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A essência conflitual da “verdade”

No documento danieldasilvatoledo (páginas 135-138)

A importância da leitura que Heidegger faz do pensamento de Parmênides provém do pressuposto de que o horizonte originário do pensamento grego, em sua totalidade, é um horizonte essencialmente determinado pela dinâmica entre velamento e revelamento: “por isso, tudo que é essencialmente [alles Wesende], no fundo, surge para os gregos a partir da essência [Wesen] do velamento e do revelamento”.89 A partir disto, poderemos investigar de que maneira “os pensadores originários pensam o próprio ser a partir do revelamento e do velamento.”90 Isto também para que antes, “com a vista nesta

85 HEIDEGGER: Parmenides, p. 20. 86 HEIDEGGER: Parmenides, p. 20.

87 Traço essencialmente constitutivo dos deuses gregos e que marca profundamente a constituição

fundamentalmente trágica do ser-no-mundo grego!

88 HEIDEGGER: Parmenides, p. 16.

89 HEIDEGGER: Parmenides, p. 89. “Não obstante, a ‘contra-essência’ [Gegenwesen] que se alterna

entre élÆyeia e lÆyh rege o traço fundamental do ente no todo, em meio ao qual a humanidade dos gregos sustenta sua história.” (HEIDEGGER: Parmenides, p. 131) Ainda: Pour les Grecs, tout ce qui se déploie, apparaît à partir de l’essence du voilement et du décèlement. (BRITO: “Les dieux et le divin d’après Heidegger”, p. 54)

90 HEIDEGGER: Parmenides, p. 91. “Na essência desta contraposição mostra-se algo da essência do

conexão, nos aproximemos do prodígio da essência primariamente originária da élÆyeia.”91

O velamento guarda as seguintes variantes: primeiro, a de que aquilo que está velado seja desconsiderado como tal; também guarda a possibilidade de que o velado seja revelado como o que deixou de estar velado; e por fim, a chance de que o que está velado seja revelado como tal, isto é, como o que se mantém preservado em sua condição originária. Acerca desta última perspectiva, temos que “este velar não deixa que a coisa se perca para nós”.92 A “coisa” aqui é preservada na chance de reconhecer que o velamento pode ser a mais radical condição de possibilidade para o revelamento. Este velamento é “o raro” (das Seltene). Logo, “a adequada referência ao raro não é a caçada de algo, mas o deixar repousar como reconhecimento da ocultação.”93 Entendemos este “deixar repousar” (Ruhenlassen) como o deixar em aberto a possibilidade de que o que é venha a ser em sua própria abertura de sentido. Esta “concessão” é “amplamente restrita”, pois à medida em que recusa sentido único (primeiro e último enquanto absoluto), outorga sua riqueza enquanto possibilidade preservada.

Deste modo, a “verdade” (Wahrheit) é o modo fundamental de “preservação” (Bewahrung): “‘des-velar’ [“Ent-bergen”] – isto agora diz o mesmo que pôr ao abrigo [Bergung], a saber, conservar [verwahren] o revelado no revelamento.”94

Todo este desdobramento visa, no fundo, “tornar compreensível a élÆyeia a partir de sua relação com a veladora retração da lÆyh.”95 O que é revelado (das

Unverborgene) é, originariamente, o que está abrigado (das Geborgene)96 diante da

ocultação (Verbergung), que é sempre iminente para tudo que é, tanto em seu surgir, quanto em seu declinar. Isto significa dizer que a ocultação se apresenta como a condição de possibilidade tanto para o vir a ser, quanto para o deixar de ser. O revelado é assim o que se expõe ao ser sob o risco constitutivo do deixar de ser. “‘ÉAlhy°w’, o ‘revelado’, desvenda-nos agora sua essência mais claramente, e na verdade, a partir da referência à lÆyh.”97 É neste jogo que o que é surge como ente. Sendo ambos condições

para o ser do ente, por delimita-lo, Desta forma, tanto velamento quanto revelamento

91 HEIDEGGER: Parmenides, p. 95.

92 “Esta ocultação preserva [bewahrt].” (HEIDEGGER: Parmenides, p. 92) 93 HEIDEGGER: Parmenides, p. 92.

94 HEIDEGGER: Parmenides, p. 198. 95 HEIDEGGER: Parmenides, p. 195.

96 Das Unverborgene ist das also Geborgene. (HEIDEGGER: Parmenides, p. 197) 97 HEIDEGGER: Parmenides, p. 197.

têm a “essência de abrigar” (bergenden Wesen).98 Isto exige entender que, a partir do

momento que a élÆyeia está em tensão com a ocultação, ela está essencialmente a favor do abrigo. Logo, a “razão de ser” da élÆyeia é se manifestar pelo abrigo de ser revelado, sem contudo suprimir a ocultação, que é sua “condição nutritiva” sustentada pela preservação da tensão entre ambas. A dinâmica deste “conflito” determina a própria “intimidade” (Innigkeit) originária entre lÆyh e élÆyeia.99

O “revelamento” é o que escapa ao velamento, mas que neste escapar, tanto encobre quanto remete. À medida que encobre, de certa forma preserva. Contudo, o encobrimento, quando revelado como tal, é de caráter remissivo, de forma que o pensamento, remetido ao velamento, pode preservá-lo como tal, no recuo do passo atrás; ou pode encobri-lo com determinações contingenciais externas à essência do velamento projetando (representando) sobre o espaço aberto pelo que se furta, não sendo, desta forma, reconhecido como tal. Por isto, “a ‘verdade’ nunca é ‘em si’, por si mesma existente, mas disputada.”100 Por isto também a verdade é historicamente disputada em petições de princípios unilaterais, diante dos quais causa repulsa qualquer postulado da verdade que não seja o único sentido possível, o fundamento último, ou seja, para tudo que, chamado de relativo, se oponha à certeza estabelecida.101

O revelamento é essencialmente conflituoso por pertencer a um âmbito constitutivamente velado, à casa da deusa às margens dos caminhos dos homens, à fonte de sentido enquanto dimensão que garante o aberto de ser resistente à todo dizer. Contudo, esta abertura antagônica permite também o raciocínio lógico ou dialético (ainda que este, em certa medida, não a permita!), segundo o qual predomina de maneira natural e evidente o fato de que ao verdadeiro se contraponha o “falso”. Mas com isto esquecemos em que medida para a tragédia grega “é terrível quando quem julga tem por certo o falso.”102

98 HEIDEGGER: Parmenides, p. 198.

99 Cf. HEIDEGGER: Parmenides, p. 199. “Se trata da copertença originária da élÆyeia e da lÆyh. Esta

que brilha à luz da manifestação proveniente sempre de uma dimensão de obscuridade, de retração.” (BRITO: “Les dieux et le divin d’après Heidegger”, p. 53)

100 HEIDEGGER: Parmenides, p. 25.

101 Heidegger admite que, em meio a tanto, Nietzsche reconheceu no “princípio agonal” dos gregos “um

‘impulso’ essencial na ‘vida’ deste povo” (HEIDEGGER: Parmenides, p. 26). Mas a questão ainda fica por ser posta: “em que se funda o princípio ‘agonal’ e de onde a essência da ‘vida’ e do homem recebe sua determinação para que ele se comporte ‘agonalmente’?” (HEIDEGGER: Parmenides, p. 26)

No documento danieldasilvatoledo (páginas 135-138)