CAPÍTULO II: A LIBERDADE DO JULGADOR NA SELEÇÃO E VALORAÇÃO
2.2 O livre convencimento judicial
2.2.3 A experiência comum do juiz e a vulnerabilidade do consumidor
Afora a questão da liberdade judicial na valoração das provas para decidir consoante o justo, o magistrado também poderá valer-se da experiência comum, do que de ordinário percebe no dia a dia, circunstância que muitas das vezes irá viabilizar a procedência da ação, quando o postulante é parte vulnerável no feito.
O conceito de vulnerabilidade, previsto no Código de Defesa do Consumidor (art. 4o., inciso I), representa a presunção de que o consumidor seja a parte mais fraca da relação de consumo, presunção que precisa ser sentida pelo magistrado quando se defronta com o caso concreto.
Tal vulnerabilidade, compreende três modalidades, a técnica, a fática e a jurídica. Em poucas palavras, na primeira, o comprador não possui conhecimentos específicos sobre as qualidades e utilidades técnicas daquilo que está adquirindo, por ser leigo no assunto. A vulnerabilidade fática é a desproporção de forças,
intelectuais ou econômicas entre os participantes da relação de consumo e, finalmente a jurídica significa falta de possibilidades de o consumidor recorrer a um especialista50.
O desequilíbrio ou desproporção de forças entre os litigantes deve ser perceptível ao magistrado, o qual deverá atuar no sentido de minimizar esta falta de eqüidade inter partes no processo.
Pode-se citar como exemplo, a hipótese em que o consumidor pede pela inexigibilidade de débitos que lhe são assacados por companhia telefônica, ao argumento de que eles são indevidos porque pedira a rescisão contratual com antecedência.
50 MARQUES, Cláudia Lima et all. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor. São Paulo:
Pois bem, nesse caso, a decisão judicial pode arrimar-se na experiência comum do julgador, que sabe que o sistema de atendimento de tais empresas, engendrado pelo famigerado “call Center” além de ser falho não permite qualquer registro formalizado de eventuais reclamações formuladas pelos consumidores51.
Também pode ser aplicada à experiência pessoal o caso de furto a consumidor praticado em estabelecimento comercial, como supermercados. Em casos como este, os estabelecimentos não permitem qualquer registro, pois não querem engendrar prova contra si mesmos. Daí porque, muitas das vezes, o juízo aceita como única prova o boletim de ocorrência e a sua própria convicção de que o postulante está falando a verdade, convicção esta normalmente sentida através do depoimento pessoal da parte colhido em audiência.
Observe-se, que a utilização de tal preceito deve ser feita com muitas reservas e apenas quando houver dificuldade em colher elementos de prova e
51 EMENTA: RECURSO INOMINADO. DIREITO DO CONSUMIDOR. TELECOMUNICAÇÕES.
QUALIDADE DO SERVIÇO. DANO MORAL BEM CONFIGURADO. RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO. Voto: Aduz a autora em sua queixa que a fornecedora recorrida lhe cobrou ligações telefônicas realizadas no período em que a linha se encontrava bloqueada, fato que já ocorrerá no passado, pedindo danos morais. O juízo monocrático reconheceu apenas os danos materiais, negado a violação ao patrimônio imaterial da consumidora recorrente.Nas razões do recurso a consumidora alega que teve vários inconvenientes para tentar regularizar administrativamente a indevida cobrança: "quem já passou pela experiência de ter sido cobrado por ligações telefônicas não efetuadas bem sabe quanto constrangedor e humilhante é sua tarefa de se ver livre da cobrança ilegal. Filas imensas, tratamento grosseiro, perda de grande parte do seu tempo para não pagar o que não deve. E, na maioria das vezes, sem qualquer sucesso. Ou, mesmo quando obtido o êxito, tudo se repete no mês seguinte, tal qual ocorreu no caso sub judice. Por duas vezes, a empresa recorrida cobrou o custo de ligações telefônicas de um terminal que sequer estava instalado."Em face de tais argumentos a consumidora pede a reparação moral. [...] O Magistrado é um Agente Político do Estado e como tal tem a Missão de promover o Bem Comum, para não frustrar fundamentos constitucionais, dentre os quais a cidadania, a dignidade da pessoa humana, artigos 1º, incisos II e III e 3º, inciso IV, da CF/88. Não é em vão que na estrutura legal dos Juizados Especiais, também chamado de Justiça Cidadã, o Magistrado pode valorar as provas e fundamentar seu convencimento com base na Experiência Comum, art. 5º, da Lei nº 9.099/95. O fato envolvendo a consumidora ocorreu em momento crítico. Suas assertivas são verossímeis, impondo-se a inversão do ônus da prova. A fornecedora do serviço não se desincumbiu do ônus de demonstrar que o atendimento da usuária se deu de modo adequado, atendendo a padrões mínimos de qualidade, principalmente quanto aos critérios de gentileza e rapidez, o que reduziria o fato alegado na inicial ao simples deslocamento da usuária, um mero aborrecimento do cotidiano, de modo a não ensejar a reparação moral. Não há que se exigir da usuária que traga para depor pessoas que com ela sofreram as amarguras por ela vivenciadas. Deveria e poderia a fornecedora demonstrar os padrões de satisfação de seus clientes. A violação de comezinho direito do consumidor é fato que extrapola o mero aborrecimento do cotidiano. De modo a ensejar a reparação moral. Dano configurado. (JEC da Casa Amarela, Estado de Penambuco. Proc. 204/2000, Rel. Luiz Mário de Góes Moutinho).
desde que seja patente a vulnerabilidade do consumidor no processo, alertando-se que, por exigência constitucional (art.93, inciso IX da C.F. de 1988), todas as decisões judiciais devem ser motivadas.
Cabe ressalvar que, em um quadro como o acima aventado, poderia ser deferida pelo juiz a inversão do ônus da prova. A inversão do onus probandi, ocorre quando, a critério do juiz, for verossímil a alegação ou hipossuficiente a parte52.
Na hipótese, é certo que as dificuldades materiais do consumidor para a realização da prova e a presunção de que o fornecedor de serviço se encontra em melhores condições para provar os fatos ligados à sua atividade, justificariam a concessão do benefício.
Mas, deve-se atentar que a inversão não se dá de forma automática, dependendo a sua concessão do convencimento do juiz, bem como que a declaração de inversão deve ser feita durante a instrução processual a fim de não violar o direito de ampla defesa da parte ex adversa.