CAPÍTULO II: A ESCOLA EM NOSSAS MÃOS A EXPERIÊNCIA DAS
3.1. As origens
3.1.1. A experiência política dos e das secundas
A discussão da experiência política dos e das secundaristas que ocuparam as escolas no ano de 2015 é interessante, pois a diferença do caso chileno, não existiram outras ondas de mobilização no mesmo ciclo de protesto no qual tivessem desenvolvido o mesmo repertório. Como observamos no caso de Santiago, a experiência do ano de 2011 está conectada diretamente com a onda do ano 2006 denominada a Revolta dos Pinguins, inclusive alguns reconheceram uma experiência anterior identificada com o Mochilazo do ano 2001, assim existiu a possibilidade de um traspasso geracional dos aprendizados políticos entre os e as secundaristas chilenas, mas no caso paulista foi a primeira vez que as ocupações das escolas apareceram para disputar um conflito político. Deste modo resulta interessante perguntarmos pela experiência dos e das suas ocupantes, pois da mesma forma que no caso chileno, esse é um elemento que vai nos ajudar a compreender o tipo de organização do movimento esse ano.
Um primeiro elemento a resgatar é a relação existente com as jornadas de junho de 2013, pois vários alunos e alunas identificaram nesse conflito o começo da militância política. Um exemplo disso foi a Isabelle:
Ali em 2013 eu comecei a militar, no começo do ano, vai, começo a fazer umas atividades e outras, a participar do grêmio, tal, em junho acontecem os atos contra o aumento da tarifa, eu me aproximo das pessoas do MPL, que tinham já uma relação bastante próxima com a ETESP, né? E aí eu, no ano seguinte, entro no Movimento Passe Livre. (ISABELLE)
Ao mesmo fato, outra ex secundarista se referiu da forma a seguir:
[...] então, porque, assim, eu não era muito ligada, nessa época de 2013, mas a gente se organizava contra o aumento da passagem, né, que foi na época [das Jornadas de Junho] que R$ 2,80 a passagem, aí eles queriam aumentar pra R$ 3,00 [...] a gente participou e a gente pedia também o passe livre estudantil, que é o que dá direito ao estudante ir e vir na cidade, onde ele quiser. (NICOLE)
Um dos alunos que reconheceu como um fato importante as jornadas de junho foi Gustavo, ex secundarista que disse:
Então, no período de 2015, a gente estava se formando politicamente, né? Porque a gente estava terminando o ensino médio. Eu, no caso, já estava no terceiro ano do ensino médio, então já estava praticamente formado na escola. Então, assim, a gente tinha uma noção política um pouco maior do que o restante dos alunos, só que a gente não tinha nenhuma experiência política aprofundada. Acho que o maior exemplo de experiência política que a gente teve aqui no país, de grande movimentação, foram as manifestações de 2013, que foram incitadas primeiro pelo aumento das passagens aqui em São Paulo, né? (GUSTAVO)
Também outro dos fatos que foi lembrado por alguns secundaristas foi a greve dos professores em São Paulo no começo de 2015.
[...] quando a gente estava nessa de, “ah, estamos sem organização nenhuma, o que a gente faz agora?”, a gente começou a fazer uma coisa, foi o seguinte: no começo de 2015 teve uma greve dos professores, uma greve estadual dos professores, da APEOESP, onde várias mobilizações de alunos aconteceram em apoio à greve dos professores e [...] onde várias mobilizações dos alunos aconteceram em apoio à greve dos professores. E aí, naquele momento, o que a gente começou a fazer? A gente começou a ir em algumas escolas, no começo de 2015 isso, panfletamos, a gente tentou conversar com alguns alunos, né?. (ISABELLE)
Na mesma linha que a Isabelle outro secundarista disse que:
Porque, assim, no começo de 2015, teve uma greve de professores que durou 90 dias, greve dos professores da rede estadual, e eles foram derrotados e tal, mas durou 90 dias, foi, pô, 3 meses, tal, e teve uma participação surpreendente dos alunos, por isso que também que a gente viu que 2015 era um ano que ia ser diferente a luta dos alunos, assim. Porque uma coisa que nunca tinha acontecido: aluno organizar manifestação em apoio à greve dos professores, era uma coisa que não era comum, a gente nunca tinha visto, assim. (FELIPE)
Assim, uma primeira evidência que podemos resgatar em relação à experiência política dos e das estudantes secundaristas é que a participação como apoiadores de outros movimentos foi fundamental, ou seja, a participação nas jornadas de junho de 2013 ou na greve da APEOESP de começo de 2015 foram os fatos onde alguns deles se mobilizaram pela primeira vez.
