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Vivemos hoje numa sociedade na qual cada dia mais a ciência e tecnologia vem se desenvolvendo, criando coisas novas, produzindo conhecimentos e informação. Dessa forma, temos cada vez mais coisas a aprender, e essas vão se incorporando ao que nos é ensinado nos ambientes educacionais, visto que a formação deve estar em permanente atualização para não acabar tornando-se obsoleta, ultrapassada. Diante dessa constante oferta de informações, vemos que a produção e assimilação desses conteúdos não se dá na mesma velocidade. Cada dia se produz mais e mais coisas novas, e é cobrado dos profissionais que estejam em constante atualização da sua formação para acompanhar esse ritmo frenético que lhes é imposto, tendo que estar a todo o momento adquirindo mais e mais informações, mais e mais conhecimento, para estarem no compasso do que é exigido pelo atual mercado de trabalho.

Alguns estudos 31,32 demonstram que o excesso de informação ameaça soterrar cada indivíduo, pois não há tempo ou disposição para assimilar as ideias e refletir sobre as vivências, ficando-se apenas na superficialidade. Isso se deve ao fato de estarmos no

que chamamos hoje de “sociedade da informação” 31, o que implica na necessidade constante de estarmos sempre aprendendo, mas tendo cada vez menos tempo para fazê- lo. Somado a isso, o volume informacional é cada dia maior, e cada vez mais rápido são geradas informações. Tudo está ao alcance das mãos, a um clique de distância. Na era da globalização, a informação chega quase instantaneamente às pessoas. E essa avalanche informacional dificulta, por exemplo, a aprendizagem do aluno, pois o acesso a muitos conteúdos, associado à falta de tempo para processá-los, impede uma assimilação crítica e reflexiva dos mesmos.

Vemos que os espaços formais de ensino ainda são muito "engessados", e apesar das diversas tentativas de mudanças das práticas pedagógicas, o processo de ensino- aprendizagem ainda se dá de forma verticalizada, antiquada, concentrada na figura do professor enquanto detentor do saber, da “experiência”, que deve ser depositada 28 nos alunos. Isso se contrapõe a uma noção trazida por Paulo Freire 33, que diz que "ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para sua própria produção ou construção". O que vemos na organização dos cursos médicos hoje é justamente o contrário: os currículos são organizados baseando-se na valorização excessiva de disciplinas de caráter teórico, existindo poucos espaços que permitam que os estudantes assumam o caráter de protagonistas no seu processo de aprendizagem; os docentes, em geral figuras detentoras de um poder inquestionável, são pouco preocupados com o estímulo ao protagonismo discente, tornando-o um agente passivo nessa relação de ensino; os conteúdos ministrados estão atrelados à valorização do conhecimento acadêmico, dando pouco espaço a outros conhecimentos adquiridos fora do âmbito formal; a carga horária excessiva impede que outras atividades sejam feitas, tornando a academia o espaço central da formação.

Logo, contextualizando os elementos que caracterizam a perspectiva atual da organização dos espaços formais de ensino, demonstrando a dificuldade que a

universidade tem tido em possibilitar ações concretas de aprendizagem, somadas à noção do fluxo constante de informação ao qual estamos submetidos na sociedade atualmente, vemos que o risco de, dentro desse processo de formação, estarmos nos tornando sujeitos possuidores de muitas informações, mas sem saber para quê utilizá- las, é muito grande. E vale lembrar que ter acesso a informações não significa adquirir conhecimento.

Segundo Larrosa34, a experiência é algo que nos passa, que nos acontece, mas que pra isso acontecer nós precisamos nos ex-por. Nos colocar à disposição de vivenciar e experimentar aqueles espaços, permitindo que possamos ser tocados de tal forma pelos acontecimentos que as transformações que ocorrerem durantes os atos vivenciados serão a forma mais potente de aprendizagem, e não apenas algo que tenhamos observado. Diante disso, o autor aponta a pobreza de experiências que caracteriza o nosso mundo atual, afirmando que muitas coisas se passam constantemente, mas que a experiência é cada vez mais rara.

