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A esterilidade como negócio

No documento Existe um direito de ter filhos? (páginas 99-102)

principais causas

4.1.4 A esterilidade como negócio

A medicina e a tecnologia se revelam atualmente, mais que nunca, um produto da combinação entre o discurso científico e o discurso capitalista. Um mercado que se expõe como mais-valia, que obedece a um apetite cego e sem limites, sem ter o que o impeça; a oferta de uma tentação, sob a forma de possibilidade de escolha, grande demais para que se possa resistir218.

Desse modo, as novas tecnologias reprodutivas se oferecem como uma realidade ao consumidor, numa relação onde os resultados veiculados pela propaganda, muitas vezes ilusórios e imprecisos, têm seu espaço garantido. Não é claro, transparente e linear o caminho que vai do desejo pelo filho ao nascimento de uma criança; no entanto, são essas lacunas que a mitologia científica tenta e é chamada a preencher. Tecnologias de procriação se associam à investigação e à terapia genética, associação não muito distante de um ideal eugênico.219 .

Por outro lado, não se pode desconsiderar que os riscos estarão sempre presentes na utilização destas técnicas, mormente na ausência de uma legislação que as organize ou que estabeleça critérios e responsabilidades pelos descaminhos que podem, certamente, envolver a vida e os direitos da mulher, do homem e da criança nascida sobre tais intervenções.

Até a presente data não há lei especial que regule a utilização das novas tecnologias reprodutivas no país, embora já existam projetos de lei visando estabelecer critérios e responsabilidades na medicalização da reprodução humana.

Em que pese, muitos países já disporem de legislação especial sobre o tema, no Brasil dispomos tão somente da Resolução nº 1.358/92 do Conselho Federal de Medicina, que estabelece algumas normas éticas a fim de nortear os procedimentos clínicos, não sendo evidentemente, dotada de jus congens, o que significa que na

218

QUINET, 2002.

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prática, cada clínica de reprodução assistida acaba estabelecendo suas próprias diretrizes de funcionamento.

Frente à gama de possibilidades que se apresentam à mulher e ao homem, envolvendo a realização do seu projeto de parentalidade exsurgem uma série de indagações. Como aquelas que assentem à possibilidade da escolha do sexo do bebê, ou, de seus caracteres genéticos, sem qualquer razão relevante.

São questionamentos desse gênero que conduziram a doutrinadora Oliveira, a concluir que as novas tecnologias de reprodução conceptivas propiciam a materialização de desejos sexistas, racistas e eugênicos e potencializam a exploração de classe, basta que se possa pagar por elas. O recorte de classe é o sustentáculo de tais desejos, cujas decorrências são: exploração de classe (mulheres e casais ricos custeiam o “tratamento” das pobres e assim se livram da super hormonização e obtém óvulos): o trafico e a comercialização de embriões: semêm, óvulos: (havendo vários sites que comercializam óvulos) a industrialização e a venda de óvulos obtidos do tecido ovárico de mulheres ainda vivas, de cadáveres de mulheres e de fetos abortados.

Á medida que as tecnologias conceptivas se expandem, sua concepção industrial, também cresce: os óvulos tornam-se matéria prima e são tirados de um ovário de uma mulher para serem implantados no útero de outra. Essas mulheres são consideradas procriadoras, como animais de procriação vendidas como tais220.

Em matéria veiculada na revista Veja, intitulada “Em busca do bebê perfeito-butiques de sêmen, sexo selecionado e escolha de embriões: o Brasil entra na era dos superbebês” o jornalista Daniel Hessel Teich descreve um cenário real de uma clínica de reprodução assistida no Brasil:

No admirável mundo novo das clínicas com seus bancos de sêmen e catálogo de doadoras de óvulos, fazem-se as mais incríveis combinações. Tia que gera a sobrinha porque a cunhada morreu. Embriões congelados, órfãos de pais milionários vítimas de acidente cuja fortuna ninguém sabe para onde vai. Mulheres que brigam com seus maridos por discordar da cor

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OLIVEIRA. Fátima. Engenharia genética - O sétimo dia da criação. Editora Moderna. Rio de Janeiro 1995. 4° edição, p. 45.

