2. PROBLEMATIZANDO O TURISMO E O DESENVOLVIMENTO NO
2.1. A evolução do turismo: do contexto ocidental ao arquipélago de Bazaruto
Acontecimentos pertinentes colaboraram para a expansão do turismo. Relatos que procuram reaver a evolução do turismo com base nas primeiras manifestações que retratam as viagens praticadas no período pré-histórico pelos gregos e romanos que identificariam o turismo como um fenômeno social. Portanto, tem se em conta a relação do turismo aos vetores ocidentais.
Na Grécia antiga já se viajava para a realização de peregrinações em grupo com vista a consumar práticas religiosas e jogos olímpicos, assim como os filósofos que procuravam adquirir certos conhecimentos viajavam para outras realidades. Todavia a condição socioeconômica se distanciava das relações de produção capitalista da sociedade industrial, mas o fator motivacional de viagens se reconheceria com o cenário atual (BARRETTO, 1999; DIAS e AGUIAR, 2002).
Outro fator é que os romanos criaram uma estrutura de atendimento ao viajante, construíram estradas, assim como impulsionaram o surgimento das segundas moradias. Eles teriam sido os pioneiros em viagens por prazer, as visitas às termas em busca da cura, às praias
em busca de divertimento e aos monumentos históricos teriam sido os referenciais (BARRETTO, 1999; DIAS e AGUIAR, 2002).
No entanto, a África Sahariana13 já estabelecia uma relação com o ocidente desde os tempos passados, mediante as viagens realizadas pelos europeus com fins comerciais mas também pela estrutura arquitetônica e os monumentos históricos. Ao exemplo disso, os precedentes do turismo internacional no contexto africano são as viagens inseridas no Grand Tour que concedia um determinado status social.
Pois, se refletirmos sobre os relatos de Dias e Aguiar (2002) e Barretto (1999) podemos afirmar que o Grand Tour tratava de viagens com carácter educativo que consistiam no encaminhamento de filhos de uma minoria da elite europeia, maioritariamente inglesa para os países da África Sahariana e Europa Ocidental considerados berço da civilização e/ou que possuíam um grande número de monumentos.
Com a revolução Industrial no século XIX, a descoberta do vapor como fonte de energia fundamental para a locomoção dos navios, tal como a invenção do transporte ferroviário contribuiu com que viagens de longo percurso se realizassem de forma segura. Foi neste contexto que surge a imagem de Thomas Cook associada à sua dedicação na organização padronizada de viagens que proporcionava um conjunto de serviços inclusos, alojamento, alimentação, recreação e a criação de itinerários descritivos com guias turísticos. Assim, introduzindo também o sistema do uso de voucher14, tal como se estabelece nos dias de hoje, no entanto, era apenas uma fase do emprego dos avanços tecnológicos que acontecem de forma contínua.
No contexto Moçambicano, os finais do século XIX e o início do século XX, o turismo sempre esteve associado ao desfrute do ambiente da cidade, o usufruto do litoral e também à selva, caça desportiva e os safaris. Alguns exemplos referenciais dessa época são: Em Inhambane, o hotel Charleton construído em 1890 – a referida casa Oswald Hoffman que é a atual Gráfica Sul de Save; Em Maputo, o hotel Clube construído entre 1898 e 1899 que funciona
13 Trata-se de Egipto, Argélia, Líbia, Marrocos e Tunísia.
14 Comprovativo que atesta o pagamento e o direito a um serviço ou a um produto, nestes termos pode-se referir aos
como o Centro Cultural Franco-Moçambicano, o hotel Cardoso em 1906 e o Polana Serena Hotel em 1922; Em Quelimane o hotel Chuabo em 1947 e em Morrumbala os vestígios de uso das águas termais; na Beira o Grande Hotel erguido em 1954 que nos dias de hoje se encontra abandonado e ao abrigo de mendigos.
No âmbito do Arquipélago de Bazaruto, um dos marcos iniciais do desenvolvimento do turismo, se destaca pela existência do hotel Santa Carolina, atualmente inoperacional, mas que teve sua exploração no início da década 1950.
Figura 4: Placa de sinalização do hotel Santa Carolina
Fonte: Arquivo pessoal (2019)
Essa época ditava o princípio da incorporação de investimentos em empreendimentos turísticos e assim, delineavam-se o controle da oferta e demanda turísticas pelo sistema capitalista com o advento do turismo e as facilidades que o meio técnico-científico predispôs.
