Trazemos na história da humanidade, sobretudo na ocidental, a marca da fragmentação que se torna muito evidente quando, o homem em busca de construir novos caminhos, entra na era das descobertas, que possibilitaram a evolução e o progresso de uma forma bastante rápida.
A exploração da natureza para que se pudesse tirar dela o sustento, inclusive de seus luxos, afasta também da natureza humana o caráter sagrado e, para que a ciência pudesse evoluir, optou-se pela fragmentação entre Ciência e Espiritualidade.
No séc. XIV, muitas concepções filosóficas expressam a separação das verdades científicas e espirituais. Isso aconteceu até mesmo dentro da Igreja, sendo que a razão deveria limitar-se ao estudo da natureza e a fé deveria voltar-se para as questões espirituais e divinas. A Ciência estava para confirmar a fé e se alguma verdade da razão contrariasse uma verdade de fé, esta deveria prevalecer.
Cavalcanti (2000) nos lembra que a fragmentação da vida do homem ocidental na visão mecanicista, tornou independentes as dimensões física, mental e espiritual, como se não fizessem parte de um todo. Reforçam-se os opostos, corpo e alma, mente e espírito. Esse desenvolvimento histórico, ao invés de unir e integrar, fragmenta e adota como único modelo e meta o racionalismo.
Descartes (1596-1650), no início da Modernidade com o “cogito ergo sum” em sua obra “Discurso do método” afasta a subjetividade instituindo o sujeito finito como acesso ao que é considerado real e, o processo desencadeado é o da secularização, ou seja, o homem vivendo centrado na realidade mundana. Segundo Wolman (2001) filósofos do racionalismo e do empirismo, como Descartes, por exemplo, concentram-se no mecanismo da mente, criaram bifurcações e divisões em conceitos como os da alma (mente) e corpo, que só agora estamos começando a superar.
A maior característica da Modernidade é a difusão dos produtos da atividade racional, científica, tecnológica, administrativa, fazendo com que a racionalidade torne-se a mais importante referência para a organização da vida e da sociedade. Ao invés de uma integração, há uma substituição: “A idéia de modernidade substitui Deus no centro da sociedade pela Ciência, deixando as crenças religiosas para a vida privada.” (TOURAINE, 1995, p. 18)
Evidentemente que o fato de uma sociedade se organizar de uma forma fragmentada e unilateral em relação aos saberes, não quer dizer que as outras dimensões desapareçam por completo. Como pudemos acompanhar no início desse capítulo a espiritualidade sempre esteve presente nos estudos da Psicologia, muitas vezes voltada para a Educação, mesmo que de forma mais discreta, desenvolveu estudos relacionados à introspecção, aprendizado, sensação e percepção, atenção, sentimento, reação, associação, observação, meditação, auto-observação, como já foi dito anteriormente.
Entretanto, são evidentes também pelo menos duas posturas básicas em relação ao tema: 1. negligência, por considerar esses assuntos irrelevantes ou fora da área de interesse principal; 2. oposição, ao caracterizar a espiritualidade como misticismo reforçando uma oposição entre Ciência e Espiritualidade.
Como nos diz Martinelli (1995), a separação entre o universo da ciência e o simbólico-religioso pode ser considerada por alguns como positivo, para esses, essa separação é sinônimo de liberdade, visto que o aspecto religioso é considerado alienação. Para outros, pode ser considerada como negativo, ou seja, para aqueles que consideram o religioso como a salvação do homem. Qualquer um desses pressupostos é unilateral e, parece também irreversível, por não considerarem sempre aberta a possibilidade de mudança e que no futuro uma caminha no sentido de retomar a outra.
Diante de tantas dificuldades encontradas no campo da Educação, como a violência, o preconceito, desrespeito nas escolas, por exemplo, há necessidade de desenvolver novas formas de promover um fazer pedagógico e, umarelação educativa mais integrada com o todo entre os profissionais, considerando, portanto, também a dimensão espiritual, tendência que se mostra em expansão e que tem sido pesquisada por vários pesquisadores. A questão da espiritualidade é bastante ampla, e sua mensuração, muito complexa, por na maioria das vezes estar relacionada à percepção subjetiva em relação à crença religiosa da pessoa.
