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2 A FORMAÇÃO HUMANA EM EDITH STEIN – O SENTIDO DE SER PESSOA

2.3 A ESPECIFICIDADE HUMANA: O SER ESPIRITUAL

Em sua busca por captar a essência específica do humano, Edith Stein exprime a pessoa como um ser espiritual. Em alemão, o termo espírito (Geist) não se refere à alma no sentido religioso. Também não equivale a um componente isolado como aponta o dualismo substancial, corpo e alma. “O espírito é, antes, uma dimensão humana, a qualidade

112

SBERGA, Adair Aparecida. A Formação da Pessoa em Edith Stein. São Paulo: Paulus, 2014. p. 117. 113

STEIN, E. Ser Finito y Ser Eterno: Ensayo de una ascensión al sentido del ser. México: Fondo de Cultura Económica, 1996. p. 308.

específica de ser racional, numa dualidade com o corpo físico, mas não no dualismo que cinde a unidade do indivíduo”.114

O espírito humano não está configurado somente pela potência da razão, mas, sobretudo, pela abertura ao encontro com o sentido, como exemplifica Ales Bello:

O bebê vive numa esfera psíquica, passiva: chora porque está se sentindo mal [...]. Também para os animais acontece assim [...]. Com o passar dos anos, vai amadurecendo a capacidade de se colocar em relação, por exemplo, por meio a linguagem. Perguntar: “por que isso?” E aquilo? E aquilo? É uma busca de sentido, que indica a manifestação de uma vida espiritual.115

É preciso apurar o entendimento steiniano sobre a manifestação da vida espiritual. “O adjetivo espiritual designa aqui o não espacial e o não material; é aquele que possui uma interioridade em um sentido certamente não espacial e que permanece em si, saindo de si mesmo”.116

O espírito, para Edith Stein, não denota uma dimensão desencarnada, opondo-se ao corpóreo. A essência do espírito refere-se à compreensão do spiritus como hálito. O espírito possui elementos como mobilidade, ligeireza e falta de fixação. Com isso, o espírito na alma humana pode sair de si, mover-se e soprar com liberdade, sem abandonar o vínculo espacial do corpo.117 Os espíritos puros não possuem fixação corpórea. Esta é uma importante diferença entre criaturas espirituais e a pessoa humana. Na pessoa, a alma espiritual possui natureza espiritual, porém encarnada em uma unidade e totalidade.

O ser humano não tem só corpo e não tem só alma, ele é corpo e alma. A pessoa não é possuidora de dimensões justapostas, mas de dimensões vinculares. Tais dimensões não se encontram na esfera do ter, mas do ser.

114

ALFIERI, Francesco. Pessoa Humana e singularidade em Edith Stein. São Paulo: Perspectiva, 2014.p. 32.

115

ALES BELLO, Angela. Pessoa e Comunidade: Comentários: psicologia e ciências do espírito de Edith Stein. Belo Horizonte: Artesã, 2015. p. 61.

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STEIN, E. Ser Finito y Ser Eterno: Ensayo de una ascensión al sentido del ser. México: Fondo de Cultura Económica, 1996. p. 376. “Hemos designado lo espiritual como lo no espacial y lo no material; como lo que posee una interioridad en un sentido completamente no espacial y permanente en sí, cuando sale completamente de sí mismo.”

117

A alma do homem é o vínculo que une o corpo ao espírito, participando tanto da vida sensível, quanto da vida espiritual. O homem não é animal, nem anjo. Em sua sensibilidade não coincide com o animal, nem em sua espiritualidade com o anjo.118

A natureza integral da pessoa configura sua identidade. Por sua incompletude, o ser humano busca encontrar a plenitude. Essa trajetória marca seu ritmo de desenvolvimento. Desse modo, a pessoa humana estabelece relações que transcendem espaço e tempo, manifestando sua característica espiritual. A pessoa humana, por exemplo, é capaz de presentificar em si, o passado – na medida em que faz memória das experiências; e o futuro – na perspectiva de projeção a partir do agora. Se não pode mudar o passado e tampouco saber ao certo seu futuro, é capaz de dar um novo sentido ao vivido e ao que intenciona viver, ressignificando suas vivências no espaço presente.

