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2.1 MITIGAÇÃO DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS E O

2.1.3 A Evolução das Discussões Ambientais e o Futuro do

Com a entrada em vigor da Convenção-Quadro, os representantes dos países signatários13 passaram a se reunir anualmente para decidir

sobre aplicação e funcionamento das diretrizes do tratado, a implantação dos mecanismos previstos e o cumprimento das metas estabelecidas. Este evento é denominado Conferência das Partes (COP) e cada encontro leva o nome da cidade onde é realizado.

A primeira COP foi realizada em 1995, em Berlim (Alemanha), e desde então os resultados obtidos em cada evento têm sido positivos para o cenário de mitigação das mudanças climáticas, porém, as ações estão sendo, em sua maioria, consideradas lentas e com pouco comprometimento por parte de países altamente poluidores, como Estados Unidos e China.

Na primeira COP, o governo norte-americano de Bill Clinton assumiu uma posição propositiva no sentido de estabelecer metas obrigatórias de redução para os países desenvolvidos e metas de redução da taxa de crescimento futuro das emissões para os países emergentes. O big player tomou uma posição que deu esperança de uma iniciativa com grande força política. (Observatório do Clima, 2010)

Na COP-2, realizada no ano seguinte em Genebra (Suíça), a delegação norte-americana reafirmou a necessidade de metas obrigatórias de redução de emissões de GEE. Foi a primeira vez em que se discutiu sobre cotas comercializáveis de emissão de carbono como um mecanismo complementar na redução de emissões entre os Países do Anexo I. Na avaliação de Viola (2002), a proposta norte-americana foi rejeitada por três razões: falta de confiança na efetividade do modelo, já que nenhum país havia experimentado tal solução; havia um princípio contra o uso de mecanismos de mercado para a proteção ambiental; a proposta incluía compromissos por parte dos países emergentes de reduzir a taxa de crescimento das emissões. Esta COP deu início às negociações para a criação de um protocolo que tornaria obrigatória a redução de emissões por parte dos países pertencentes ao Anexo I e buscaria formas de estabelecer mecanismos complementares. Surgiam, então, os princípios do Protocolo de Quioto.

A COP-3 foi realizada no Japão, em 1997, e marcou a adoção do Protocolo de Quioto14.

14 COP’s seguintes: COP-4, realizada em Buenos Aires (Argentina), em 1998; COP-5,

realizada em Bonn (Alemanha), em 1999; COP-6, realizada em Haia (Holanda), em 2000; COP-7, realizada em Marrakesh (Marrocos), em 2001; COP-8, realizada em Nova Deli (Índia), em 2002; COP-9, realizada em Milão (Itália), em 2003; COP-10, realizada novamente em Buenos Aires, em 2004; COP-11, realizada em Montreal (Canadá), em 2005; COP-12, realizada em Nairóbi (Quênia), em 2006; COP-13, realizada em Bali (Indonésia), em 2007; COP-14, realizada em Poznan (Polônia), em 2008.

O governo norte-americano de Bill Clinton assinou o Protocolo neste ano, mas não o enviou ao Senado para ratificação. No início de 2001, antes da COP-7, o governo Bush anunciou oficialmente que se retirava das negociações do Protocolo por entender que o mesmo não lidava efetivamente com as mudanças climáticas por duas razões: não dava suficiente importância aos mecanismos de mercado e não estabelecia compromissos para países de renda média com rápido crescimento das emissões. Essa atitude provocou estupor na comunidade internacional, mas a União Europeia decidiu seguir com as negociações e ratificar o Protocolo mesmo sem a participação dos EUA. (VIOLA, 2009)

Em Novembro de 2001, o Protocolo de Quioto foi finalmente aprovado, na COP-7.

O Protocolo deixou de ser operado centralmente nos ministérios de meio ambiente da UE e passou a ser liderado pelos chefes de governo e seus ministros de relações exteriores.

Nos encontros seguintes, diversos temas sobre medidas mitigadoras das mudanças climáticas começaram a fazer parte das pautas das discussões. Na COP-8, realizada em 2002, mesmo ano em que ocorreu a Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio +10), o foco foi o uso de fontes renováveis na matriz energética das Partes, marcando a adesão da iniciativa privada e de ONG’s ao Protocolo de Quioto, no mesmo momento em que apresentou projetos para a criação de mercados de créditos de carbono.