Esse processo da pobreza de experiências se deve a diversos fatores, dentre eles alguns merecem destaque. Em primeiro lugar, o equívoco que se estabeleceu na nossa sociedade de que para se obter conhecimento deve-se ser um sujeito bem informado sobre as mais diversas questões que nos são colocadas cotidianamente, e além disso devemos emitir alguma opinião sobre essas informações. Larrosa34 afirma que:

“Desde pequenos até a universidade, ao largo de toda nossa travessia pelos aparatos educacionais, estamos submetidos a um dispositivo que funciona da seguinte maneira: primeiro é

preciso informar-se e, depois, há de opinar, há que dar uma opinião obviamente própria, crítica e

pessoal sobre o que quer que seja. A opinião seria como a dimensão “significativa” da assim chamada ‘aprendizagem significativa’. A informação seria o objetivo, a opinião seria o subjetivo, ela seria nossa reação subjetiva ao objetivo. Além disso, como reação subjetiva, é uma reação

opinamos. Esse ‘opinar’ se reduz, na maioria das ocasiões, em estar a favor ou contra. Com isso, nos convertemos em sujeitos competentes para responder como Deus manda as perguntas dos

professores que, cada vez mais, se assemelham a comprovações de informações e a pesquisas de

opinião.”

Somado a isso, a falta cada vez maior de tempo reduz a possibilidade de vivenciar experiências que possam contribuir com o aprendizado, e isso é reforçado pela excessiva carga horária ainda existente nos cursos médicos. Apesar de redução da carga horária proposta pela transformação curricular, vemos que na prática ela ainda é excessiva, e dá pouca abertura para a vivência de experiências que se deem fora do âmbito acadêmico. Além disso, os conhecimentos vão se renovando, e cada vez mais vai surgindo necessidade de se dedicar mais tempo para se informar, para assimilar esses conteúdos, para se atualizar. “Esse sujeito da formação permanente e acelerada, da constante atualização, da reciclagem sem fim, é um sujeito que usa o tempo como um valor ou como uma mercadoria, um sujeito que não pode perder tempo, que tem sempre de aproveitar o tempo, que não pode protelar qualquer coisa, que tem de seguir o passo veloz do que se passa, que não pode ficar para trás, por isso mesmo, por essa obsessão por seguir o curso acelerado do tempo, este sujeito já não tem tempo. E na escola o currículo se organiza em pacotes cada vez mais numerosos e cada vez mais curtos. Com isso, também em educação estamos sempre acelerados e nada nos acontece.”34 E nessa lógica, os meios educacionais contribuem cada vez mais para anular a possibilidade de se vivenciar novas experiências.

Considerando a necessidade se criar novas possibilidades de ressignificar o processo educativo, afim de que esse se torne uma prática de alteridade entre sujeitos para renovação do que vem sendo feito hoje dentro da universidade, os estágios de vivência (como exemplo de projeto de extensão universitária popular) são espaços que

permitem uma aprendizagem através da experiência. E essa experiência se dá de forma genuína.

Diferente de outros espaços educativos, no estágio de vivência o estagiário é responsável por sua própria vivência. E para que isso ocorra, é necessário se ex-por. Compartilhar com outros sujeitos sua existência, criar uma abertura que possibilite que o outro lhe alcance, que o outro lhe afete. É necessário se tornar um sujeito passivo, passividade essa que se refere a deixar que a experiência exerça seu componente fundamental, que é a sua capacidade de formação/transformação (e isso exige um sujeito passivo, reflexivo, interpelado, não como alguém que se coloca a parte do processo, mas alguém que se deixa ser afetado por ele). 34

E essa abertura à passagem dos afetos causados pela experiência é capaz de mudar radicalmente a nossa formação. Quando me refiro a essa mudança, falo sobre a questão do despertar. Do conseguir enxergar aquilo que não está visível aos “olhos retina”, mas que só consegue ser captado com a aproximação do olhar, vendo através dos “olhos sensibilidade”. 35

O EIVI em particular possui um potencial de grande relevância quando se pensa na formação médica. Primeiro, por ter um caráter interdisciplinar, o que produz um intercâmbio de diferentes visões de mundo, que quebra um pouco com a ideia reforçada pelo curso de um conhecimento hegemônico, muito compartimentalizado (no sentido de que cada um detém o domínio sobre alguma parte do conhecimento, não devendo “invadir” o espaço do outro).

