CAPÍTULO 3 – SNI, POLÍTICAS E MARCO LEGAL DE ESTÍMULO À INOVAÇÃO:
3.4. SNI, POLÍTICAS E MARCO LEGAL DE ESTÍMULO A INOVAÇÃO DO B RASIL
3.4.3. A evolução das IGI e do sistema de TT universitárias
No Brasil, antes da promulgação e regulamentação da Lei de Inovação, órgãos semelhantes às IGI eram criados eminentemente por iniciativa das próprias instituições, para estimular sua interação com a indústria, diferente do que ocorreu em outros países, cujas legislações específicas estimularam essa criação e garantiram uma uniformidade na
operacionalização dos procedimentos (SANTOS, 2009). Esses órgãos apresentavam uma grande diversidade em suas atribuições e em sua designação. Em uma pesquisa realizada no período de 2001 a 2003 (SANTOS et al., 2004), 25 universidades afirmaram possuir uma IGI. A pesquisa atestou, nas universidades brasileiras, uma grande diversidade na designação das estruturas que cumprem com funções de uma IGI: núcleos, coordenadorias, agências e escritórios propriamente ditos.
Dessa forma, abdicando de poucas instituições com tradição na interação U-E prévia à promulgação da Lei de Inovação, a estruturação de NIT foi estimulada no Brasil pela criação dessa Lei. Conforme o Artigo 16 da referida Lei, toda Instituição Científica e Tecnológica (ICT) “deverá dispor de núcleo de inovação tecnológica, próprio ou em associação com outras ICT, com a finalidade de gerir sua política de inovação”. No âmbito legal, evidencia-se que uma das atribuições dos NIT42 é “zelar pela manutenção da política institucional de estímulo à proteção das criações, licenciamento, inovação e outras formas de transferência de tecnologia”. Antes da promulgação dessa Lei, a decisão de estabelecer uma estrutura que desempenhasse essas funções dependia da vontade e visão da instituição; pouca discussão sobre inovação tecnológica era promovida na maioria das universidades e a interlocução entre o setor público e privado – excluindo-se as ICT que já possuíam órgãos similares a uma IGI constituídos – era realizada peloskjk pesquisadores. A Lei de Inovação tem promovido no Brasil um efeito semelhante – guardadas as devidas proporções – ao originado nos Estados Unidos há 35 anos com o Bayh-Dole Act, induzindo a formação de IGI como forma de reduzir o hiato existente no país entre a geração do conhecimento e a sua transformação em riqueza e benefícios sociais. Passados onze anos da promulgação da Lei de Inovação e dez de sua regulamentação, significante avanço foi obtido. Algumas universidades, porém, ainda estão em processo incipiente de desenvolvimento e de gestão de suas IGI, fundamentais para a gestão de suas inovações. Outras ampliaram ou reformularam as funções realizadas por órgãos já existentes, mas ainda é visível a carência de diretrizes para gestão de IGI em universidades brasileiras.
42 Conforme o Artigo 16 da Lei de Inovação, competências mínimas do NIT são: I- zelar pela manutenção da
política institucional de estímulo à proteção das criações, licenciamento, inovação e outras formas de transferência de tecnologia; II - avaliar e classificar os resultados decorrentes de atividades e projetos de pesquisa para o atendimento das disposições dessa Lei; III- avaliar solicitação de inventor independente para adoção de invenção na forma do art. 22; IV- opinar pela conveniência e promover a proteção das criações desenvolvidas na instituição; V- opinar quanto à conveniência de divulgação das criações desenvolvidas na instituição, passíveis de proteção intelectual e VI- acompanhar o processamento dos pedidos e a manutenção dos títulos de propriedade intelectual da instituição.
O domínio sobre o marco regulatório brasileiro de estímulo à Inovação, as negociações de licenças tecnológicas, a gestão da PI e de contratos e o desenvolvimento de parcerias são competências que uma IGI deve internalizar e praticar. Nessa perspectiva, uma das grandes lacunas no que se refere à matéria de PI e, consequentemente, a TT, diz respeito à formação e à capacitação de recursos humanos em diferentes esferas e com complexidade de conteúdo distinta (AMORIM-BORHER et al., 2007). Como no Brasil ainda não existe uma “cultura” de TT, as ICT enfrentavam (e ainda enfrentam) dificuldades para estruturar seus núcleos de inovação – por carência de políticas claras destinadas à atividade inovativa e/ou por escassez de pessoal com conhecimento específico.
A transferência de tecnologia tem recebido atenção especial no Brasil após a Lei de Inovação, a qual dispõe, dentre outros temas, sobre o estímulo à inovação por meio da colaboração entre instituições de pesquisa e o setor empresarial. Sua importância pode ser vista em especial pelos entraves anteriormente causados para a TT via licenciamento de patentes, pela ausência de diretrizes legais específicas no país, relacionadas às parcerias U-E, gerando incertezas jurídicas quanto à aplicação da Lei de Propriedade Industrial nº 9279/96 (LPI) – especialmente nos aspectos da retenção pelas universidades dos direitos de patentes e da legalidade de contratos com empresas para exploração das tecnologias desenvolvidas em universidades públicas (FUJINO; STAL, 2004).
