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Capítulo 1 O Centro Nacional de Referência Cultural e a sua inserção nos anos 1970

1. A cultura crítica

1.1 A explosão artística na "Era dos Festivais"

No terreno musical, os anos 1960 e 1970 foram bastante frutíferos, os festivais foram os grandes acontecimentos do período. Durante a "Era dos festivais" muitos artistas ganharam espaço no país, e mais precisamente na MPB, dentre os quais podemos destacar Elis Regina, Edu Lobo, Milton Nascimento, além dos já citados anteriormente. De 1965 até 1972 se concentraram os maiores festivais e que tiveram maior repercussão.

O Festival Nacional de Música Popular Brasileira, promovido pela TV Excelsior de São Paulo em 1965 foi o primeiro deles, tendo como vencedora a canção "Arrastão" de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, interpretada por Elis Regina. Com a notoriedade adquirida nesse festival, Elis Regina se lançaria como grande nome da MPB, ganhando vários prêmios e um contrato com a TV Record, onde passou a apresentar, junto com Jair Rodrigues, o programa semanal “O fino da bossa”. Em sua segunda edição, em 1966, a grande campeã foi “Porta-estandarte” de Geraldo Vandré e Fernando Lona, interpretada por Airto Moreira e Tuca.

Também em São Paulo se deu outro conhecido festival de ainda maior ressonância. Promovido pela TV Record, o Festival da Música Popular Brasileira, teve quatro edições. Logo na primeira delas, em 1966, ocorreu empate entre as canções “A banda”, composta por Chico Buarque e cantada por Nara Leão, e “Disparada”, de Téo de Barros e Geraldo Vandré, executada por Jair Rodrigues. A segunda edição, de 1967 é uma das mais rememoradas. Nesta ocasião a vencedora foi “Ponteio”, com letra de Edu Lobo e Capinan, interpretada pelo primeiro em companhia de Marília Medalha. Nas outras três posições estavam, respectivamente, “Domingo no parque” de Gilberto Gil, interpretada por Gil e Os Mutantes, “Roda viva”, letra de Chico Buarque e interpretada pelo autor junto do MPB-4, e “Alegria, alegria” de Caetano Veloso, interpretada pelo compositor e pelo grupo argentino Beat Boys. O prêmio do Júri especial de 1968 foi

34 para “São São Paulo meu amor”, de Tom Zé, cantada pelo autor, Canto 4 e Os Brasões. Já o do Júri Popular foi para “Benvinda” de Chico Buarque, cantada por ele mesmo em conjunto com MPB-4. Em 1969 ganhou “Sinal Fechado”, escrita e interpretada por Paulinho da Viola.

O Festival Internacional da Canção, cuja versão nacional aconteceu no Maracanãzinho, Rio de Janeiro, teve ao todo sete edições durante os anos de 1966-1972, inicialmente promovidas pela TV-Rio e posteriormente pela TV Globo. “Sabiá” (Chico Buarque e Tom Jobim), “Fio Maravilha” (Jorge Benjor), foram algumas das músicas premiadas em suas edições. “Travessia” (Milton Nascimento e Fernando Brant) alcançou a segunda posição no II FIC. Na terceira edição do festival, em 1968, ocorreram fatos dos mais memoráveis. A canção de Caetano Veloso, “É proibido proibir” foi amplamente vaiada pelo público, fazendo o artista se exaltar: “(...)Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada. (...)Nós, eu e ele [Gilberto Gil], tivemos coragem de entrar em todas as estruturas e sair de todas. E vocês? Se vocês forem… se vocês, em política, forem como são em estética, estamos feitos! (...)”.39 Acabou desclassificada. Na primeira posição ficou “Sabiá”, de Tom Jobim e Chico Buarque, que também foi vaiada pelo público, que torcia por “Caminhando (Para não dizer que não falei das flores)”, que terminou na segunda posição.40

Em artigo recente, ao falar sobre o clima cultural do anos 1960 Roberto Schwarz faz a seguinte ponderação, bastante pertinente ao episódio que gerou a revolta de Caetano Veloso:

“O desacato à convenção artística dava a tônica febril ao período. Era um insulto deliberado ao gosto dos conservadores, que tinham saído às ruas em 64, marchando por ‘Deus, pátria e família’, e agora estavam no poder. Como as artes cênicas – o teatro, o cinema e a canção – estavam defasadas em relação à literatura, ou melhor, não tinham passado pela revolução modernista de 22, o escândalo que provocavam tinha a estridência das vanguardas em seu primeiro dia. Atrás da experimentação formal naturalmente estava o ânimo de revolucionar a sociedade ela mesma, como aliás apontavam os adversários de direita”.41

39 Discurso na íntegra de Caetano Veloso em "É proibido proibir" no III FIC

(http://tropicalia.com.br/identifisignificados/e-proibido-proibir/discurso-de-caetano Acessado em 30/04/2014).

40 Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Verbete "Festivais de Música Popular"

(http://www.dicionariompb.com.br/festivais-de-musica-popular Acessado em 30/04/2014)

41

SCHWARZ, Roberto. A lata de lixo da história: prefácio inédito a uma chanchada de 1968. Piauí, v. 91, p. 68-69, abril 2014.

35 É interessante entender que mesmo entre os setores mais progressistas havia dúvida quanto à proposta tropicalista. Nesse caso, o espanto estava relacionado ao uso das guitarras elétricas, que para muitos representavam a adoção de um instrumento que não condizia com a nossa cultura. Sobre o assunto Caetano completa “vocês têm coragem de aplaudir, este ano, uma música, um tipo de música que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado! São a mesma juventude que vão sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem!”.

Fora a revolução estético-musical proposta pelo Tropicalismo de fins dos anos 1960, a Bossa Nova era o que havia de mais requintado na Música popular brasileira desde os anos 1950, apesar de também ter sido acusada pelos críticos como uma versão brasileira do jazz. Nesse domínio, também houve grande explosão no pós-1964.

Inspirado no arbítrio e tendo como meio de propagação os festivais, o que podemos considerar como um novo “subgênero” se formou. As chamadas músicas de protesto faziam oposições sutis e inteligentes aos governos que daí se seguiram e ganhavam o público dos festivais. Nomes importantes como Chico Buarque de Hollanda e Geraldo Vandré ganharam dimensão neste contexto e, assim, tornaram-se os artistas mais populares neste território. Por consequência, possuíam grande parte de suas composições censuradas pelo regime, assim como Caetano Veloso e Gilberto Gil. Músicas como “Sabiá”, “Roda Viva”, “É proibido proibir”, que ganharam consonância nos festivais, são consideradas importantes canções de oposição à ditadura. “Para não dizer que não falei das flores” é uma das mais importantes, tendo sido considerada hino de resistência em 1968, período marcado por inúmeros protestos no Brasil e no mundo.