As ações espirituais no “eu” encontram-se conectadas por uma cadeia de motivação. Essa cadeia motivacional conexa por um sentido é uma propriedade especifica do espírito. No espírito, o “eu” está em vigília, em atividade de “dirigir-se a algo/alguém”. De acordo com Edith Stein, a motivação segue a legalidade da vida espiritual, vinculando as ações da consciência umas às outras: trata-se de “voltar-se a”, e “ir ao encontro de”.

A fenomenóloga acentua o fluxo da consciência para designar as experiências espirituais encadeadas. “Uma vivencia B, não pode ser entendida sem a referência a uma vivência A, que a precedeu”.119 A motivação designa justamente essa dependência entre as vivências da consciência orientadas por um sentido.

A motivação espiritual encontra-se entrelaçada com a causalidade psíquica em conexão. Segundo Angela Ales Bello, o entrelaçamento entre causalidade e motivação pode ser assim exemplificado:

Quando venho saber de uma certa notícia, começo a ficar cheia de alegria. A alegria pela notícia é determinada pela causalidade: está mais viva ou menos, dependendo da tonalidade do sentimento vital dominante. [...] Assim, a alegria que alguém provocou em mim, vamos supor que seja forte: alguém me dá essa alegria e eu sou motivado a um ato. A alegria é um sentimento vital e o ato me

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GARCIA, Jacinta Turolo. Edith Stein e a formação da pessoa humana. 2. ed. São Paulo: Edições Loyola, 1988. p. 59. 119

ALFIERI, Francesco. Pessoa Humana e singularidade em Edith Stein. São Paulo: Perspectiva, 2014. p. 121. O exemplo

dado encontra-se no descritivo do verbete “Causalidade e Motivação” incluso no Anexo I do respectivo livro, onde consta um breve Glossário com expressões centrais da fenomenologia.

leva a um propósito de tornar aquela pessoa feliz: causalidade e motivação se entrelaçam continuamente.120

O exemplo demonstra a raiz mais profunda da pessoa humana, na qual se encontra sua verdade e identidade. Tal profundidade pode ser acessada pela motivação, provocando uma transformação direcionada ao seu aperfeiçoamento, singular e relacional. Reconhecendo-se um ser necessitado do processo contínuo de aperfeiçoamento, a pessoa humana vai ao encontro do sentido em busca da plenificação de sua incompletude.

Nesse ponto, tanto no aspecto de autoformação, quanto na dialógica com o meio sociocultural, a formação humana possui grande importância em estimular a motivação pessoal. Enquanto sociável e educável, a formação deve conduzir o ser a integralizar-se. A pessoa necessita reconhecer-se como alguém “capaz de sair de si mesma e penetrar no interior das coisas e dos outros sujeitos e, da mesma forma que está aberta ao mundo, ela pode voltar-se sobre si mesma e captar sua própria interioridade”.121

Para Edith Stein, o duplo sentido da vida humana – a natureza, como a vida vegetal e animal – mas, sobretudo, a vida pessoal-espiritual, capaz de concentrar-se em si mesma e, no entanto, capaz também de elevar-se sobre si mesma, abraçando o mundo, aqueles com quem convive e a possibilidade de voltar-se sobre suas próprias fontes e origens, são determinadas livremente pelo “eu”.122

O gesto formativo deve oportunizar ao ser, o encontro dos seus porquês, alcançando a motivação em grau elevado. Quando o sujeito intencionalmente diz: “Eu vou entender o porquê disto”, “eu escolhi isto”, “decidi fazer dessa forma”, não está afirmando somente uma ideia, mas está afirmando-se enquanto pessoa.

120

ALES BELLO, Angela. Pessoa e Comunidade: Comentários: psicologia e ciências do espírito de Edith Stein. Belo Horizonte: Artesã, 2015. p. 71.

121

KUSANO, Mariana Bar. A Antropologia de Edith Stein: entre Deus e a filosofia. São Paulo: Ideias & Letras, 2014. p. 83. 122

STEIN, E. Ser Finito y Ser Eterno: Ensayo de una ascensión al sentido del ser. México: Fondo de Cultura Económica, 1996. p. 515.