Para Plonski (2015), o avanço quantitativo na criação de IGI alcançado no período compreendido entre os anos 2000-2010, deve-se a três fatores inter-relacionados: i) o estabelecimento de uma comunidade de aprendizagem e troca de experiências, articulada em âmbito nacional, inicialmente pela Rede de Propriedade Intelectual e Comercialização de Tecnologia, criada em 1998 pela Rede de Tecnologia do Rio de Janeiro (REDETEC), que organiza anualmente eventos de discussão de temas relevantes para a atuação das IGI, atraindo públicos cada vez mais numerosos e interessados em valorizar a apropriação dos resultados da pesquisa acadêmica – o FORTEC, criado em 2006, ampliou e reforçou os esforços iniciados pela REDETEC, atuando também na capacitação de profissionais para a atuação em IGI; ii) o aumento da percepção da relevância do papel de uma gestão eficiente da PI, tanto para preservar os direitos relativos aos resultados de pesquisas das instituições de ensino e pesquisa, como para viabilizar a cooperação mais ampla com empresas; e iii) a promulgação da Lei Inovação.
O MCTI, desde 2009, compila e divulga anualmente o relatório sobre a Política de Propriedade Intelectual das ICT, apresentando dados consolidados fornecidos por essas
instituições através do preenchimento anual do Formulário para Informações sobre a Política de Propriedade Intelectual das Instituições Científicas e Tecnológicas do Brasil (FORMICT) segundo determinação do Art. 17 da Lei de Inovação43. Alguns dos principais indicadores compilados pelo Relatório do FORMIC de 2013 (MCTI, 2014) encontram-se consolidados na Tabela 3.2, para os anos de 2012 e 2013.
Com relação aos resultados das ICT Relatório do FORMIC de 2013, 74,3% das instituições que o preencheram são ICT públicas e localizam-se na Região Sudeste (40,7%), diferentemente das ICT privadas que se concentram principalmente na Região Sul (40,7%). Quanto à existência de uma política de inovação, 68,6% das ICT públicas e 71,6% das ICT privadas declararam possuir uma política de inovação implementada, que na definição da pesquisa relaciona-se a documentos formais com diretrizes gerais que regulam a atuação da instituição nas ações ligadas à inovação, à proteção da PI e à TT. Das instituições que informaram possuir uma política de inovação implementada, constatou-se que firmar acordos de confidencialidade, desenvolver projetos de cooperação com terceiros e acordos de parcerias são as atividades com maior incidência na referida política das instituições; enquanto que a licença sem remuneração para o pesquisador constituir empresa, o afastamento para prestar colaboração a outra ICT e a cessão de direitos sobre a criação para que o criador os exerça em seu nome são as atividades com menor incidência (MCTI, 2014).
43 Art. 17. A ICT, por intermédio do Ministério ou órgão ao qual seja subordinada ou vinculada, manterá o
Ministério da Ciência e Tecnologia informado quanto: I – à política de propriedade intelectual da instituição; II – às criações desenvolvidas no âmbito da instituição; III – às proteções requeridas e concedidas; e IV – aos contratos de licenciamento ou transferência de tecnologia firmados. Parágrafo único. As informações de que trata este artigo devem ser fornecidas de forma consolidada, em periodicidade anual, com vistas à sua divulgação, ressalvadas as informações sigilosas.
Tabela 3.2: Alguns indicadores de ICT públicas e privadas 2012-2013
Fonte: elaboração própria a partir de MCTI (2014) e MCTI (2013)
Quanto ao estágio de implementação das IGI, 72,2% das ICT públicas possuem IGI implementado, 19,1% afirmaram que a IGI está em implementação e 8,8% não ainda possuem IGI. Em relação às ICT públicas que possuem IGI implementada, 84,7% possuem IGI exclusiva e 15,2% compartilham a IGI com outras instituições. Com relação à equipe das IGI, nota-se que cerca de 40% são bolsistas, estagiários ou outros profissionais autônomos, com vínculo temporário com a instituição, o que é uma das fragilidades das estruturas das IGI. No que tange à formação dos profissionais que atuam em IGI, nota-se a predominância de engenheiros, físicos e químicos (29,6%), seguida de administradores e economistas (17,5%) e advogados (12,9%). No que se refere às atividades realizadas pelas IGI, nota-se que a maioria se concentra nas competências mínimas definidas no art. 16 da Lei de inovação, especialmente as relacionadas à gestão de PI. Quanto a atividades complementares, predominam a realização de eventos e treinamentos (MCTI, 2014).