A espiritualidade coloca-nos diante de questões a respeito da vida, da razão de viver, não se limitando a formas de crenças ou práticas religiosas. Ela pode ser um instrumento e espaço de relação educativa entre professores, capaz de elaborar as motivações profundas que dão sustento aos redirecionamentos do professor.
Torna-se, então, urgente um olhar para o ser humano na sua multidimensionalidade voltada para o desenvolvimento, como nos alerta Moraes (MORAES, 2008, p. 182): “Ao falar de desenvolvimento humano, estamos, certamente, falando dos aspectos evolutivos que envolvem todas as suas dimensões, incluindo aqui a dimensão espiritual”. E ainda: “Assim, o espírito se revela como um ser de relações a partir das quais o sujeito constrói sua identidade, uma identidade relacional e ecologizada. É, portanto, um ser aberto à participação, à solidariedade, à igualdade e à diversidade”.
Ajuda-nos a compreender melhor se nos apoiarmos em Leonardo Boff (2004) quando afirma que espírito é tudo o que respira e tem vida. Para Boff, “espírito significa a capacidade de relação e de criação de uma unidade orgânica (...) Esta interatividade de tudo com tudo se chama espírito. Ela é alimentada pela consciência reflexiva do ser humano” (BOFF, 2004, p. 129). E ainda: “o ser humano mais e mais se descobre como parte da natureza e membro da comunidade da vida. Suas relações não podem ser de dominação, mas de convivência, de uma nova aliança de fraternidade, de respeito e de diálogo” (idem, p. 95). Ele lembra que o pleno desenvolvimento do espírito não está separado da capacidade reflexiva, ou seja, da consciência do espírito em evolução.
Boff explica a espiritualidade humana tomando como referência o sentido antropológico presente no termo, ao afirmar:
Quando nos referimos aqui à espiritualidade entendemos o termo num sentido antropológico e menos num sentido especificamente religioso. Significa a capacidade que o ser humano, homem e mulher, tem de dialogar com o seu eu profundo e entrar em harmonia com os apelos que vem de sua interioridade. Essa compreensão pode ser realizada por professantes de algum credo religioso como por agnósticos e descrentes. Cada um se encontra com a sua estrutura de desejo, com um horizonte utópico, com o masculino e o feminino dentro de si, com o universo de sua interioridade. O processo de personalização supõe uma integração desta dimensão que confere serenidade e paz à vida humana (BOFF, 1994, p. 36).
Assim, a necessidade que se tem hoje, de refletir sobre o que faz sentido para a existência humana e, portanto, como algo totalmente integrada à nossa realidade, faz Leonardo Boff anunciar um “paradigma da re-ligação”:
Faz-se mister uma nova religião, no sentido profundo e etimológico desta palavra. Quer dizer, faz-se mister algo que re-liga tudo, um sentido tão abrangente que possa servir de fio condutor com o qual posamos costurar todas as experiências, todos os saberes, todas as tradições espirituais, todas as políticas, todas as formas de humanização e possamos constituir uma realidade planetária una e diversa, dinâmica e includente. Para isso, importa somar, dialeticamente, integrar as várias contribuições e enxergar as complementaridades e assim construir o novo para a frente, numa perspectiva de convergência. Politicamente importa, por exemplo, assumir o momento da verdade dos sistemas já vividos numa síntese realística e não verbal, síntese humana e espiritual.
O capitalismo criou uma cultura do eu sem o nós. O socialismo criou uma cultura do nós sem o eu. Agora precisamos da síntese que permita a convivência do eu com o nós. Nem individualismo nem coletivismo, mas democracia social e participativa. Precisamos fazer uma auto correção com referência à concepção do ser humano, à integração do feminino e à aliança com a natureza. Daí pode nascer a nova espiritualidade e o fio que tudo re-liga (ibid, p. 71).
Nesse aspecto conseguimos também mostrar que estamos tratando de uma espiritualidade que não diz respeito especificamente e obrigatoriamente a uma profissão religiosa, porque compreende-se o termo latino “religare”- “ligar outra vez” como um aspecto mais cultural do que religioso. Assim, pode-se afirmar que não importa a profissão de fé, mas o sentimento e a capacidade de religar o homem ao todo da realidade, da qual a espiritualidade também faz parte, assim como na arte, podemos alcançar uma experiência estética e transcendente.