Todavia, o turismo manifestou-se consideravelmente como um fator de expansão internacional das corporações, instigado pela mercantilização de lazer excludente e reestruturação do capital com a tendência no relacionamento aos laços coloniais. Pois, um grupo social pode usufruir do tempo livre e outro deve sucumbir, tornando-se refém do trabalho e da extorsão de recursos, enquanto constatação da exploração imposta pelo capital às distintas realidades econômicas e sociais.
O arcabouço do hotel Santa Carolina demonstra que na era colonial, já havia um contato intenso com o arquipélago de Bazaruto por uma elite colonizadora, pela acessibilidade dos meios de transporte, capacidade técnica, disposição de capital para erguer e manter um negócio ostensivo numa área marcadamente vulnerável face a população local. Também, desprovida de capacidade operacional e assente na vigorosa exploração disseminada.
Figura 5: Hotel Santa Carolina
Fonte: Arquivo pessoal (2019)
Diante da figura acima, é possível notar que o hotel se encontra em ruínas. No momento atual constitui um dos elementos de visitação no qual se tende a confirmar, além do tipo de edificação que se difere das recentes, ainda pode-se atestar a presença do primeiro hotel do arquipélago de Bazaruto.
Portanto, o turismo teve seus destaques, conforme aponta Moçambique (2006, p11):
Historicamente, Moçambique conquistou a posição de destino turístico de primeira classe em África (…) O turismo desenvolveu-se em torno de 3 temas: as praias, a fauna e o ambiente dinâmico oferecido pelos centros urbanos e concentrava-se principalmente nas zonas Sul e Centro do País. O produto faunístico encontrava-se muito desenvolvido e o Parque Nacional de Gorongosa era considerado uma das melhores reservas de animais da África Austral e a caça nas coutadas, na zona Centro, possuía padrão internacional (MOÇAMBIQUE, 2006, p. 11).
O turismo relativo a flora e fauna teve seus marcos com o Parque Nacional de Gorongosa em criado em 1960, o Parque Nacional de Zinave em 1962 e o Parque Nacional de Bazaruto em
1971 que apontam a afluência do turismo no período colonial. No entanto, o turismo era praticado na sua maioria por portugueses, americanos, sul africanos, espanhóis e alemães nos processos de acumulação (MOSCA, 1987 apud AZEVEDO, 2014).
Face ao exposto, a primeira metade do XIX deixa avanços significativos na evolução do turismo, bem como na transformação econômica e social que ocorreu como consequência da Revolução Industrial, favorecendo a rápida melhoria nos transportes e a conexão dos países do centro com os países considerados periféricos na concepção mundial.
No século XX, o mundo ficou mais conectado, um ímpeto de viagens com a era da aviação se tornou mais confortável e flexível, que resultou no dispêndio de menos tempo em longos trajetos de viagens. Conforme Dias e Aguiar (2002), no século XXI a consciência do turista torna-se mais exigente com a qualidade de produtos e serviços, refutando o turismo de massa e incrementando o turismo voltado à natureza. Surgem as novas particularidades do turismo, dentro do novo paradigma de antagonismos proveniente do padrão produtivo mundial (AZEVEDO, FIGUEIREDO, NÓBREGA, MARANHÃO, 2013a). Em vista disso, Azevedo, et al (2013a) referem sobre as mudanças que ocorrem e vão forçando um novo ritmo a sociedade, seja pelo despotismo de consumo, pela tendência de estandardização da cultura, pelas relações flexíveis com o meio ambiente e pela capacidade de exploração de mão de obra por diversas partes do mundo.
Assim, o turismo se insere na acumulação flexível de capital e que se aprimora15 pela revolução científica e tecnológica, liberalização das fronteiras e do comércio internacional, a união horizontal e vertical das empresas e a movimentação de empregos nos diversos setores produtivos. Nesse contexto, o turismo se identifica como um projeto de atividade geradora de riqueza desigual, tanto que muitos países hegemônicos se beneficiaram do seu desenvolvimento marcadamente capitalista. Por isso, é viável se for pensado no desenvolvimento a partir de uma base mais endógena e/ou solidária com os lugares e territórios turistificados.