Em termos de atuação na proteção de PI, 60,3% das ICT públicas e 46,3 % das ICT privadas relataram que possuem pedidos de proteção requeridos e concedidos em 2013. De modo geral, observa-se aumento nos pedidos de proteção, vez que os 1901 pedidos requeridos representam um incremento de 76,3% nos últimos três anos (1078 pedidos no ano base 2010), demonstrando que a atuação das IGI tem aumentado no tocante à proteção da PI. Contudo, observa-se que as IGI ainda possuem pouca atividade em TT: apenas 45 (37 públicas e 8 privadas) das 261 instituições que preencheram o FORMICT relataram possuir contratos de TT firmados em 2013, e esse número foi menor do que o total de 2012 (46). Dos contratos de licenciamento de PI a grande maioria é sem exclusividade, o que se justifica pela maior facilidade de realização desses contratos, que dispensam a publicação prévia de edital. Interessante observar que o total gasto pelas ICT com PI no ano, R$5,9 milhões (R$ 4,8 milhões pelas ICT públicas e R$ 1,1 milhão pelas privadas) corresponde a cerca de 70% das receitas auferidas com licenças de PI (MCTI, 2014).
Livesey (2014) realizou um mapeamento das atividades de IGI em 2014 como parte do projeto colaborativo entre a UNICAMP e a University of Cambridge, e destacou os seguintes pontos: a obrigatoriedade de proteção de tecnologias – inferida pelo fato de a maioria das IGI não realizar análise de mercado das comunicações de invenção, atendo-se eminentemente a critérios de proteção – pode ser contraproducente; a comercialização de tecnologias ainda é abordada de modo restrito, concentrando-se em licenciamento de PI e não havendo enfoque na formação de spin-offs e consultoria; suporte da alta administração das universidades é limitado, tanto em termo de incluir a inovação em suas estratégias como em recursos financeiros; falta de demanda nacional e internacional pelas tecnologias de universidades brasileiras; as IGI necessitam aprimorar suas competências nos aspectos técnicos e comerciais das tecnologias para que possa ser alcançada uma atuação mais eficaz, e a maioria das IGI entende que a Lei de inovação necessita de melhorias.
De fato, atesta-se que a atividade de criação de spin-offs a partir de PI de universidades não faz parte das prioridades das IGI brasileiras, como evidenciado no mapeamento recente feito por Livesey (2014) e pela ausência de menção a essa atividade no relatório do FORMICT. Segundo Plonski (2015), apesar de haver estudos no país sobre spin- offs acadêmicas desde a década de 1990, com a publicação de diversos artigos, dissertações e teses sobre o tema, não há informações consolidadas sobre sua criação, nem mesmo nos indicadores de CT&I compilados pelo MCTI. Apesar de ser em princípio uma atribuição das IGI, a criação dessas empresas no Brasil não consta como uma das suas competências
mínimas na Lei de Inovação, e no Relatório do FORMICT de 2013 uma das atividades com menor grau de implementação pelas IGI foi justamente a concessão de licença sem remuneração para o pesquisador constituir empresa (apenas 18,8% das IGI implementadas afirmaram ter realizado).
Considerações Finais
Neste capítulo foram analisados o SNI, o marco legal e as políticas de inovação de cinco países, três com SNI em estágio avançado de construção (Estados Unidos, Israel e Reino Unido) e dois com SNI em estágio intermediário de construção (Brasil e Chile). Os países com SNI avançados têm apresentado resultados exitosos e consistentes na propulsão à inovação e ao empreendedorismo no período em estudo, e em seu pioneirismo na incorporação desse papel por suas universidades. Foi possível observar semelhanças no cenário do Chile e Brasil, mas com o comprometimento mais forte e sistemático do governo chileno no apoio à inovação e ao empreendedorismo de base tecnológica.
Pode-se observar que a inovação foi incorporada como agenda do governo em todos os países, com a compreensão de sua relevância para o crescimento econômico e a expectativa de uma participação mais ativa das universidades nos SNI. Muitas universidades estudadas operam em clusters de alta tecnologia bem desenvolvidos e as experiências internacionais analisadas oferecem excelentes aprendizados nesse sentido. O Quadro 3.3 consolida os elementos de destaque no marco legal e nas políticas nacionais de apoio à inovação e ao empreendedorismo nos países estudados – apenas considerando os relacionados aos governos federais.
As experiências dos países estudados neste capítulo são bem distintas em diversas dimensões, iniciando-se pelas influências preponderantes na coordenação e governança de seus sistemas de ensino superior, que impactam a participação das universidades na inovação e no empreendedorismo. Sua análise revela pontos e características necessários para compreender a evolução e a relevância do papel da universidade nos SNI em cada um desses países, identificar o papel do governo na promoção da inovação e no estímulo à cooperação U-E e favorecer a reflexão sobre os desafios enfrentados. As formas como as nações mais avançadas superaram seus desafios e construíram seus SNI podem servir de inspiração para países em desenvolvimento como o Brasil e o Chile, e serão consideradas nas sugestões de
melhorias para universidades e IGI brasileiras e formuladores e gestores de políticas, propostas pela autora no Capítulo 5.