DE/DOENÇA BUCAL
É inegável a grande contribuição que a evolução tecnológica e cientifica tem propor- cionado ao campo biomédico, ampliando os conhecimentos e as ações concretas nas áreas de diagnóstico, prevenção, tratamento e controle das doenças, sobretudo no nível individual da atenção. Todas essas conquistas, entretanto, não apagam o debate que tem inicio neste novo milênio sob o imperativo da ética e da qualidade de vida. Para muitas doenças, gerais e bu- cais, que afetam as populações, o instrumental científico-tecnológico, por si só, não é sufici- ente para responder à alta complexidade que as envolve. Assim, somos desafiados a pensar a saúde sob a ótica do desenvolvimento e da condição humana, porque evidências têm mostrado
que a saúde está muito mais relacionada com o modo de viver das pessoas do que com os fa- tores biológicos e genéticos. Dessa maneira, o sedentarismo, a alimentação não saudável, o consumo de álcool, tabaco e outras drogas, o frenesi da vida cotidiana, a competitividade e o isolamento do homem nas cidades são condicionantes diretamente relacionados à produção das ditas doenças modernas(BRASIL, 2002b, p. 2). Ao pensar o processo saúde-doença nessa perspectiva mais ampla, Benetton (2002) afirma:
Sombras e virtudes, posturas corporais e hábitos, crenças, medos e culpas vão esculpindo o ser humano conforme o regime dos ventos. A doença pode ser vista dentro deste referencial, É possível estabelecer relações profundas entre enfermidades e curvas existenciais, entre o adoecer específico de um ser e sua biografia particular – tudo se expressa mutuamente (...). Podemos considerar que, por trás de uma doença crônica, há um script de vida crôni- co expresso na síndrome em questão (...). Também é possível somatizar sa- úde (BENETTON, 2002, p. 144).
Contraditoriamente, o médico tem sido preparado, mais ou menos adequadamente, pa- ra tratar um paciente que não é nem homem, é apenas um corpo humano. Em seu cotidiano, entretanto, se defronta com um homem que tem um corpo que sofre reagindo fisiologicamente a toda uma gama de influências concretas do tipo emocional, cultural e moral (PESSOTI, 1996, p. 443).
No que se refere à saúde bucal, Freire (2001, p. 21) afirma que a etiologia das doenças bucais é um processo complexo que envolve fatores sociais, psicológicos e biológicos e que, embora a grande maioria dos estudos ainda se concentre nesses últimos, tem havido, nas últi- mas décadas, um crescente interesse pelos determinantes psicossociais da saúde bucal. A au- tora aponta que a cárie e alguns comportamentos positivos ou negativos em relação à saúde bucal estão associados a diversos fatores psicossociais. Dentre eles, cita os fatores emocionais (principalmente o estresse31), a auto-estima32, o auto-conceito33, a auto-eficácia34, o health
31 “Reação generalizada do corpo em resposta a uma variedade de estímulos físicos ou psicológicos” (FREIRE, 2001, p. 22).
32
“Auto-estima é a convicção da própria pessoa de que ela é uma pessoa de valor, aceitando sua força, bem como suas fraquezas pessoais” (WELLS e MARWELL, 1976. In: FREIRE, 2001, p. 23).
33 “Auto-conceito é o componente cognitivo do eu e consiste na percepção do indivíduo sobre ele mesmo, por exemplo, como é que eu realmente sou ?" (FITTS, 1965. In: FREIRE, 2001, p. 23).
34 “Auto-eficácia refere-se à expectativa de competência para se comportar de uma maneira que irá influenciar os resultados” (BANDURA,1977. In: FREIRE, 2001, p. 23).
locus of control35 e o senso de coerência36. Embora acene para a importância desses fatores, chama a atenção que mais estudos são necessários, no sentido de se buscar uma melhor com- preensão dos fatores psicossociais e do processo saúde-doença bucal, bem como dos prová- veis mecanismos mediadores desta relação (Freire, 2001, p. 25).
A doença periodontal37 (DP) ainda é alvo constante de dúvidas e questionamentos quanto à sua etiopatogenia, tratamento e prevenção. Deste modo, na tentativa de explicá-la, muitos autores têm estudado indicadores biológicos e emocionais capazes de tornar o indiví- duo mais vulnerável à doença. Nesse sentido, Sallum e outros (1999, p. 63) argumentam que existe uma possível associação entre a doença periodontal e alguns fatores de ordem psicosso- cial como o estresse emocional, a ansiedade, o medo, a depressão, bem como o tabagismo. Para esses autores, como a biologia, per si, não tem conseguido explicar tais fenômenos, nota- se que os pesquisadores estão mais atentos ao perfil emocional dos indivíduos e à influência deste na saúde bucal.
