TÓPICO 2 – ASPECTOS LEGAIS
2.2 A EVOLUÇÃO DO TRABALHO E O IMPACTO NA SAÚDE DOS
Conforme Neves (2011), a relação entre o trabalho e a saúde x doença
verificada desde a Antiguidade, com destaque a partir da Revolução Industrial,
sempre foi o foco de atenção. Afinal, no trabalho escravo ou no regime servil
inexistia a preocupação em preservar a saúde dos que eram submetidos ao
trabalho, interpretado como castigo ou estigma, o tripalium, instrumento de
tortura, como já estudamos.
O trabalhador, o escravo e o servo eram elementos que se assemelhavam
a animais e ferramentas, sem história, sem progresso, sem perspectivas, sem
esperança. Com o advento da Revolução Industrial, o trabalhador "livre" para
vender sua força de trabalho tornou-se presa da máquina, de seus ritmos, dos
ditames da produção que atendiam à necessidade de acumulação rápida de capital
Neves (2011) descreve que as jornadas eram enormes (em torno de 16 a 18
horas de trabalho por dia), em ambientes extremamente desfavoráveis à saúde, às
quais se submetiam também mulheres e crianças, eram frequentemente incompatíveis
com a vida. A aglomeração humana em espaços inadequados propiciava a acelerada
proliferação de doenças infectocontagiosas, ao mesmo tempo em que a periculosidade
das máquinas era responsável por mutilações e mortes.
A maioria da mão de obra era composta de mulheres e crianças que
sofriam a agressão de diversos agentes, oriundos do processo ou ambiente de
trabalho. Essa classe era mais facilmente contratada, pois valiam menos, ou seja,
o salário era ínfimo, não valia quase nada. Além disso, as crianças entre 5 e 7 anos
de idade, desmaiavam ou dormiam nos seus postos de trabalho, lugares escuros,
sujos, sem ventilação, onde conviviam com inúmeros animais e roedores, sem
condições de higiene, e a alimentação era levada de casa, na maioria das vezes,
apenas um pão para o dia inteiro.
FIGURA 4 – CRIANÇAS TRABALHANDO NO FIAR
FONTE: Disponível em: <http://www.blogdogusmao.com.br/v1/2011>. Acesso em: 21 jan. 2015.
Conforme Ribeiro (2008), frequentemente as doenças originadas no
trabalho eram percebidas em estágios avançados, até porque muitas delas, em
suas fases iniciais, apresentam sintomas comuns a outras patologias, dificultando a
identificação dos processos que as geraram, bem mais amplos que a mera exposição
a um agente exclusivo. A rotatividade da mão de obra, sobretudo quando se
intensifica a terceirização, representa um obstáculo a mais nesse sentido.
Ainda para o mesmo autor, a preocupação com a força de trabalho, com
as perdas econômicas, suscitou a intervenção dos governos dentro das fábricas. E
chegamos ao início do século XIX com o surgimento de médicos nas fábricas e o
aparecimento das primeiras leis de saúde pública que marcadamente abordavam
a questão saúde dos trabalhadores.
No fim do século XIX se vivia em uma nova era, onde os aspectos de
habitação, saneamento, trabalho, entre outros elementos, tiveram importância no
processo saúde-doença.
Durante a história da humanidade, vimos o percurso do surgimento e a
propagação das doenças ou moléstias que afetavam a população de um modo
geral. Muitas teorias tentaram explicar a propagação das doenças, como bruxarias,
castigo divino, contato com animais, entre outros. Também foram muitas as
ideias de como prevenir o contágio das doenças. Com o passar dos tempos e com
o aprimoramento de muitas dessas ideias, o homem foi descobrindo formas de
se evitar essa propagação, através da diminuição dos riscos nos ambientes de
trabalho, tendo, aí, indiretamente, surgido a Biossegurança.
Conforme Mastroeni (2010), no século XX, noções de biossegurança foram
inseridas naturalmente no meio dos trabalhadores, principalmente no que diz
respeito às noções de higiene. Era o início das pesquisas com vírus e bactérias que
poderiam ter sua transmissão bloqueada, através da lavagem das mãos.
Assim como em outros países do mundo, a biossegurança surgiu,
principalmente, com o advento da biologia molecular. As novas técnicas de
trabalho desenvolvidas junto aos produtos a serem manipulados exigiram a
elaboração de normas e procedimentos que pudessem proporcionar a execução
de qualquer atividade com o mínimo de risco.
No mundo moderno e com a medicina avançada, tornou-se imprescindível
utilizar mecanismos e regras que evitem a ocorrência de combinações indesejadas.
Estamos falando da manipulação de moléculas como os ácidos nucleicos, capazes
de alterar o curso "normal" da vida dos seres vivos.
Para Mastroeni (2010), indiferente do que se deseja manipular, sejam ácidos
nucleicos, microrganismos, produtos químicos, substâncias radioativas ou outro tipo
de material que provoque dano ao ser vivo, a prática de trabalhar com segurança
deve ser a mesma, evitando atividades potencialmente geradoras de acidentes.
Para o mesmo autor, no Brasil, a primeira legislação que poderia ser classificada
como Biossegurança foi a Resolução nº 1, do Conselho Nacional de Saúde, de 13
de junho de 1988. Embora fosse bem elaborada e de teor consistente, esta resolução
apresentou-se restrita à área de saúde, muito extensa e pouco divulgada.
Posteriormente, como já vimos, em 24 de março de 2005, foi publicada
no Diário Oficial da União a Lei nº 11.105/2005, que, regulamentada pelo
Decreto 5.591/2005, passou a reger todas as atividades envolvendo organismos
geneticamente modificados no país.
Dessa forma, a biossegurança é uma ciência que surgiu para controlar
e diminuir os riscos quando se praticam diferentes tecnologias, tanto aquelas
desenvolvidas em laboratórios, ambulatórios, como as que envolvem o meio
ambiente. Também aparece em indústrias, hospitais, clínicas, laboratórios de
saúde pública, laboratórios de análises clínicas, hemocentros, universidades etc.
A biossegurança é regulada por um conjunto de leis que ditam e orientam como
devem ser conduzidas as pesquisas tecnológicas.
No documento
Biossegurança em Serviços de Saúde. Prof.ª Paula Dittrich Corrêa
(páginas 31-34)