Quando se trabalha interdisciplinarmente, num processo onde cada indivíduo “fala” de um lugar-comum distinto, carregando uma visão de mundo completamente diferenciada uma da outra, isso promove uma construção de conhecimentos que só é possível em ato, visto que não se resume a um somatório de diversos conhecimentos diferentes para produzir um só, mas a construção coletiva desse conhecimento. Da

mesma forma, o compartilhamento de experiências distintas, frutos de uma mesma vivência, é capaz de proporcionar uma multiplicidade de olhar sobre o mesmo processo vivenciado, criando uma espécie de “caleidoscópio” de experiências (através dos mesmos elementos, a todo instante é possível enxergar novos elementos, novas imagens, novas interpretações).

Depois, por ser um estágio de vivência, como o próprio nome já diz, carrega em si a ideia de que o saber que será fruto desse estágio só se dará através do grau de amplitude e permissibilidade às experimentações, num processo de troca que envolve três sujeitos: os estagiários, os monitores e a comunidade. E vale lembrar que a vivencia proporcionada pelo EIVI difere um pouco da proporcionada por outros estágios, no qual muitas vezes assumimos o papel de observadores. No EIVI, passaremos a viver outro cotidiano, experimentar outra realidade, onde os saberes não serão diferenciados hierarquicamente. A vivência promove uma troca intensa de saberes: entre o saber popular e o erudito, entre o saber do campo e o da cidade e entre os saberes de diferentes gerações, troca essa que deve ocorrer de forma igualitária e respeitosa, em uma linguagem adequada, problematizando a realidade e agindo sobre ela.

Segundo Mehry13, as ações mais estratégicas em saúde ocorrem através de processos de intervenção que acontecem em ato, no qual são operadas tecnologias de relações, sendo esse um processo de subjetivação que transcende os saberes e prática estruturados, que nos é ensinado durante nossa formação. Logo, se formos pensar a partir desse conceito, podemos ver o potencial de mudança que um espaço que permita a todo o momento estabelecer contato, trocas, tem para transformar a formação. Transpondo esse conceito para os acontecimentos além do ambiente formal do trabalho em saúde, podemos considerar que todo espaço é um local de troca, logo, um local de transformação. Então, poder estar em uma comunidade, dialogando com pessoas que muitas vezes chegam para nós nos serviços e são vistas apenas como usuários,

destacadas de todo o contexto social no qual se inserem, faz com que possamos nos aproximar mais da sua realidade, enxergar através do seu espaço (não apenas do nosso), e ampliando nossa compreensão sobre os aspectos relacionados à sua saúde, suas relações e suas necessidades.

E, considerando que esse estágio possibilita ir além, não só vivenciar, experimentar, mas também intervir (não no sentido colonizador da palavra, de tentar modificar algo estabelecido em uma realidade que não é a nossa, uma espécie de invasão cultural 36 (uma tentativa de anular a cultura do outro, tentando incorporar a sua cultura nos outros sujeitos, como uma forma de dominação das elites), temos a chance de nos colocar ombro a ombro com outros sujeitos, nos transformando a cada nova experimentação.

IV. METODOLOGIA

Este estudo foi feito através de uma pesquisa de natureza qualitativa, a partir do relato de experiência da autora, recorrendo-se a uma revisão crítica de referencial teórico, feita através da pesquisa bibliográfica para embasamento do tema, e a utilização do diário de campo, fotografia e vídeo como instrumentos para registro das atividades, permitindo a investigação e o acompanhamento dos elementos implicados no processo de formação médica através da experiência da pesquisadora na participação de um Estágio Interdisciplinar de Vivência e Intervenção em uma área de Reforma Agrária.

IV.1. Instrumentos a) Diário de campo

Durante o período do estágio foram realizadas anotações correspondentes a cada dia, e o registro feito em um diário de campo, no qual foram feitas notas referentes à descrição dos fatos e atividades, observações, dúvidas e reflexões acerca dos acontecimentos ocorridos durante a experiência, registrados ao final de cada dia.

b) Registro audiovisual

Com a utilização de uma câmera fotográfica, realizei o registro das atividades feitas durante o estágio, do local onde foi realizada a vivência e dos períodos mais marcantes ocorridos, através de registros fotográficos e de vídeos.

V. RESULTADOS

V.1. O VIII Estágio Interdisciplinar de Vivência e Intervenção (EIVI-BA)