nascimento do primeiro filho do casal. Ou o pai de origem árabe que manda jogar no lixo três embriões sadios prontos para ser implantados na mulher infértil – apenas porque eram do sexo feminino. Perto disso tudo, a jogada de marketing do fotógrafo americano Ron Harris, que abriu na semana passada um leilão on-line de óvulos de três belas modelos, empalidece. Harris, um sujeito de passado duvidoso, suspeito de patrocinar sites de pornografia na Califórnia, pede um mínimo de 15.000 dólares por óvulo de suas beldades (a se verificar no endereço www.ronsangels.com). Existem centenas de mulheres oferecendo-se para doar óvulos na internet. Harris é o primeiro a admitir abertamente ser apenas um intermediário e que os óvulos trocarão de útero mediante pagamento em dólares. Cobrar para ser mãe de aluguel ou doar óvulos são práticas comuns no mundo da reprodução artificial, embora dificilmente se encontre quem abra o jogo sobre elas. Talvez por isso o despudorado Harris tenha atraído tanta publicidade221.

Por conseguinte, as crianças advindas de tais técnicas, os tecidos e células humanas passam a ser vislumbrados como artigos de consumo capazes de serem produzidos pelo mercado biotecnológico.

De tal modo, que não se pode refutar que o mercado biotecnologico tenha alcançado projeção internacional. Ora, almejando burlar as restrições legais de determinado país, ora logrando alcançar substrato mais barato nos países subdesenvolvidos (p.ex.: mães de aluguel pagas a menor preço), é dessa forma que constatamos uma expansão, inclusive, a nível internacional do negócio que se tornou a fecundação artificial.

Esse, aliás, é o mesmo posicionamento de Amianatta Forna:

O negocio da reprodução assistida hoje se estende para muito além do laboratório, envolvendo patentes de técnicas e produtos , investimentos de alto nível, especuladores e capitalistas operando no campo volátil e potencialmente lucrativo da biotecnologia, controle acionário de empresa, pagamentos e dividendos e compra e venda- tudo o que se encontra normalmente num empreendimento comercial. O lucro com a criação dos sonhos é imenso e tem um potencial ainda maior222.

Por outro lado, à medida que diminui o número de filhos por casal, pressiona-se para que sejam cada vez mais perfeitos. Por isso, é possível vislumbrar em um

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TEICH Daniel Hessel. Thaís Oyama e Claudio Rossi. Em busca do bebê perfeito-butiques de sêmen, sexo selecionado e escolha de embriões: o Brasil entra na era dos superbebês” Revista Veja. Edição – 1622, 03/11/99

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FORNA, Aminatta. Mãe de todos os mitos como a sociedade modela e reprime as mães apud BRAUNER, 2003, p. 56.

futuro não muito distante, que se a eugenia for além, para de fato projetar bebês que se beneficiem de todos os avanços da genética, muito provavelmente, os casais (mesmo os férteis) tenderão a optar pela concepção artificial.

No final do século XX, o escritor britânico Francis Galton223, escreveu um romance intitulado Kantsaywhere, em que descrevia uma utopia eugênica.224 Após o exame de suas características genéticas, os habitantes de Kantsaywhere com material genético inferior eram destinados ao celibato em colônias de trabalho. Os que recebiam um "certificado de segunda classe" podiam se reproduzir "com reservas" e os bem qualificados eram encorajados a casar entre si. Partindo da mesma premissa, o filme Gattaca de 1997, produzido nos estúdios Holiwoodianos, esboçava uma versão moderna de um paraíso eugênico em que a procriação ocorria por fertilização in vitro e só eram implantados embriões sem defeitos genéticos. Nos referidos exemplos ficcionais, pode-se inferir claramente, certas semelhanças, uma vez que, tanto em Kantsaywhere quanto em Gattaca as questões éticas levantadas são as mesmas, e ambos reproduzem na ficção, uma realidade que já começa a ser visualizada nas clinicas de reprodução assistida: a nova eugenia do séc. XXI.

4.1.5 A esterilidade como fator legitimador das técnicas de reprodução

No documento Existe um direito de ter filhos? (páginas 99-102)