado ou individual, como também os direitos particulares da suserania.

Aparentemente, aqui se encontra um paradoxo, pois ao passo que a característica que confere ao senhor feudal o caráter de homem público é justamente um direito que lhe é particular. Todavia, é essencial entender que esses direitos privados conferem o caráter de público, em outras palavras, os senhores feudais são tão importantes pela dominação da terra onde se organiza a vida comunal, que eles são o poder

18

público em si mesmos; não apenas representam, como são o poder público, são o bem comum.

Este é o conceito fundamental da esfera pública representativa, sua coluna vertebral. É a incorporação do domínio da terra pelo senhor feudal e sua demonstração de forma pública. Ele só é público porque ele é tão importante que representa o bem comum na sua dominação e é o próprio bem comum. Isto explica o fato de que não se representa nada de forma privada, nem nada que seja de pouco valor. A representação da dominação feudal se faz perante o povo subordinado, esta é a “publicidade” da época que era exclusiva do senhor feudal. A “publicidade”

medieval, numa extrapolação do conceito, consistia na demonstração do status senhorial, do seu domínio.

É importante salientar que esta esfera pública representativa nada tem a ver com a representação do poder público que se conhece hoje. Claro que é possível dizer que certas rugosidades do conceito de representação medieval permanecem atualmente (só se representa o que ou quem tem importância), só que naquele período, os senhores feudais não tinham a intenção de representar o povo, ele não exercia o poder público estatal que se conhece dos tempos contemporâneos, onde o governante eleito representa a vontade dos eleitores e da nação. Nesta época, nem o conceito de Nação havia sido constituído. A representatividade aqui é única e exclusivamente atrelada à demonstração e exibição do domínio feudal e de sua personificação no lorde da terra. Não há qualquer tipo de relação entre isto e as demandas populares, o povo serve tão somente como espectador.

O desdobramento da esfera pública representativa está ligado a atributos da pessoa: insígnias (emblemas, armas), hábitos (vestimentas, penteado), gestos (modo de saudar, postura) e retórica (formas de falar, discursos formais em geral), em suma, a um código rigoroso de comportamento “nobre”.

Durante a Alta Idade Média, esse comportamento nobre se cristaliza em um sistema de virtudes cortesãs, uma forma cristianizada das virtudes aristotélicas cardeais, em que o heroico é suavizado no cavalheiresco e senhorial. É significativo que o aspecto físico não tenha perdido inteiramente seu significado em nenhuma dessas virtudes – a virtude deve ser incorporada, deve poder se presentar publicamente. (HABERMAS, 2011, págs. 103 e 104).

19

A esfera pública representativa se realizava num código linguístico de nobreza.

Linguístico no sentido de linguagem, que engloba, mas vai além da verbal, um conjunto de signos que possuíam como significado a nobreza, a dominação feudal.

Hábitos, roupas, insígnias, discursos, qualquer atributo físico e/ou comportamental que conseguisse personificar a representação no senhor feudal. Estes signos tentam trazer elementos que remetam a virtudes que o Cristianismo estabelece para que alguém seja virtuoso, moral e imaculado. Valores como justiça, resistência, prudência, fortaleza etc., que primeiro vêm de Aristóteles e depois são readaptados dentro da teologia cristã que estabelece uma moral e distingue os homens sob essa perspectiva.

Somente um significante que simbolize uma ou mais virtudes que será digno o suficiente para estabelecer uma relação simbiótica com o significado de poder público do senhor feudal, formando o signo que o representa.

É vital neste contexto que o senhor feudal consiga trazer para o campo físico a dinâmica representativa. É na sua pessoa, inclusive no seu próprio corpo, que o suserano irá representar o seu poder. As virtudes e o poder feudal são corporificados naquele detentor do feudo. Quando se faz essa amarração com algo físico (o corpo do senhor feudal), é possível trazer para o campo material e físico questões metafísicas como poder, virtudes e moral. O senhor feudal passa a ser a moral, passa a ser a virtude e passa a ser o poder, tudo isso se torna tangível e visível. Se estas questões e valores são trazidas para o campo físico e corpóreo, não existe uma delimitação espacial onde a representação desse poder e dessas virtudes ocorrerá. A esfera pública representativa acontece em todo lugar, em todo o tempo, encapsulada na pessoa do senhor feudal. Portanto, o poder é o senhor feudal, tudo que ele faz, veste, diz, gesticula etc.

Esta configuração encontra seu apogeu na época do Renascimento; e, após diversos eventos históricos, como a Reforma Protestante e o caráter humanista que eclode no século XV, a esfera pública representativa vai esmaecendo. No entanto, suas rugosidades permanecem até hoje, principalmente no que tange ao significado de representação pública. Mais adiante, a própria esfera pública burguesa vai utilizar desse significado de representação que vem da Idade Média quando se fala em representação política e pública, e nas mudanças que esta esfera pública sofre, o ideal permanece. Somente o que é realmente importante é representado e sua

20

representação deve ocorrer de forma pública. Pode-se entender, portanto, que grupos que são marginalizados não merecem representação no poder público.