Como já foi lembrado anteriormente, mudanças aceleradas, necessidade de evoluir no conhecimento não é algo novo e atual na realidade do ser humano. Hoje também enfrentamos questões relacionadas à globalização, que acarreta problemas gravíssimos nos mais diferentes aspectos, inclusive de ordem ecológica, colocando em risco a vida no planeta.
Diante de uma situação ameaçadora que vem desestruturando os ciclos da vida, como nos lembra Z. Bauman (1927) na sua obra “Modernidade Líquida”, fenômenos, eventos, processos, valores e coisas estão cada vez mais voláteis. Diante do inesperado, da insegurança, é preciso ver a educação com um novo olhar.
Ajuda-nos também a olharmos para a necessidade de uma Educação voltada para o multidimensional e não fragmentada, contemplando a dimensão espiritual, Edgar Morin (MORIN, 2000, p. 38) quando afirma que para educar para a condição humana, é necessário reconhecer que “somos seres, simultaneamente, cósmicos, físicos, biológicos, culturais, com cérebro e espírito”.
A proposta desse pensador contemporâneo Edgar Morin (1980), que se dedica ao estudo da complexidade, nos ajuda a compreender a importância das relações e dependências multidimensionais de todos os saberes. Trata-se de um pensamento que não separa, mas une e busca as relações necessárias e interdependentes de todos os aspectos da vida humana.
Segundo Petraglia (2001) Morin contrapõe-se ao pensamento reducionista, linear e simplificador e, propõe uma relação entre os saberes, como a biologia, antropologia, sociologia e a física, além disso, coloca o pensamento mítico-simbólico-mágico ao lado do racional-lógico- científico, partindo da noção de totalidade.
Salienta Petraglia:
A complexidade surgiu para questionar a fragmentação e o esfacelamento do conhecimento, em que o pensamento linear, oriundo do século XIX, colocava o desenvolvimento da especialização como supremacia da ciência, contrapondo- se ao saber generalista e globalizante. A complexidade parte da noção de totalidade e incorpora a solidariedade, colocando, lado a lado, razão e subjetividade humana. A solidariedade, presente na complexidade, coloca-se na educação por meio da transdisciplinaridade, considerando aspectos como princípio da incerteza, perspectiva dialética e dialógica e dimensão espiritual do humano. Para atingir a transdisciplinaridade, é necessário o rompimento com idéias preconcebidas ou reducionistas (PETRAGLIA, 2001, p. 4).
Petraglia (2000) diz que fazer referência a essa totalidade significa reconhecer as características antagônicas e bipolares do ser humano, ou seja, ao mesmo tempo em que é sábio e louco; é prosaico e é poético, é trabalhador e lúdico; é ao mesmo tempo empírico e imaginário e assim por diante. É multiplicidade, é corpo, mente, idéias, espírito, magia, afetividade. Esse é o „homo complexus‟.
Assim chegamos ao que Morim entende por espiritualidade e que Petraglia (2001) apresenta: A complexidade, que aceita a incerteza da ciência, a insuperabilidade de contradições, acolhe o pensamento mítico, que compreende o misticismo, as
religiões, a magia e a dimensão espiritual do ser humano como expressão cultural presente, de modos diferentes, nas diversas sociedades. Morin compreende a dimensão espiritual como uma defesa do ser humano contra a morte, que o apavora, e não como busca de perfeição para atingir, como prêmio, a vida eterna (Ibid, p. 6).
Fica claro que estamos tratando da dimensão espiritual do ser humano, não como algo sobrenatural, que poderia nos fazer experimentar a sensação de perfeição e provocar uma compreensão de contradição entre corpo e espírito, mas como algo incorporado à realidade humana, assim como todas as outras dimensões, ou seja, espiritualidade como algo intrínseco ao ser humano.
O ser humano é entendido por Morin (1970) como um ser dual, ou seja, é uma coisa e outra ao mesmo tempo, nele concentram-se aspectos diferentes e contraditórios. O duplo é o alter ego. Compreendido pelos teólogos como corpo e espírito. Essa unidualidade pode ser vista ainda como cérebro e espírito, objetividade e subjetividade, real e imaginário, e assim por diante.