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2. A segunda parte do Prólogo

2.3 A esposa abandonada

seguinte verso: Exigit poenas mare prouocatum (v.616): “O mar provocado exige punições”.

46

“Nada, portanto, tem em si de útil essa paixão funesta e hostil, mas traz em si, ao contrário, todos os males, o ferro e o fogo. Uma vez pisoteado o pudor, essa paixão sujou as mãos de sangue, dispersou os membros dos filhos, nada deixou vazio de crime, esquecida da glória, não temendo a infâmia, incorrigível, quando, de ira, degenerou em ódio”(III, 41).

Ainda com relação ao monólogo de Fedra, observamos, no mesmo período em que se

invoca a magna Creta, a apresentação do abandono da rainha pelo marido, por ela chamado

de inimigo (hostique, v.90). A figura de Teseu, o qual, como expusemos, no início da ação,

encontra-se no mundo de Plutão, para onde se dirigira a fim de raptar, com seu amigo Pirítoo,

a esposa desse deus, é pintada pela rainha com tintas de um ressentimento que se apresentará,

antes de tudo, como um artifício psicológico que a ela garantiria uma espécie de aval para

viver sua paixão por Hipólito. E isso, numa construção retórica que a expõe mais como uma

vítima da infidelidade do marido do que como uma censurável caçadora de adultérios. A esse

respeito, afirma Herrmann (1924): “Esta rainha nos aparece de início como uma esposa

abandonada e ciumenta (85 ss). Porém, ela se confessa possuída por um amor fatal que ela

atribui à maldição hereditária da perseguição de Vênus aos descendentes de Febo (99 a 128)

e, quando acusa Teseu de infidelidade, é para desculpar sua própria paixão.”47 E em sua

retórica, chega Fedra a apelar para outras ocasiões, em que também se ressalta a deslealdade

de Teseu para com suas mulheres, a saber, Ariadne e Antíope. Diz a rainha:

Profugus en coniunx abest

praestatque nuptae quam solet Theseus fidem. (v.91-92)48

Nas Heroides de Ovídio, encontramos, na carta que redige Fedra a Hipólito a fim de

declarar-lhe o seu amor, uma semelhante exposição do ressentimento da rainha pela ausência

de Teseu, a qual, ali, acontece não exatamente pelo mesmo motivo que na peça de Sêneca por

se encontrar o herói na Tessália, terra de Pirítoo. Escreve Fedra:

47

Op.cit., p.413. 48

Tempore abest aberitque diu Neptunius heros;

illum Pirithoi detinet ora sui;

praeposuit Theseus, nisi nos manifesta negamus,

Pirithoum Phaedrae Pirithoum tibi. (IV, v.109-112)49

No Hipólito Portador da Coroa, de Eurípides, sequer há ocasião para esse

ressentimento da parte de Fedra, já que o motivo da ausência de Teseu não são aventuras

amorosas, mas, sim, a consulta de um oráculo, o que recobre o rei de uma certa pietas de que

claramente carece em Sêneca. E prova disso encontramos numa fala de Fedra à Ama em

Eurípides. Quando questionada pela serva acerca da possibilidade de figurar Teseu como a

razão dos males da rainha, responde Fedra:

’ ☯ ’

(v.321)50

É bem verdade que esse desejo de que ninguém a veja a fazer mal ao marido se relaciona

claramente ao medo de manchar sua reputação; contudo, de modo algum ressoa em suas

palavras a ironia da Fedra de Sêneca, a qual, diante do aviso da Ama de que poderia retornar

Teseu a Atenas, diz:

Nempe Perithoi comes? (v.244)

A esse ressentimento de Fedra em Sêneca, adiciona-se a grande probabilidade de, com

Fedra seu caráter de adultério, possuindo, então, a rainha o status de viúva. No próprio

prólogo chega Fedra a dizer à Ama:

non umquam amplius

conuexa tetigit supera qui mersus semel

adiit silentem nocte perpetua domum. (v.219-221)

No segundo ato, esse mesmo argumento, a ele acrescentando o caráter vingativo de Plutão,

direcionará Fedra aos ouvidos do enteado pouco antes de sua declaração amorosa:

Regni tenacis dominus et tacitae Stygis

nullam relictos fecit ad superos uiam:

thalami remittet ille raptorem sui?