Paralelamente à COP-11, em 2005, foi realizada a Primeira Conferência das Partes do Protocolo de Quioto (MOP1). Entrou em pauta a discussão sobre o segundo período do Protocolo, após 2012.

A COP-14, realizada em 2008 na Polônia, apresentou alguns avanços significativos, mas decepcionou os que esperavam resultados concretos. Vários representantes que estiveram presentes afirmaram que um dos principais fatores que impediu um maior comprometimento com a redução de emissões, por parte dos países desenvolvidos, foi a espera pela tomada de posição do novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, frente às mudanças climáticas. Ao longo de toda a sua campanha, Obama afirmou que, ao contrário do ex-presidente George Bush, os Estados Unidos iriam assumir a liderança nas negociações climáticas em 2009.

O resultado positivo da COP-14 foi a mudança de postura oficial adotada pelos países em desenvolvimento. O Brasil, China México e Peru, por exemplo, apresentaram propostas concretas de redução das

emissões. Porém, poucas metas de real relevância foram assumidas pelas nações desenvolvidas.

A divergência de posições políticas e econômicas entre as nações impediu que a conferência cumprisse o seu principal objetivo, que era elaborar um esboço para um novo acordo climático global, com a definição de cortes severos no total das emissões. A falta de consenso, alimentada pela crise financeira mundial, colocou em xeque o estabelecimento de um compromisso articulado pelo combate às mudanças climáticas até o final de 2009.

Durante a COP-15, realizada em Copenhague, em 2009, ficou clara a enorme dificuldade dos países para atingir um acordo legalmente vinculante para mitigar as mudanças climáticas.

Segundo VIOLA (2010, p. 37), “das três potências climáticas – EUA, China e União Europeia – apenas a última tinha uma posição de favorecer o acordo com metas que teriam impacto relevante para a mitigação, mesmo que insuficientes do ponto de vista do IPCC”.

Os EUA alegam que nunca assinaram o Protocolo de Quioto pelo fato de este não estabelecer obrigações para os países de renda média e fixa, demonstrando desigualdade de condições. Giddens (2009) afirma que este cenário é lamentável, já que os EUA continuam sendo o país mais importante para acordos de mudanças climáticas, por ser o segundo maior emissor e por ter o maior potencial de inovação tecnológica de impacto mundial na direção do baixo carbono.

Se de um lado as negociações do Protocolo não evoluíram, do outro, o encontro gerou o Acordo de Copenhague, um documento débil do ponto de vista jurídico – foi apenas um acordo político entre os países que o endossaram, não sendo vinculante, como é o Protocolo de Quioto, nem endossado pela COP – porém, importante no ponto de vista do constrangimento das emissões de carbono.

Este Acordo, produzido pelo BASIC (Brasil, África do Sul, Índia e China) e Estados Unidos, declarou que era necessário evitar um aumento superior a 2 graus na temperatura média da terra, deixando em aberto o comprometimento de redução das metas de mitigação de emissões aos países que a ele aderissem.

Em fevereiro de 2010, EUA, União Europeia, Canadá, Japão, México e Coreia do Sul se associaram sem reservas ao Acordo de Copenhague. Brasil e África do Sul inicialmente se associaram com reservas, alegando que seria importante dar continuidade ao Protocolo de Quioto, porém, também se associaram formalmente ao Acordo. China e Índia se associaram formalmente somente em março, após pressão dos outros países. (PNUMA, 2010)

Em março, o Acordo tinha apoio formal de 110 países, incluindo todos os maiores emissores do mundo. Como o Acordo depende inteiramente de que cada um dos países cumpra suas promessas, será necessário aguardar os próximos anos para analisar sua eficácia.