Para Sallum e outros (1999, p. 64-65), os fatores psicossociais parecem alterar o com- portamento social e individual das pessoas, pondo em risco a homeostase corporal como um todo. Desse modo, como afirmam os autores:
A integridade periodontal pode ser violada, não só pela presença de uma microbiota possivelmente patogênica e por outros fatores de risco à D.P. , mas também através da redução da atividade dos sistemas endócrino e imu- nológico em função das alterações psicossociais do hospedeiro (SALLUM e outros, 1999, p. 65).
Dos fatores psicossociais estudados, o fumo tem sido considerado um dos mais impor- tantes fatores de risco para o desenvolvimento e progressão da doença periodontal, conduzin- do a quadros clínicos avançados e tratamentos complexos (SALLUM e outros, 1999, p. 72). Segundo este autor, ainda que pairem dúvidas acerca das relações causais da maioria dos fato- res, os profissionais deveriam considerá-los cada vez mais no planejamento da atenção, pro- curando informar os pacientes sobre eles, ou mesmo indicando acompanhamento psicológico com profissionais especializados.
35“Health lócus of control mede até que ponto os indivíduos acreditam que sua própria saúde é influenciada pelo seu comportamento ou por causas externas”. (ROTTER; Chance; PHARES, 1972. In: FREIRE, 2001, p. 23) 36 “Senso de Coerência (SOC) é um indicador psicossocial de saúde desenvolvido a partir da teoria denominada salutogênese (saluto = saúde; gênesis = origem), a qual, em contraposição à patogênese, busca explicar os fatores que promovem saúde. Segundo essa teoria, quanto maior o SOC do individuo ou grupos de individuo, maior a sua probabilidade de superar de maneira adequada os eventos estressantes inerentes à condição humana e, con- seqüentemente, manter sua saúde” (ANTONOVSKI, 198. In: FREIRE, 2001, p. 24)
37 Refere-se às doenças que afetam os tecidos que dão suporte e sustentação aos dentes. Dentre esses, a gengiva, o ligamento periodontal e o osso alveolar. É o segundo problema bucal que mais afeta a população brasileira.
Na compreensão de Rodrigues e Serpa (2001, p. 81), por mais técnicos, instrumentali- zados e sofisticados que possam ser os procedimentos odontológicos, eles não deixam de evi- denciar o relacionamento humano. Isso significa que nesse contexto:
Duas pessoas estão se relacionando – pessoa a pessoa, frente a frente ou fa- ce a face – num processo de trabalho mútuo cuja finalidade é ajudar aquele que veio procurar o profissional (...). A finalidade dessa relação, embora possa estar acuradamente localizada numa área mínima da cavidade bucal (...) trata de buscar o alivio de um “sujeito” pessoa que está sofrendo, não somente no local periodontal, mas numa dimensão total bio-psico-sócio- espiritual que a pessoa é (RODRIGUES e SERPA, 2001, p. 81).
Essa reflexão, segundo esses autores, conduz a uma consideração holística do homem não como uma sofisticação filosófica teórica, mas numa dimensão prática e útil para profis- sionais e pacientes, uma vez que:
Não somente a patologia buco-dental piora a qualidade de vida e alegria de viver da pessoa afetada; mas também o inverso é uma realidade: a alegria de viver uma vida significante com realizações e construção de um projeto de vida traz benefícios enormes para o processo periodontal: tanto no aumento das resistências neuroimunológicas como na melhoria de cuidados da placa bacteriana e das doenças periodontais conseqüentes. (RODRIGUES e SER- PA, 2001, p. 81).
Os conhecimentos científicos (já anunciados, mas ainda inconclusivos) com pesquisas desenvolvidas na área dos determinantes psicossociais das doenças bucais, de acordo com os autores consultados, parecem imprescindíveis para uma compreensão mais abrangente do processo saúde-doença, de modo a dar respostas mais eficazes aos problemas de saúde da população. Nesse sentido, Rodrigues e Serpa (2001) acenam:
A odontologia vem intensificando investigações e estudos que permitam ao profissional a mais adequada compreensão do paciente e das suas circuns- tâncias uma vez que a humanidade ingressou numa era na qual a interação entre as ciências inaugurou possibilidades espantosas para o aprimoramento da vida. Este processo está a exigir um conhecimento mais amplo e seguro, de relações psicossociais e intra/interpessoais de forma a relacioná-las com o quadro clínico apresentado pelo paciente (RODRIGUES e SERPA, 2001, p. 84).
Portanto, como afirma Pessotti (1996, p. 443), a própria eficácia da clínica médica passa a exigir que se entenda o “homem que está doente”. Em suma, ela depende agora de um retorno ao estudo do homem para além do conhecimento da máquina humana. Em vista do que foi apresentado, ao pensar essa quarta e última dimensão, vejo dois aspectos básicos que nos acenam para a necessidade de lançarmos um olhar crítico sobre a formação ainda hege-
mônica do dentista brasileiro – tecnicista e cientificista – e, assim, (re)significá-la no sentido de uma formação que abarque e valorize outras áreas de saberes, possibilitando aos profissio- nais uma atenção mais integral aos indivíduos ou grupos de indivíduos que dependem dos seus cuidados:
Primeiro, o atual paradigma de atenção que privilegia a promoção de saúde e, como já explicitado, está centrado, principalmente, na busca da qualidade de vida como determinante de saúde.
