Capítulo 1 — A justiça como eqüidade
1.2.5. A estabilidade de uma sociedade bem-ordenada
Ao tratar de questões como a psicologia moral, aquisição do sentimento de justiça, teoria do bem e valores sociais, o objetivo geral de Rawls, na Terceira Parte de Teoria, é mostrar que, em uma sociedade bem-ordenada, existe uma congruência entre a justiça e o bem.
A primeira condição para compreendermos não só a argumentação de Teoria, mas principalmente as reformulações realizadas em Liberalismo, é entender a distinção entre o que Rawls chama de teoria restrita e teoria plena do bem: a teoria restrita está relacionada aos bens primários (coisas que as pessoas racionais desejam, independentemente de
59 Liberalismo, VIII, §1, p. 345.
60 Para uma visão unificada da posição de Rawls sobre a questão da liberdade, ver a última conferência de
Liberalismo, VIII – As liberdades fundamentais e sua prioridade, p. 343-430. O fato de fechar a obra com essa conferência indica o papel central da questão da liberdade na teoria da justiça como eqüidade, com Rawls mostrando de que forma toda a teoria se articula para garantir certos valores fundamentais.
quaisquer outras coisas que elas desejem) e tem por objetivo assegurar que as premissas a respeito desses bens são necessárias para se chegar aos princípios da justiça. Por sua vez, a teoria plena do bem implica uma interpretação mais ampla do bem, o que envolve considerações relacionadas ao bem no sentido de objetivos finais, inclusive no que diz respeito à disposição dos cidadãos em agir de acordo com a concepção pública de justiça na esfera das instituições sociais. Para Rawls, no sentido da teoria restrita, possuir um senso de justiça é um bem fundamental para garantir a estabilidade em uma sociedade bem-ordenada.
O segundo ponto que deve ser compreendido é o significado do bem para os planos de vida de uma pessoa, sendo que um plano racional de vida para uma pessoa determina o que é o bem para ela. Por sua vez, um plano de vida é racional se obedece a dois critérios: 1) ser um dos planos consistentes com os princípios de escolha racional quando aplicado a todas as características relevantes da situação desse plano; 2) é o plano que seria escolhido com racionalidade deliberativa plena (total consciência dos fatos relevantes e cuidadosa avaliação das conseqüências). Além disso, os interesses e objetivos de alguém só são racionais se merecerem ser encorajados e forem previstos pelo plano de vida que é racional para essa pessoa.61 O importante é compreender que os bens primários são essenciais para que se possa realizar efetivamente planos de vida, seja qual for sua natureza e objetivos. A intenção de Rawls, portanto, é mostrar que existe uma profunda relação entre os planos de vida que escolhemos e o modo pelo qual nossa sociedade é regulada: “As convicções sobre
que tipo de pessoa devemos ser também estão, de forma semelhante, implícitas na aceitação dos princípios da justiça.”62
61 Para uma definição mais completa do que seja um plano de vida racional e o princípio de escolha racional,
ver Teoria, §63, p. 452-60.
Assim, para Rawls, o bem para uma pessoa é determinado pelo plano de vida que ela adotaria com plena racionalidade deliberativa se seu futuro pudesse ser previsto e imaginado com precisão. Fica clara, então, a importância dos princípios de justiça — que regulam a sociedade de modo a torná-la bem-ordenada ao longo do tempo — em relação à escolha de vida dos cidadãos. Mais do que isso: para Rawls,
“A estrutura básica da sociedade funciona de forma a encorajar e
sustentar certos tipos de planos mais que outros, recompensando os seus membros pela contribuição para com o bem comum de maneiras que são consistentes com a justiça. Considerar essas contingências [o que inclui também os fatos genéricos que atuam sobre as escolhas individuais]
limita a gama de planos alternativos de forma que o problema da decisão se torna, pelo menos em alguns casos, razoavelmente definido.”63
Outro fato que deve ser notado em Teoria são as características que Rawls quer atribuir para a relação entre a concepção de justiça e as teorias do bem em geral e também do bem moral. Para ele, a concepção da justiça escolhida na posição original é um guia para definir as virtudes e os sentimentos morais:
“Uma boa pessoa (...) ou uma pessoa de valor moral, é aquela que tem,
num grau maior que a média, os traços de caráter moral de cunho genérico que é racional que as pessoas na posição original queiram encontrar umas nas outras. Como os princípios da justiça foram escolhidos, e estamos supondo obediência estrita, cada um sabe que, em uma sociedade, ele desejará que os outros tenham os sentimentos morais que apóiam a obediência a esses padrões. Assim, poderíamos dizer, alternativamente, que uma boa pessoa tem os traços de caráter moral que é racional que os membros de uma sociedade bem-ordenada queiram encontrar em seus consócios.”64
Os princípios da justiça, portanto, são uma espécie de orientação para que se estenda a definição do bem para questões mais amplas do bem moral. Nesse sentido, Rawls quer tornar possível a transformação de uma teoria restrita numa teoria plena, através da posição original. Fazendo essa transformação ou junção da teoria da justiça (teoria restrita) com a
63 Teoria, §65, p. 470. 64 Teoria, §66, p. 484.
teoria do bem (teoria plena) seria possível ter um bom critério para avaliar valores morais, para saber se alguém é justo ou injusto, mau, perverso, etc.
Importante destacar também algumas diferenças estabelecidas entre o conceito de justo e o conceito de bem. A primeira delas é que os princípios do justo são escolhidos na posição original, como todas as características e implicações já conhecidas. Isso não se aplica ao conceito de bem, à teoria do bem: não há acordo sobre os princípios da escolha racional pelo simples fato de que as pessoas são livres para fazer suas próprias escolhas.
A segunda diferença é que Rawls considera um fato positivo que as concepções dos indivíduos sobre o seu próprio bem devam divergir significativamente entre si, enquanto isso não deve ocorrer com a concepção do justo.
A terceira diferença é metodológica: enquanto as aplicações dos princípios de justiça são restringidas pelo véu de ignorância, as avaliações sobre o bem de uma pessoa dependem do total conhecimento dos fatos, já que, evidentemente, nossos planos de vida estão estritamente ligados com nossas circunstâncias de vida. Mesmo com essas distinções, Rawls afirma que “nosso modo de vida, não importa quais sejam as circunstâncias
particulares, deve sempre estar de acordo com os princípios da justiça, que são definidos independentemente.”65