5 POLÍTICAS PÚBLICAS DE SAÚDE NO BRASIL
5.1 A ESQUISTOSSOMOSE MANSONI NO CONTEXTO DAS POLÍTICAS
Embora os primeiros casos de Esquistossomose tenham sido identificados por Pirajá da
Silva, na Bahia, em 1908, as ações do governo foram iniciadas somente em 1947 a 1952,
período que o governo federal promove o primeiro inquérito coprológico de âmbito nacional,
coordenado pelos sanitaristas Pelon e Teixeira, da Divisão da Organização Sanitária – DOS, na
época, vinculada ao Ministério da Educação e Saúde, tornando-se possível constatar a
distribuição geográfica da Esquistossomose mansoni no país. (BRASIL, 2014).
Segundo Barbosa et al. (2008), esse inquérito foi realizado entre escolares, na faixa
etária de 7-14 anos, nas sedes dos municípios de maior importância médico-sanitária,
priorizando os núcleos com população superior a 1.500 habitantes, resultando numa estimativa
de 2,6 milhões de portadores de infecção por S. mansoni, nos 16 estados pesquisados, com uma
prevalência no estado da Bahia de 16,55%.
O inquérito de Pellon e Teixeira representou um grande avanço, revelando que a
esquistossomose se expandiu, alcançando ampla distribuição geográfica no país e apresentando
índices de positividade superiores a 50% em escolares de vários municípios, servindo como
ponto de partida para as campanhas de controle.
Nesse contexto, conjectura-se que os resultados obtidos subestimaram a real situação da
endemia, considerando que foi priorizado o levantamento de dados apenas com escolares,
deixando de cobrir várias localidades e municípios endêmicos (BARBOSA et al., 2008).
Mesmo após identificar a ampla distribuição da esquistossomose no país, o controle
nacional da doença só foi implementado em 1975, e 20 anos após ser concluído o inquérito,
através da Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (SUCAM), época em que o
Ministério da Saúde criou o Programa Especial de Controle da Esquistossomose (PECE).
Esse Programa foi impulsionado com a criação e utilização de uma nova droga
antiesquistossomótica, a oxamniquine, que conferia boa eficácia no tratamento, sendo utilizada
via oral, em dose única, e não causava sérios efeitos colaterais.
Durante a execução do Programa não existia regularidade entre os intervalos dos
inquéritos. As diretrizes do PECE quando implantadas se davam de forma não regular, a
exemplo do uso de moluscicida para o controle dos caramujos hospedeiros, ações de
saneamento, abastecimento de água e educação em saúde (BARBOSA et al., 2008).
Em 1980, o PECE, por se tornar um programa de rotina do Ministério da Saúde, passou
a ser denominado Programa de Controle da Esquistossomose (PCE). As ações do PCE se
limitavam ao tratamento em massa e estimulavam a participação de outros órgãos de saúde
pública no diagnóstico e tratamento da esquistossomose.
Assim, o tratamento era definido em função da prevalência em cada município avaliado,
conforme os inquéritos parasitológicos realizados (BARBOSA et al., 2008).
Considerando que os inquéritos não eram realizados com regularidade, não havia um
controle efetivo da endemia. Além disso as demais ações para minimizar os riscos de
contaminação também não eram priorizadas.
No estado da Bahia, as atividades do Programa foram iniciadas em 1979, na Bacia do
Paraguaçu, numa única área endêmica, e concluídas em 1980, sendo realizados 482.509 exames
coproscópicos, com 75.696 resultados positivos para Schistossoma mansoni, equivalente ao
percentual de prevalência de 15,7% (VIEIRA, 1993 apud CARMO; BARRETO, 1994).
Somente a partir de 1986, a SUCAM promove medidas de controle noutras áreas do
estado da Bahia, basicamente através de inquéritos coproscópicos em escolares, seguidos de
quimioterapia. Entretanto, as políticas baseadas somente no tratamento da doença, através da
quimioterapia, sob formas de campanhas, não são suficientes para a erradicação da
esquistossomose.
Nesse sentido, deve ocorrer políticas públicas articuladas com outros setores da área
social, que reduzam as precárias condições de vida e consequentemente elimine os riscos de
contaminação, considerando que a organização desigual do espaço facilita a disseminação da
esquistossomosemansoni (CARMO; BARRETO, 1994).
Em 1990, houve a fusão da SUCAM com a Fundação SESP, resultando na criação da
Fundação Nacional de Saúde (FUNASA), que prosseguiu com a política de controle endêmico.
Com a FUNASA, não ocorreram mudanças em relação ao desempenho do Programa. A
aplicação de moluscicida se restringia aos focos de transmissão isolados em localidades com
alta prevalência.
Foram criadas unidades epidemiológicas, para a formação de banco de dados
parasitológicos, que serviam de base para as intervenções de controle, conforme as
peculiaridades de cada unidade.
A partir da década de 1990, com a estratégia de rearranjo organizacional do Sistema
Único de Saúde - SUS, foi implantado o processo de descentralização dos serviços de saúde
sob a responsabilidade direta dos municípios (BRASIL, 1990).
Diante do contexto político e organizacional na área de saúde, com a criação e
transformação de vários órgãos do governo, desde o primeiro inquérito realizado em meados
do século XX, através de programas e campanhas, as políticas públicas não se tornaram
suficientes para impedir a expansão da esquistossomose no país, nem tampouco promoveram
sua erradicação.
Com a descentralização dos serviços de saúde, para atuação na vigilância
epidemiológica (VE), sob a responsabilidade direta dos municípios, as políticas públicas não
vêm conseguido bons resultados quanto ao efetivo controle da esquistossomose, muito menos
para a sua erradicação.
Nesse sentido, o Ministério da Saúde, ao relatar sobre o histórico das políticas, em
relação ao Programa de Vigilância e Controle da Esquistossomose, afirma:
A instituição e manutenção de um programa regular de controle tem contribuído para diminuir os casos da doença por meio do diagnóstico precoce e do tratamento
oportuno de milhares de portadores de S. mansoni, especialmente os casos de forma
grave (hepatoesplênica), mas não tem sido suficiente para impedir o aparecimento de novos casos e novas áreas endêmicas (BRASIL, 2014, p. 17)
Não se pode negar que o tratamento periódico promove uma redução na prevalência da
esquistossomose na grande maioria dos municípios endêmicos do país, tornando-se uma
considerável medida de controle (BARBOSA et al., 2008). Entretanto, apenas o tratamento
quimioterápico não resolve o problema, porque ocorre a reinfestação com o agente etiológico,
uma vez que não há mudanças efetivas no modo de vida da maioria das populações acometidas
pela esquistossomose.
Sem a melhoria das condições de vida das populações mais carentes, que vivem em
locais de risco de contágio (sem infraestrutura adequada e praticamente sem acesso aos bens e
serviços essenciais), se torna mais difícil resolver esse sério problema de saúde pública.
Nesse aspecto, sobreleva destacar a importância da intersetorialidade na implementação
de políticas públicas de saúde, visando sua melhor eficiência para a obtenção de resultados que
possam contribuir na qualidade de vida e consequentemente na saúde.
5.2 SISTEMA DE INFORMAÇÃO DO PROGRAMA DE VIGILÂNCIA E CONTROLE DA
No documento
UNIVERSIDADE CATÓLICA DO SALVADOR
(páginas 96-99)