A promoção da saúde como campo conceitual, metodológico e instrumental ainda em desenvolvimento, traz, em seus pilares e estratégias, potenciais de abordagem dos problemas de saúde (...) em seu conceito amplo, discute a busca da qualidade de vida, pressupõe que a solução dos problemas está no potencial de contar com parceiros e a mobilização da sociedade, trabalha com o princípio da autonomia dos indivíduos e das comunidades, reforça o planejamento e poder local (BRASIL, 2002b, p. 3).
Logo, não basta ser o dentista que age tecnicamente evitando ou amenizando as seqüe- las das doenças bucais; é preciso desenvolver habilidades que ajudem os indivíduos ou grupos de indivíduos a compreender e valorizar a saúde, participando como sujeitos nos processos que conduzem a ela. Com essa perspectiva, o dentista, além de precisar mobilizar conheci- mentos e ações que extrapolem o referencial técnico (metatécnico), é desalojado do seu único e limitado espaço de trabalho – o consultório odontológico – para atuar junto a parceiros de outros setores e, também, em espaços sociais (creches, escolas, domicílios, centros comunitá- rios etc.) que envolvem interações muito mais complexas.
Segundo, a convicção cada vez maior de que apenas o conhecimento dos determinan- tes biológicos das doenças não têm sido capazes de explicá-las, preveni-las e tratá-las. Portan- to, três desafios estão postos à formação de recursos humanos em saúde.
Primeiro, estimular pesquisas que contemplem cada vez mais esse objeto de estudo, de modo que aquilo que muitos profissionais já conseguem identificar em sua prática clínica, e que muitos pesquisadores já acreditam, ganhe respaldo da ciência, fazendo desaparecer da conclusão da maioria dos trabalhos que abordam o tema as célebres frases que retratam as incertezas38 das relações causais entre os determinantes psicossociais e as doenças bucais. Estas incertezas, muitas vezes, adiam a possibilidade de ajudar os profissionais a desenvolver intervenções mais eficazes e os pacientes de se beneficiarem com elas.
38 Ainda que a própria ciência, atualmente, esteja tendo que admitir que precisa aprender a conviver com as in- certezas.
Segundo, estimular os profissionais a buscar conhecimentos, desenvolver habilidades e compreender a necessidade do trabalho em equipes multiprofissionais no sentido de ajudar os indivíduos a entender, superar ou controlar os problemas psicossociais relacionados ao processo saúde/doença. Tais habilidades, pela natureza dos problemas a serem enfrentados, requerem uma abordagem humana do profissional, que somadas às habilidades técnicas, cer- tamente, além de propiciarem respostas mais eficazes, possibilitam uma sensação de plenitude no trabalho.
Terceiro, estimular os profissionais a uma busca radical de si mesmos, uma vez que, ao compreender os próprios sentimentos, capacidades e limitações, eles possam estabelecer relações interpessoais saudáveis, seja com os indivíduos que dependem dos seus cuidados, ou com a equipe de trabalho, criando ambientes saudáveis para a atenção à saúde. Emerge então, a necessidade de formar profissionais que consigam interpretar o processo saúde/doença/cura dentro das suas múltiplas dimensões e não apenas centrados no modelo biomédico, ainda do- minante.
Das quatro dimensões apresentadas neste capítulo, poderiam emergir inúmeras possi- bilidades de pesquisas no sentido de se construir conhecimentos que possam contribuir com uma melhor compreensão do perfil de dentista que o contexto brasileiro atual exige. Dentre esse espectro amplo de possibilidades, compreendo que uma das maiores exigências contem- porâneas para a ressignificação desse perfil está relacionada à formação ético-humanista dos profissionais. Obviamente que essa compreensão não se dá de uma forma isenta e impessoal, mas, sim, a partir da trajetória profissional e de um perfil pessoal que procure colocar as rela- ções humanas em um lugar de destaque na escala de valores desenvolvida pelos profissionais. Desse modo, atuando como docente de cursos de Odontologia há vinte anos, inquieta com o perfil de profissionais que formamos, atenta às exigências contemporâneas de um novo perfil profissional e desejando realizar um trabalho que possa oportunizar uma reflexão crítica da nossa prática, eu me senti motivada a desenvolver este estudo com o propósito de analisar o perfil profissional e a dimensão ético-humanista na formação de graduandos de dois cursos de Odontologia na Bahia.
3 DEFINIÇÕES DO OBJETO DE PESQUISA
Tendo em vista uma definição do objeto de pesquisa, apresento a seguir o problema dentro do qual ele se insere, os objetivos geral e específicos, os pressupostos que eu tenho acerca desse objeto e uma compreensão de relevância desse trabalho.