4. A EXPERIÊNCIA DA GUATEMALA
4.4. A EXPERIÊNCIA DE CHISEC
Em Chisec são 158 comunidades e existem 158 COCODES de primeiro nível ativos. São 13 microrregiões no município, e existem 13 COCODES de segundo nível.
Nesse momento, o que mais se demanda em Chisec são construção de estradas e escolas, ou ampliação de escolas, e acesso à água potável nas comunidades onde não há fonte de água.
A análise da experiência permite apontar alguns problemas no sistema: • É o CODEDE que contrata as construtoras, empreiteiras e que sabem
os custos do projeto. A informação sobre o orçamento e os custos do projeto nunca chega nas comunidades.
• A comissão de auditoria social em Chisec é muito lenta. As autoridades não dão espaço. Quase não conseguimos dialogar com eles
Nas comunidades de Samay, em Chisec, normalmente os COCODES se reúnem duas vezes por mês, mas às vezes são necessárias reuniões extraordinárias devidos a problemas específicos, e chegam a acontecer 3 ou 4 reuniões mensais. São 14 comunidades que se reúnem no COCODE de segundo nível em Samay. E os representantes neste conselho são eleitos em suas comunidades.
Como a decisão é tomada pelo congresso, depois é necessário fazer o o caminho inverso. É o COMUDE que informa às 13 microrregiões do município de CHISEC sobre que projetos foram aprovados e vão ser implementados. Não são todos os projetos que são aprovados e o município não tem poder de decisão sobre isso.
Pedro Ché informa que em Chisec hoje as principais demandas que vêm das comunidades das 13 microrregiões são a construção de estradas, escolas e acesso à água potável.
Segundo Pedro, existem dois grandes problemas com o Sistema de Conselhos de Desenvolvimento. Primeiro, o a separação entre projeto e
orçamento. O que as comunidades e os Conselhos de nível comunitário e municipal discutem são demandas e projetos, não o orçamento. Segundo, o nível de centralização. A decisão não está no nível municipal, mas centralizado no nível nacional.
Isso além de tirar o poder de decisão dos níveis mais locais, também dificulta o processo de controle social e mecanismos como as auditorias sociais. Além disso, como quem toma a decisão está muito distante das comunidades onde as políticas serão implementadas, as prioridades escolhidas podem não ser a prioridades reais de cada comunidade no município.
Pedro Che também relata que em Chisec a Comissão de Auditoria Social, que é formada por líderes comunitários, é muito lenta e que as autoridades não aceitam que se questione sobre o andamento dos projetos. “Quando conseguimos avançar com algum processo de auditoria social, como a pesquisa sobre o programa ‘Mi Familia Pregresa’ que está em curso agora, envolvemos as pessoas das comunidades, mas quase não conseguimos envolver as autoridades locais. Eles não nos dão espaço.”
Outro ponto fundamental destacado por Pedro, é a distância entre o previsto em lei e a implementação das leis na prática: “Nós avançamos na lei, com a constituição, o código municipal e a lei dos conselhos de desenvolvimento... aí nós avançamos. A lei diz uma coisa, mas na hora de atuar na prática, encontramos muitos obstáculos no caminho. Quem são os obstáculos? As autoridades que não querem que se faça uma auditoria como se deve.”
Hoje a Comissão de Auditoria Social de Chisec tem 12 membros e está realizando a terceira auditoria desde que a trilogia de leis foi aprovada em 2002.
A primeira auditoria aconteceu logo depois que as comunidades de Chisec tomaram conhecimento sobre as leis, apenas em 2007. Foi a auditoria social da saúde no município. O foco era a qualidade do atendimento dado aos pacientes atendidos nos centros de saúde. Um dos principais resultados dessa auditoria foi evidenciar a diferença no atendimento dado aos pacientes brancos ou aos pacientes mestiços ou indígenas. O tratamento dado aos mestiços e indígenas era muito pior, alguns pacientes simplesmente eram ignorados. E essa diferença
no atendimento à população indígena foi identificada também em outros serviços e instituições públicas como no judiciário e no ministério público.
Para a auditoria social da saúde foram feitas entrevistas com moradores de Chisec da cidade, camponeses, moradores da área rural, trabalhadores do serviço de saúde e do ministério público. Ao final, o resultado foi apresentado em uma assembleia, para a qual se convocou as autoridades do município e do departamento, o prefeito, o governador, juízes, e membros de organizações da sociedade civil. Mas a maior parte das autoridades não compareceu. Mas um resultado muito positivo do processo foi a abertura que o prefeito da época deu para outras auditorias serem realizadas, abrindo mais espaço para a atuação da Comissão no município.
A outra auditoria social realizada em Chisec foi sobre educação. A lei guatemalteca garante educação infantil gratuita, e nisso se baseou a auditoria. O problema encontrado pela Comissão nesta auditoria, no entanto, foi o próprio acesso à informação:
“Nos custou muito para que nos dessem as informações. Perguntavam o queríamos com aquilo, por que estávamos fazendo aquilo se tinha escolas la nas comunidades, o que mais queríamos além disso... E encontramos problemas nos gastos das escolas. Em teoria, os professores das escolas deveriam estar envolvidos nos gastos e compras feitas pelas escolas, mas na pratica isso não acontecia, o que gerou problemas na forma como os gastos foram feitos. Não havia nenhum tipo de controle ou supervisão. Depois da auditoria, surgiu a idéia de organizar um Conselho Educativo onde os pais das crianças fazem as compras da repartição escolar e supervisionam os gastos. Com isso, a qualidade do serviço de educação no município de Chisec já melhorou muito.” (PEDRO CHÉ YAXCAL)