Nisi forte amori placidus et Pluton sedet. (v.625-628)

Antes mesmo dessa fala a Hipólito, Fedra já fala como se estivesse morto o marido pela

súplica que ao próprio Hipólito dirige:

Miserere uiduae. (v.623)

É importante ressaltar que esse artifício psicológico e retórico de que lança mão a

rainha para eximir-se de culpa e abrir caminho à realização de sua paixão de modo algum se

encontra fora da consciência de Fedra, que tem consciência do caráter artificial desse

argumento; do contrário, sua participação na consolidação de sua própria desgraça deveria,

necessariamente, diminuir. E isso concluímos a partir de uma fala sua no prólogo, que deixa

49

Cf. Ovídio. Heroidas. Trad. F.M del Baño. Madrid: CSIC, 1986. “Há tempo está ausente e por muito tempo estará o herói filho de Netuno; a ele detém a terra de seu Pirítoo; Teseu preferiu, a menos que neguemos os fatos,

evidente a utilização dessa idéia de viuvez sem a necessária crença na idéia. Quando advertida

pela Ama de que Teseu encontraria sozinho um meio de escapar a sua prisão subterrânea,

abandona facilmente a rainha o argumento da viuvez para apelar à idéia, de todo absurda, da

possível complacência de Teseu ante sua relação com Hipólito:

Veniam ille amori forsitan nostro dabit. (v.225)

Observe-se que a apelação de Fedra a essa idéia somente revela seu estado de espírito

dominado pelo furor, já que, se, de fato, haveria alguma coerência em imaginar-se viúva a

rainha – lembremos aqui os versos de Virgílio acerca da dificuldade de retornar do mundo

inferior em face da facilidade de ingressar nele51 –, a concepção de um Teseu complacente em

tudo contrasta com o episódio da morte da mãe de Hipólito, a qual, segundo a versão do mito

presente no drama, repudiada por Teseu, que se decidira casar com Fedra, atentara, em

companhia de outras amazonas, contra o rei de Atenas.52 E essa incoerência, aponta a própria

Ama logo em seguida:

Immitis etiam coniugi castae fuit:

experta saeuam barbara Antiope manum. (v.226-227)

Pirítoo a Fedra, Pirítoo a ti.”

50

“Que nunca ninguém me veja a fazer-lhe mal!” 51

No livro VI da Eneida, encontramos as palavras da sacerdotisa a Enéias: Sate sanguine diuom,/ Tros Anchisiade, facilis descensus Auerno:/ noctes atque dies patet atri ianua Ditis;/ sed reuocare gradum superasque euadere ad auras,/ hoc opus, hic labor est (v.125-129): “Ó troiano, filho de Anquises, e nascido do sangue dos deuses, fácil é a descida para o Averno: noite e dia está aberta a porta do tenebroso Dite; mas retroceder o passo e escapar para os ares de cima, eis aí a dificuldade, eis aí o trabalho.” Para o texto em latim, cf. Virgile. Eneide. Texte établi et traduit par J. Perret. Paris: Belles Lettres, 1981.

52

Grimal (1951) aponta a existência de outra versão para a morte de Antíope, que, raptada por Teseu, lutara ao seu lado em Atenas contra as próprias irmãs, perdendo, na luta, a vida. Cf. Dictionnaire de la mythologie grecque et romaine. Paris: PUF, 1951, p.454.

Assim fica claro que essa incoerência servirá para ressaltar o domínio do furor sobre os

pensamentos da rainha. De fato, esse diálogo com a Ama se presta exatamente àquilo que

Florence Dupont (1988) aponta como um dos caminhos para o personagem furens se

estabelecer cada vez mais claramente no campo da irracionalidade. A respeito dos diálogos

entre os personagens furentes e os simples mortais, afirma Dupont: “Diante do furioso, os

personagens humanos lutam pied à pied, tentando impor sobre a cena, por sua própria

palavra, o mundo da civilização.” E logo adiante: “Dois mundos se confrontam sem jamais se

comunicar ou se influenciar: São dois blocos irredutíveis. Trata-se de um duo no sentido de

que não há luta entre os dois. O simples mortal está ali apenas para pertimitir ao furioso

construir-se.”53

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