OS DEFICIENTES NA ESCOLA: REVISÃO BIBLIOGRÁFICA DO DEBATE.
5. A Exclusão e Seus Modos Eficazes de Prosperar
A exclusão social chegou a níveis absurdos principalmente entre crianças que, de acordo com a condição mudam sua denominação, se em condição de pobreza, são ”menores”, quando abandonadas, carentes, se perambulam pelas ruas, infratoras, se nas escolas, deficientes. Ao serem designadas “menores”, perdem sua característica infantil e passam para o imaginário das pessoas como algo a ser repelido que precisa de mecanismos de “proteção”. Se deficientes, precisam de condições especiais em suas escolas para sua inclusão escolar.
Convivemos, infelizmente, com altos e inaceitáveis índices de desigualdades sociais. O longo período de recessão e de instabilidade política, econômica e social, deixou como conseqüência, níveis muitos elevados de desigualdade social e regional, tornando o Brasil um dos países mais perverso em distribuição de renda do continente.
Sabemos que são vários os efeitos da exclusão, nas pessoas que experimentam esta condição, alguns irrecuperáveis. Em termos psicológicos a auto- estima dos excluídos vai se estruturando, calcada em auto-imagens negativas. O sentimento de menos valia que se desenvolve em decorrência disto intensifica comportamentos de apatia, de acomodação ou de reações violentas, talvez, como mecanismos de defesa.
O inconsciente na educação especial tem sido pouco estudado, deixando arestas que somente a pedagogia não tem dado conta de explicar. A leitura redutora da linguagem da fala dos professores e dos alunos por vezes inócua, não consegue analisar o inconsciente. Seus processos densos e desencadeadores não são normalmente acessados pelos professores. Isto porque geralmente eles partem de uma concepção linear de motivação, onde basta que os alunos sejam estimulados de um lado para que eles respondam o outro.
A transmissão pedagógica tradicional se baseia em um modelo da crença de que os professores transmitem e os alunos aprendem. Este modelo tem sofrido criticas da psicanálise.
Segundo Castoriadis (1982 p.189):
Tratar um homem como coisa ou como puro sistema mecânico não é menos, mas mais imaginário do que pretender ver nele uma coruja, isso representa um outro grau de aprofundamento no imaginário; pois não somente o parentesco real do homem com uma coruja é incomparavelmente maior do que é com uma máquina, mas também nenhuma sociedade primitiva jamais aplicou tão radicalmente as conseqüências de suas assimilações dos homens à outra coisa, como o faz a indústria moderna com sua metáfora do homem autômato. As sociedades arcaicas parecem sempre conservar certa duplicidade nessas assimilações; mas a sociedade moderna toma-se, na sua prática, ao pé da letra da maneira mais selvagem.
Vivemos um momento novo na história da humanidade o da sociedade da informação e da globalização. O mundo atual nos impõe uma sociedade global. Um agir e pensar iguais em todos os contextos sociais. Porém, o que vem sendo excluído na sociedade atual? A diferença a singularidade, as exceções, a diversidade. O que impera? A semelhança, o grupo, a padronização. A sociedade contemporânea chegou
a tal ponto que é possível, pela primeira vez na história da humanidade, fazer a recriação da própria cultura.
A concepção contemporânea de Direitos Humanos, introduzidos pela Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), se fundamenta no reconhecimento da dignidade de todas as pessoas e na universalidade e indivisibilidade desses direitos universais, porque a condição de pessoa é requisito único para a titularidade de direitos e indivisibilidades, porque os direitos civis e políticos são conjugados aos direitos econômicos, sociais e culturais. Neste contexto, o valor da diversidade se impõe com condição mais o alcance da universalidade e a indivisibilidade dos Direitos Humanos.
Inicialmente este preconceito, aparece sobre forma mais simples, segundo Crochík (2002), e apresenta apenas como uma atitude cultural, positiva ou negativa dirigida aos membros de um grupo ou categoria social. Gradativamente, no entanto, o pré-conceito com o deficiente vai se encorpado e transformando-se em discriminação em tratamento desigual.
No Brasil, há mais de 5 milhões e 700 mil pessoas com de deficiência excluídos do ensino regular. Em dados oficiais do MEC /SEESP apenas 334.507 alunos com necessidades educativas especiais têm sido atendidos nas redes regulares de ensino, ou seja, apenas 6% da população brasileira com deficiência são atendidas no ensino regular. O que não quer dizer 6% da parcela da população total brasileira, de um total de 334.507 alunos atendidos na rede regular de ensino comum e especial apenas 0,5% são superdotados; 3.9% são deficientes físicos, 4,1% são deficientes visuais; 7,7% apresentam problemas de condutas; 12,9% são deficientes auditivos; 14,2% são deficientes múltiplos e 56,6% são deficientes mentais. (Mrech, 1999).
O que nós excluímos? Os serem em mudança, os seres em constante transformação. A própria educação em mudança. A sociedade em reformulação. O real se introduz por entre frestas das imagens, revelando que nós queremos o sonho à realidade. Preferimos a fantasia à realidade.
Não é ao acaso que nós preferimos os sistemas de crenças, de estereótipos e de preconceitos. Eles mantêm a nossa crença de que as coisas não mudam de que, o real permanece constantemente o mesmo, não se transformando.
Ao que parece, a idéia da educação inclusiva por se centrar na classe dos diversos e não mais no aluno, permitiria uma formação mais humana. Para uma formação efetivamente humana, segundo Crochík (2002, p.45), precisaríamos de uma sociedade sem antagonismos, que não é o caso da atual. Como já dissemos, essa idéia parece pertencer ao ideário liberal, que não deixa de representar interesses universais e, assim, ainda que não permita eliminar a violência existente, pode fortalecer a resistência contra ela.
Temos o direito à igualdade, quando a diferença nos inferioriza e temos o direito à diferença quando a igualdade nos descaracteriza.