• Nenhum resultado encontrado

5. O S PALCOS E ENCENAÇÕES SOCIAIS NO B AIRRO A LTO DA CIDADE DE C URITIBA – UMA

5.3 P ALCOS E ENCENAÇÕES NO B AIRRO A LTO DE C URITIBA – ALGUNS ESTUDOS DE CASO

5.3.8. A espacialidade de serviços de transporte

Palco: temporário e espontâneo

Ajuntamento: dona/condutora de van e clientes/alunos Encenação: organizatória, rotineira e efêmera.

FIGURA 11- TRANSPORTE ESCOLAR FONTE: O AUTOR, 2011.

O sistema de transporte cria espacialidades específicas. Não só porque seus palcos se movimentam, indicando uma dupla aparência (para dentro e para fora), mas também porque o sistema de transporte desenvolve com seus movimentos um tipo de super-palco (o trajeto) que faz outras interligações espaciais.

No caso investigado, trata-se de uma microempresa com duas vãs escolares, organizada por um casal de proprietários e duas assistentes que desde 2006 trabalham nessa forma. O raio de atuação das duas vans fica dentro da grande região do Bairro Alto e arredores.

A condutora e seu esposo, com a ajuda de duas assistentes, levam as crianças dos bairros: Bairro Alto, Boa Vista e Bacacheri para o CEI (Centro de Educação Infantil) localizado no próprio Bairro Alto. O trajeto é definido de forma individualizada entre as casas e a escola. São dezesseis pessoas que cabem em cada van que normalmente estão lotadas. A faixa etária das crianças que vão até o CEI varia. Em uma das vãs os usuários são crianças de cinco a seis anos, e na outra vã, frequentam crianças desde meses até quinze anos, que é a mais velha.

A entrevistada M. dona da vã, é do sexo feminino, e trabalha e mora no Bairro Alto, é uma insider. Ela tem quarenta anos de idade, reside no bairro há 21 anos, e tem dois filhos. Antes de ser condutora, trabalhou no comércio e nos últimos anos ficou como dona de casa. O que levou M. a optar por esse trabalho foi à questão financeira.

Ela trabalha em conjunto com a família. (seu marido).

Devido ao seu relacionamento muito intenso com seu marido, se misturam o cotidiano de vivência e o cotidiano de trabalho. Assim, eles dividem despesas e custos, alegrias e problemas do trabalho, dúvidas e certezas permanentemente, mesclando essas duas atitudes vivenciais.

Pelo relato de M., até a escolha da profissão vem dessa interseção entre privado e trabalho no público. Quando a situação financeira ficou complicada na vida particular, ela na realidade não teve muito tempo para se preparar, e escolheu uma atividade que ela já conhecia, ou seja, sabia dirigir, resolveu ser condutora.

A condutora conhece muita gente do Bairro Alto, devido ao trabalho que realiza, até numa forma assimétrica, como é comum em situações teatrais. “Na verdade tem mais gente que me conhece do que eu conheço, sempre falam a M. da van escolar”.

Entretanto, essas duas esferas não se misturam e, apesar de conhecer bastante gente, M.

tem seu círculo de amizades formado pela maioria de seus familiares (pais, irmãos) e algumas amigas de religião que frequentam a mesma igreja católica que ela.

A maior participação em esferas privadas acontece no final da semana, quando sai com marido e filhos aos parques da cidade, se o tempo está bom, e se está nublado ou chovendo, passeiam pelos shoppings centers. Sempre encontra também seus pais nos finais de semana, normalmente almoçam juntos na casa deles ou na própria casa, ou ainda na casa de um irmão. “Somos uma família bem unida”.

O cenário do trabalho de em uma Van é interessante, como se trata de um espaço de exceção no cotidiano das crianças, onde pessoas de autoridade que configuram o cotidiano exercem os seus papéis, como professores ou pais, não estão presentes,os trabalhadores da vã (condutora, assistente) têm que assumir estes papéis, sendo consideradas no sentido de Goffman como um papel sério, mas cínico em relação a vida privada.

Como em qualquer outro lugar de trabalho moderno, seja em um salão de beleza, em uma academia, no escritório, ou em uma escola, os atores tem que adotar as suas fachadas, para disfarçar sua privacidade. Assim, os assuntos privados do casal, no momento do transporte das crianças não pode não interferir no trabalho executado.

As monitoras têm uma função principal neste sentido, ajudam as crianças a entrarem e saírem da van, bem como acomodá-las em um dos assentos. Também, durante o trajeto cuidam da disciplina. Como comenta M.: “Geralmente eu estou dirigindo e não posso ficar atendendo as crianças, essa é a função da monitora, nos entendemos com um olhar, ou apenas algumas palavras”.

No teatro, a ética e disciplina são fundamentais para os atores, quando preenchem seus papéis (tanto numa forma stanislavskiana, como brechtiana).

Entretanto, as crianças, por sua vez, assumem dentro da van papéis que nem sempre utilizam fora dela ou na presença dos pais. Algumas “berram”, muitas vezes não tão educados, comenta a dona da vã. Essa falta de disciplina a monitora tenta reestabelecer através da autoridade. ”Uma das medidas que visam garantir a ordem e o ambiente sadio no teatro é a de reforçar a autoridade daqueles que, por um motivo ou outro, foram incumbidos de realizar o trabalho” (STANISLAVSKI, 2005, p.339). Assim, também dentro da van, se desenvolve uma encenação de disputa, onde a dona e a monitora procuram fazer com que as crianças entendam e respeitem a autoridade e os comportamentos.

Isso é especificamente problemático, como M. relata que algumas crianças, aproximadamente 40 por cento, apresentam problema de comportamento. “Algumas estão acostumadas a falar palavrão, alguns são agressivos; um ou outro aluno é problemático que é um resultado da ausência da mãe em casa que precisa sair para trabalhar. Outros são revoltados pelo divórcio dos pais e a dissolução do lar”. Estes problemas mostram uma interseção de privacidade no palco da van fundamentado na situação extraordinária. A dona da vã relata, neste contexto, dos comentários da criança para ela sobre as mães, pais que estão faltando e vidas que levaram anteriormente. “É bem triste!”

O exemplo da van demonstra de que complexidade pode ser a diferenciação entre palcos e encenações. A questão principal, que nos guia, é como se pode falar de papeis sérios ou cínicos. Neste exemplo percebemos, que a estruturação de palcos de trabalho, misturados com palcos de educação, necessita todo um arcabouço de papeis em conjunto. Assim, as vidas privadas, de alunos e dos condutores, aparecem de forma diferenciada na van, e a publicitação dessas vidas, quer dizer a conformação da vida privada num espaço público, precisa de ferramentas que são as monitoras. Vimos aqui, como no caso das assistentes de saúde, uma interseção entre ambas as esferas.

5.3.9. A espacialidade de serviços de segurança, e relato de um segurança no