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4.1 PERIFERIA E EXCLUSÃO

4.1.1 A exclusão como reflexo de vivências e privações

Se relacionarmos a pobreza à periferia, chegaremos a uma possível consequência: a exclusão social como um desaguadouro das privações vividas pelo sujeito. Pinheiro (2015) associa diretamente a exclusão social à periferia, recorrendo a ideias apontadas por Maiolino (2005):

A periferia costuma ser também um dos lugares onde situamos a “exclusão social” e aqueles que a vivenciam. Noção que ganha fôlego nos anos 1990, ela pode ser associada às circunstâncias geradas pela reestruturação produtiva, pela fragilização de políticas sociais e pelo desmonte do Estado de Bem-Estar social, cuja configuração no Brasil era já historicamente deficitária, sendo que a elevação de níveis de desemprego estrutural figurava como principal evidência de restrições à mobilidade social e, em consonância, de riscos de segregação (PINHEIRO, 2015, p. 60).

Conforme o raciocínio apresentado por Pinheiro, a ideia de marginalidade recuou para um sentido secundário, já que costumava fazer alusão a casos de desigualdade e não de exclusão. E completa:

[…] Além disso, a noção de “exclusão social” passava a reverenciar aspectos múltiplos do cotidiano (e transversais às condições econômicas), conforme se diversificavam grupos e reivindicações sociais. Presta-se tanto a reclames de categorias desempregadas, sem teto, moradores de rua, como daquelas denominadas como “minorias” (grupos étnicos, homossexuais, etc.). Desta forma, parece corresponder a demandas diversas, agregadas por uma condição comum e genérica de apartação em relação ao que a sociedade dispõe, em que pese aí as diferentes caracterizações dos demandantes (PINHEIRO, 2015, p. 61).

Quando Telles (2013) comenta que a pobreza existente no Brasil “evoca o enigma de uma sociedade que não consegue traduzir direitos proclamados em parâmetros mais igualitários de ação” (2013, p. 15), podemos pensar no quanto estar na periferia pode, de certa forma, afastar o sujeito de possibilidades. Afinal de contas, reconheçamos, nem sempre os governos conseguem colocar em prática políticas públicas que efetivamente beneficiem parcelas menos favorecidas da sociedade. Em relação a isso, questionamos: quais são as possibilidades ofertadas e realmente experimentadas por quem está em uma periferia isolada por meio de muros, situação dos internos do CASE? É algo a refletir.

Para Telles, a pobreza contemporânea é um “ponto cego instaurado no centro mesmo de um Brasil moderno”, e perpassa os lugares onde sempre esteve notadamente presente, como nas “franjas do mercado de trabalho”, escondida sob o disfarce da economia informal ou do mundo rural, entre outros pontos (TELLES, 2013, p. 15). A autora aponta também, valendo-se de ideias de Hélio Jaguaribe, para os reflexos que essa cadeia pode causar, mencionando que a questão pode estar associada à “ameaça de uma convulsão social provocada pela miséria desmedida que alimenta virtualmente conflitos insolúveis e demandas inegociáveis numa economia em crise” (TELLES, 2013, p. 16).

Para exemplificar essa relação que apresentamos aqui, mencionamos duas breves amostras de como as dificuldades sociais são evidenciadas em textos do nosso corpus, como neste trecho de autoria de Rafael (anexo a), que será analisado posteriormente: “Passamos muitas dificuldades, num quarto muito pequeno, com lesmas nas paredes. Quando chovia, pingava em cima da cama. Passávamos fome, muitas vezes percebia que minha mãe não comia para deixar para mim“ (RECRIAR, 2016, p. 190). Arthur (anexo b), cujo trecho de redação transcrevemos abaixo, fala de como a violência atingiu o local onde morava, o Loteamento Campos da Serra, na zona Leste de Caxias do Sul. São relatos que, carregados de experiências ou de informações criadas, demarcam uma forte noção de vulnerabilidade.

Lembro quando eu jogava bola com meus amigos, conversávamos até altas horas na esquina, dando muitas risadas, fazíamos churrasco com os vizinhos ouvindo música, que tempo feliz que ficou para trás, pois o crime carregou aquelas crianças de maldade, fazendo uns ficarem contra os outros, tentando acabar com a própria vida do amigo. Uma onda de violência tomou conta daquele bairro, fazendo as pessoas boas se afastarem daquele lugar. Fico a me perguntar por que aconteceu isso, será que algum dia a política de bons vizinhos retornará? Rezo muito para que a humanidade tome consciência das maldades que o ser humano pratica e que todos possamos viver em paz novamente [...] (RECRIAR, 2016, p. 269).