Mas em relação à experiência individual em participação política é importante dizer que existia uma diversidade ampla, ou seja, enquanto houve estudantes que já tinham participado em diversas organizações políticas, ao mesmo tempo, as mobilizações contra a reorganização escolar era a primeira vez que se envolviam em discussões políticas.
A maioria dos e das estudantes que foram entrevistados reconheceu que não possuía militância ou experiência participando em organizações políticas. Exemplo disso foi o dito pela Fran:
Antes de 2015, de toda ocupação, a minha ativação como militante não existia, absolutamente não existia. Eu nunca fui ativa antes da experiência com a ocupação. Eu sempre era… eu questionava muito algumas coisas, mas era muito aquele ativismo de televisão, sabe? Eu ficava indignada, assistia pela televisão, também pelas redes sociais, mas não era nada muito ativo, até porque eu era muito nova, né? Antes da ocupação, eu tinha 17, 16 anos. A gente está formando uma opinião mais crítica nesse momento. Então, antes, não existia. A ocupação foi literalmente minha primeira experiência como militante. (FRAN)
E no mesmo sentido o depoimento da Eduarda, quem disse que:
Antes de começar os protestos contra a reorganização escolar, eu não tinha contato nenhum com política, nem com protestos, nem com nada. Não tinha nem noção, não sabia nem o que era ser um “secundarista”, não tinha nenhuma noção disso. Então eu ia para a escola, trabalhava, uma vida, assim, típica. Depois, quando veio a ideia da reorganização escolar, começou um movimento na escola de protestos na Câmara dos Vereadores, que teve até uma mini ocupação. E foi aí que eu comecei a ver aquela movimentação, comecei a me interessar e a querer saber o por que daquilo, o por que daquele protesto. Foi quando eu fiquei mais próxima da Fernanda, da Boani, do Cauê, porque eles tinham mais participação nisso, eles iam para a rua, eles protestavam, fizeram abaixo-assinado. E foi quando eu entrei, foi na época do abaixo-assinado para não ter reorganização na nossa escola, para não tirarem o noturno da nossa escola. (EDUARDA)
Porém, o Gustavo quando foi perguntado pela experiência política ele fez uma diferenciação entre experiência e interesse pela política, pois reconheceu que não possuía experiência, mas sim um interesse:
Então, no período de 2015, a gente estava se formando politicamente, né? Porque a gente estava terminando o ensino médio. Eu, no caso, já estava no terceiro ano do ensino médio, então já estava praticamente formado na
escola. Então, assim, a gente tinha uma noção política um pouco maior do que o restante dos alunos, só que a gente não tinha nenhuma experiência política aprofundada. (GUSTAVO)
Dessa forma, ele se reconheceu como um estudante com uma noção política maior à de outros colegas, mas sem experiência política.
Mas, como já revisamos anteriormente outro caso, a Isabelle tinha participado em política desde o ano 2013 quando se envolveu com o MPL:
Ali em 2013 eu comecei a militar, no começo do ano, vai, começo a fazer umas atividades e outras, a participar do grêmio, tal, em junho acontecem os atos contra o aumento da tarifa, eu me aproximo das pessoas do MPL, que tinham já uma relação bastante próxima com a ETESP, né? E aí eu, no ano seguinte, entro no Movimento Passe Livre. Então é meio essa trajetória.
