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PARTE II Enquadramento teórico-conceptual

4. Identidade

4.3 A teoria das Representações Sociais e a teoria da Identidade Social

4.3.2 A estrutura e o funcionamento das Representações Sociais

As representações sociais têm uma natureza convencional, questão que se prende com a formação dos estereótipos que surgem da forma como nos representamos e representamos o ―outro‖ na edificação da nossa própria identidade e que têm origem no processo de categorização social: ―Mesmo quando uma pessoa ou um objeto não se enquadram perfeitamente num modelo, nós forçamo-lo a assumir uma dada forma, a entrar numa determinada categoria, de facto para se tornar idêntico aos outros, sob o risco de essa pessoa ou objeto não serem nem percebidos nem descodificados‖ (Moscovici, 2000:22). Moscovici situa este processo na longa cadeia de material cultural que o indivíduo vai acumulando ao longo da sua vida:

―Mente alguma está livre dos efeitos do condicionamento anterior que é imposto pelas suas representações, linguagem e cultura. Nós pensamos através da linguagem; nós organizamos o nosso pensamento de acordo com um sistema que é condicionado tanto pelas nossas representações como pela nossa cultura‖.

(Moscovici, 2000:23)

Já a natureza prescritiva das representações denuncia a influência que esse mesmo material cultural tem na forma como o indivíduo vê o mundo:

―As representações são prescritivas, quer isto dizer, elas impõem-se com uma força irresistível. Esta força é a combinação de uma estrutura que está presente antes mesmo de termos começado a pensar e antes mesmo de uma tradição que dita o que devemos pensar... Estas representações, que são partilhadas por muitos, entram e influenciam a mente‖ e ―para ser mais preciso, as representações são re-pensadas, re-citadas e re-apresentadas‖.

(Moscovici, 2000:24)

Quando descrevemos uma determinada realidade ou grupo social, por exemplo, acabaremos assim por recitar o que já lemos, vimos ou ouvimos a respeito, fortemente influenciados pela forma como a informação que nos chega é veiculada. ―As

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representações são-nos impostas, transmitidas e são o produto de toda uma sequência de elaborações e de gerações de mudança‖ (idem).

Mas que elementos farão parte deste processo de permanente interpretação e elaboração do real que constituem as representações sociais? E que fatores os condicionarão?

Como sistematiza Alves-Mazzotti (2008), com base em Moscovici, no campo da identidade social, de forma diferente, em distintos grupos, culturas e classes sociais, as representações do mundo social são observáveis em três dimensões paralelas: a atitude (orientação global, favorável ou desfavorável, ao objecto de representação), a informação (que é percepcionada durante a fase de objetivação, isto é, na construção formal do objeto) e o campo de representação (que remete para a ideia de imagem, ao conteúdo concreto e limitado de proposições referentes a um aspeto preciso do objecto e que pressupõe uma unidade hierarquizada de elementos). Na passagem da informação para o campo de representação, dá-se a ancoragem que diz respeito ao enraizamento social da representação, isto é, à integração cognitiva do objeto representado no sistema de pensamento preexistente e às transformações que, em consequência, ocorrem seja no objeto seja na estrutura de representações a esse ligadas, por via de uma mútua influência. Desta forma, podemos dizer que no processo da representação surgem novos conhecimentos a respeito de um dado objeto e acrescenta-se algo aos conhecimentos já adquiridos anteriormente. Mas serão as informações novas capazes por si só de influenciarem a percepção relativamente a um dado objeto?

Representações sociais não são vistas como opiniões sobre ou imagens mas ―teorias das ciências coletivas sui generis destinadas a interpretar e a construir o real‖ enquanto ―sistemas que têm uma lógica e uma linguagem particulares, uma estrutura de implicações que se referem tanto a valores como a conceitos, um estilo de discurso que lhes é próprio‖ (Moscovici, 1979:32). De facto, para Moscovici (2000),

―todos os sistemas de classificação, todas as imagens e todas as descrições que circulam numa sociedade, até mesmo as científicas, implicam uma ligação com sistemas prévios e imagens, uma estratificação na memória coletiva e uma reprodução na linguagem, que invariavelmente reflete conhecimento passado e que rompe as barreiras da informação corrente‖.

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Está-se perante um conhecimento que Rouquette denominou de ideologia ao afirmar que as ―representações sociais seriam um espécimen gerado e englobado por uma formação ideológica, de nível hierárquico superior enquanto forma de pensamento‖ (Wachelke e Camargo, 2007:382) fortemente ancorado em valores sociais. Caso as representações mais importantes para o indivíduo sejam postas em causa ou ameaçadas de extinção, ―todo o nosso universo ficará perturbado‖ (Moscovici, 2000:25). As ―ideias-imagens‖ que temos do mundo – sobretudo as crenças mais fortemente enraizadas – são as mais difíceis de demover pois estruturam a forma como nos representamos e a sua ausência poderia causar um terramoto na nossa identidade. Uma identidade que tem as suas fundações nessas representações e que se edifica através destas: ―Todas as interações humanas, quer surjam entre dois indivíduos quer surjam entre dois grupos, pressupõem essas representações. Isto é, aliás, o que as caraterizam‖ (Moscovici, 1984 :26). Alves-Mazzotti, com base em Jodelet, reforça que os elementos da representação não apenas exprimem relações sociais como também contribuem para constituí-las:

―A estrutura imaginante torna-se um guia de leitura da realidade e, por generalização

funcional, referência para compreender a realidade. [...] A estabilidade do seu núcleo

figurativo, bem como sua materialidade, conferem-lhe o estatuto de referente e de instrumento para orientar percepções e julgamentos sobre a realidade‖.

(Alves-Mazzotti, 1994:66)

Este facto ―tem importantes implicações para a intervenção social: qualquer ação que pretenda modificar uma representação só terá êxito se for dirigida prioritariamente ao núcleo figurativo, uma vez que este não apenas é a parte mais sólida e estável da representação, como dele depende o significado desta‖ (Abric; Ibáñez apud Alves- Mazzotti, 1994:66).

Ora, torna-se evidente a influência de elementos como os valores e crenças mais fortemente enraizadas (como os estereótipos) na zona nuclear das representações sociais. Contudo, o contexto de comunicação da representação pode trazer novas informações e novos significados, potencialmente transformadores do núcleo figurativo da representação social, tendo aqui o self relacional um papel fundamental ao potenciar no indivíduo diversos caminhos no campo das suas próprias experiências.

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4.3.3 Cognição e afeto no jogo entre representações sociais e representações