No decorrer dos anos, debates surgiram para tentar compreender melhor a pobreza e traçar estratégias para enfrentá-la, visando a pensar o futuro do Brasil, explica Telles. Ela acrescenta que foram realizadas diversas pesquisas e que economistas e sociólogos passaram a estudar a distribuição de renda e fornecer informações sobre a “lógica excludente do capitalismo brasileiro” (TELLES, 2013, p. 17). No entanto, deixa claro que pouco disso foi, efetivamente, capaz de construir mecanismos eficientes e de modificar a situação:

[...] espanta que essa pobreza persistente, conhecida, registrada e alvo do discurso político, não tenha sido suficiente para constituir uma opinião pública capaz de mobilizar vontades políticas na defesa de padrões mínimos de vida [...] Sobretudo, espanta que o aumento visível da pobreza no correr dos anos nunca tenha suscitado um debate público sobre a justiça e a igualdade, pondo em foco as iniquidades inscritas na trama social (TELLES, 2013, p. 18-19).

Butler (2004) faz uma leitura da exclusão a partir da ideia da perda. Na obra

Precarious life - the powers of mouring and violence, a autora reúne cinco artigos que

atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, mas vai além: aborda as perdas para estudar a exclusão, conforme mostramos a seguir.

Todos tivemos perdas nas últimas décadas por causa da AIDS, mas há outras perdas que nos afligem, de doenças e de conflitos globais; e também há o fato de que mulheres e minorias, incluindo minorias sexuais, são, como comunidade, sujeitas à violência, expostas à sua possibilidade ou à sua realização. Isso significa que cada um de nós é constituído politicamente em parte pela vulnerabilidade social de nossos corpos – como um lugar de desejo e vulnerabilidade física, como um lugar de uma publicidade ao mesmo tempo assertiva e exposta. A perda e a vulnerabilidade parecem seguir os nossos corpos socialmente constituídos, ligados uns aos outros, em risco de perder esses apegos, expostos a outros, em risco de violência em virtude dessa exposição6 (BUTLER, 2004, p. 20, tradução nossa).

Ao afirmar que “cada um de nós é constituído politicamente em parte pela vulnerabilidade social de nossos corpos”, Butler nos faz pensar que o sujeito se forma com a contribuição do ambiente em que vive. Se trouxermos essa linha de raciocínio aos jovens autores dos textos em análise neste trabalho, teremos mais um subsídio para mostrar a ligação do produto final com as experiências de vida. Em outro trecho da mesma obra, Butler aborda mais um argumento que reforça nossa interpretação:

De certa forma, todos vivemos com essa vulnerabilidade particular, uma vulnerabilidade que é parte da vida corporal [...]. Esta vulnerabilidade, no entanto, torna-se altamente exacerbada em certas condições sociais e políticas, especialmente aquelas em que a violência é um modo de vida e em que os meios para garantir autodefesa são limitados7 (BUTLER, 2004, p. 29, tradução nossa).

Para Butler, o primeiro passo diante de tal realidade é ter consciência dessa vulnerabilidade, que não pode ser deixada de lado e que merece atenção. Afinal, como a própria autora afirma, trata-se de uma vulnerabilidade que integra a formação do sujeito, mas é acentuada diante da falta de políticas públicas de prevenção.

6 Transcrição do original: “We have all lost in recent decades from AIDS, but there are other losses that amict us, from illness and from global conflict; and there is the fact as well that women and minorities, including sexual minorities, are, as a community, subjected to violence, exposed to its possibility, if not its realization. This means that each of us is constituted politically in part by virtue of the social vulnerability of our bodies – as a site of desire and physical vulnerability, as a site of a publicity at once assertive and exposed. Loss and vulnerability seem to follow from our being socially constituted bodies, attached to others, at risk of losing those attachments, exposed to others, at risk of violence by virtue of that exposure”.

7 Transcrição do original: “In a way, we all live with this particular vulnerability, a vulnerability to the other that is part of bodily life[...]. This vulnerability, however, becomes highly exacerbated under certain social and political conditions, especially those in which violence is a way of life and the means to secure selfdefense are limited”.