(ISABELLE)
Junto com a Isabelle, outro estudante que também reconheceu uma experiência política importante, mas ligada diretamente ao movimento secundarista foi Felipe:
[...] eu e uns amigos, antes disso, a gente estava, no começo do ano de 2015, tentando organizar algum tipo de organização estudantil de secundarista, pequena, a gente juntou dez pessoas, assim, e aí chamou de GAS, que era Grupo Autônomo dos Secundaristas, e, enfim, eram dez pessoas e o que a gente queria era levar a experiência de luta de uma escola para outra, assim [...] Então aí o GAS meio foi nisso, “ah, vamos passar nas escolas que tiveram esse apoio aos professores e perguntar como é que foi, tentar criar contato”. Enfim, não sabia muito o que fazer, era um monte de moleque, tipo, a gente tinha 15 anos, assim, falamos, “sei lá, vamos tentar a sorte aí, vamo ver o que dá e tal”. (FELIPE)
Assim, dos depoimentos da Isabelle e do Felipe resulta importante resgatar que a experiência política deles não se encontrava ligada diretamente ao movimento estudantil tradicional, se não que eram experiências autônomas como foi o MPL ou coletivos de estudantes, porém sem trajetória, como era o GAS. Daqui resulta colocar a questão das organizações secundaristas ou as estruturas de mobilização que vamos revisar no ponto a seguir depois de terminar a análise em relação a experiência política.
Uma primeira evidência que podemos sintetizar é que os e as estudantes que se envolveram no movimento secundarista desse ano possuíam uma experiência política diversa, igual como foi no caso de Santiago, questão que vai ter uma relação direta com as formas de organização dentro da ocupação. Além disso, também podemos mencionar que dois fatos que marcaram diretamente o movimento secundarista de São Paulo foram as jornadas de junho de 2013 e a greve dos professores do começo do ano 2015.
No entanto, outro fato muito importante que vários mencionaram e que influenciou a decisão de ocupar as escolas foi o movimento secundarista do Chile:
[...] começou a crescer muito e aí a ideia de ocupar veio muito por causa do Chile e da Argentina, porque a gente assistiu aquele documentário A revolta dos pinguins, a gente assistiu – a gente já tinha assistido antes, assim, uma galera que era mais, sei lá, mais militante, assim, não sei –, já tinha visto, tal, e pegou uma cartilha da Argentina, que chama “Como ocupar uma escola”, que os argentinos fizeram em 2013, e aí um conhecido lá traduziu para o português e é a coisa bem básica, tipo coisa de comissão, fazer a comissão da limpeza. Era mais para divulgar a ideia do que o próprio… sabe, era uma cartilha até que a gente nem sabe se as pessoas liam inteira, era meio longo e tal. Mas era mais para esse negócio, tipo: ocupar, ocupar, ocupar. (FELIPE) Então para a gente foi fundamental os nossos dois camaradas terem ido para o Chile em 2012, entrarem em contato com essa experiência, depois descobriram esse documento dos estudantes argentinos, que a gente traduziu, né? (ISABELLE)
Destes dois últimos depoimentos resgatamos a experiência das tomas de los
liceos do Chile que foi utilizada pelos secundaristas, mesmo que indireta, pois da luta
desse movimento eles e elas tiraram a ideia de ocupar as escolas.
Em relação a isso, o documento “Como ocupar um colégio?” publicado pelo coletivo O Mal Educado esse ano diz:
A luta dos estudantes não começou agora, e está longe de terminar. Em 2006 e 2011, o Chile viveu a “Revolta dos Pinguins”, um movimento imenso de estudantes secundaristas que exigia uma educação pública gratuita e de qualidade. Durante meses, as escolas do país inteiro foram ocupadas pelos alunos – que entravam, tomavam o prédio, montavam acampamentos, e ali ficavam dia e noite como forma de protesto, até as reivindicações serem atendidas. (CAMPOS; MEDEIROS; RIBEIRO, 2016 [aspas dos autores])
Produto do anterior emerge mais uma vez a necessidade de discutir a existência das organizações secundaristas ou as estruturas de mobilização do movimento, pois eram algumas das e dos militantes dessas estruturas quem possuíam os contatos com os secundaristas do Chile e foram as organizações que colocaram na palestra a estratégia de ocupar a escola.