No ano seguinte, representantes de 190 países participaram da COP-16, em Cancun, onde foi definido um acordo sobre a fixação de compromissos de todos os países para a atenuação das mudanças climáticas no processo formal da UNFCCC, denominado “Acordos de Cancun”, que prevê:

a) Um sistema de maior consistência nas promessas de combate ao aquecimento global pelos governos. Metas dos países industrializados são oficialmente reconhecidas no âmbito do processo multilateral, e estes países devem desenvolver planos e estratégias de desenvolvimento de baixo carbono, avaliar a melhor forma de cumpri- los, inclusive por meio de mecanismos de mercado, e apresentar os seus inventários anuais;

b) Os países terão que tomar ações concretas para proteger as florestas do mundo, que atualmente representam aproximadamente 20% das emissões globais de carbono;

c) Os representantes também concordaram com a criação de um ”Fundo Verde”, que será gerenciado pelo Banco Mundial e destinará, até 2020, US$ 100 bilhões por ano aos países em desenvolvimento15. O objetivo é ajudar as nações mais pobres a combater as mudanças climáticas. Um registro deve ser configurado para combinar ações de mitigação dos países em desenvolvimento, com financiamento e apoio tecnológico provenientes dos países industrializados. Os países em desenvolvimento devem publicar relatórios de progresso a cada dois anos. (PNUMA, 2010)

O Brasil e o Reino Unido tiveram papel político de destaque no âmbito do Protocolo de Quioto. Na primeira semana do evento, o Japão alegou que não iria aceitar prosseguir com o Protocolo caso os grandes emissores de GEE não aderissem (EUA e China). A decisão causou uma instabilidade nas negociações, ameaçando o resultado da conferência. Na segunda semana, com a chegada dos líderes das nações e ministros de Estado, as discussões ganharam foco e as articulações começaram a ser desenhadas. O “Acordo de Cancun” estabeleceu a intenção dos

15

União Europeia, Japão e Estados Unidos prometeram o financiamento de US$ 100 bilhões até 2020. Em curto prazo, os países se comprometeram também com uma ajuda imediata de US$ 30 bilhões. (UNEP, 2010)

países em discutir uma nova fase de compromissos de redução de emissões de GEE e os países concordam em dar seguimento às negociações do Protocolo para além de 2012, convocando as nações a reduzir as emissões entre 25 e 40% em 2020, em relação às emissões de 1990. No entanto, a decisão não obrigou nenhum país a assinar compromissos para o período posterior a 2012.

Segundo a chefe da UNFCCC, Christiana Figueres, a COP-16 conseguiu fazer com que “as esperanças pudessem renascer, e que a fé no processo de cooperação multilateral fosse restabelecida. Os governos deram um claro sinal de que estão caminhando para construir, juntos, um futuro na direção de baixas emissões de carbono”. (ibidem)

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon definiu que o pacote de decisões representa um sucesso importante, no entanto, não é legalmente vinculado.

Espera-se que documentos vinculantes sobre o Protocolo de Quioto sejam assinados na próxima Conferência das Partes, que está agendada para realizar-se na África do Sul, de 28 de novembro a 9 de dezembro de 2011.

Além disso, espera-se que os projetos de MDL não percam sua atratividade e espaço devido à grande burocracia e complexidade para conclusão dos projetos e início das comercializações. Diversas críticas são feitas aos projetos de MDL devido a:

I) Complexidade do processo: as etapas de implantação e aprovação do projeto são complexas e passam por avaliações extremamente criteriosas e lentas. Não raramente os projetos têm que retornar à etapa inicial do para revisão integral;

II) Janela de Tempo entre a aproximação do ano de 2012 e o tempo necessário para validar, registrar e emitir as RCE, o que costuma levar de 18 a 24 meses, sendo esse um período que pode se estender. Isto acaba desmotivando o investidor;

III) Custo x Risco: o custo para implantação de projetos de MDL é elevado, o que representa um obstáculo para empresas de pequeno e médio porte, que ficam excluídas do processo. Ainda mais quando a empresa deve contar com recursos próprios e ao mesmo tempo correr os riscos inerentes.

Por meio de políticas nacionais, espera-se que o MDL tenha um futuro consistente e com resultados favoráveis, tanto ao meio ambiente quanto aos realizadores dos projetos.

2.2 A UTILIZAÇÃO DO BIOGÁS COMO FONTE RENOVÁVEL DE