3 CONFLITOS TRABALHISTAS
4.1 A EXPRESSÃO “COMUM ACORDO”
Na concepção de Nascimento, “ao dispor que o dissídio coletivo econômico deve ser movido pelas partes ‘de comum acordo’, a EC n. 45 criou um problema processual que merece uma atenção maior”. (NASCIMENTO, 2012, p. 929).
O art. 114, § 2º da Constituição Federal, passou a adotar a seguinte redação: Art. 114. Compete à Justiça do Trabalho processar e julgar:
[...]
§ 2º Recusando-se qualquer das partes à negociação coletiva ou à arbitragem, é facultado às mesmas, de comum acordo, ajuizar dissídio coletivo de natureza econômica, podendo a Justiça do Trabalho decidir o conflito, respeitadas as disposições mínimas legais de proteção ao trabalho, bem como as convencionadas anteriormente. (BRASIL, 1988, grifo nosso).
Na visão de Garcia, o ajuizamento de comum acordo pelas partes no dissídio coletivo de natureza econômica foi a maior inovação decorrente da Emenda Constitucional. (GARCIA, 2013).
Num primeiro momento, entende Schiavi, causa estranheza a redação do § 2º do art. 114, pois o dissídio pressupõe lide, ou seja, um conflito de interesses qualificado por uma pretensão resistida. Assim, como pode haver comum acordo para ajuizar dissídio coletivo, se este pressupõe conflito entre as partes? (SCHIAVI, 2013).
No entendimento de Tonial, a concordância das partes é um requisito de difícil obtenção, pois se estas não conseguiram realizar um acordo ao longo do processo de
negociação, provavelmente não entrarão em consenso para ajuizar o dissídio coletivo. (TONIAL, 2009).
Para Teixeira Filho, “ao dispor que as partes poderão ajuizar dissídio coletivo de natureza econômica ‘de comum acordo’, o texto constitucional nos coloca diante de, quando menos, três situações algo surrealistas e de uma inconstitucionalidade”. (TEIXEIRA FILHO, 2009, p. 2982).
A respeito, explica o autor, que a expressão “comum acordo” traduz pleonasmo vicioso1, pois “não se conhece acordo (comunhão de vontades) que não seja ‘comum’ [...]”. Sustenta ainda, que o dissídio coletivo se trata de um conflito de interesses estabelecido entre as categorias econômicas e profissionais, “por isso, o dissídio sempre antecede ao ingresso em juízo, sendo equivocado supor que surja em juí o”. Finaliza o autor que o aspecto mais surrealista que a norma constitucional trouxe, reside no fato de condicionar o dissidio coletivo ao acordo entre as partes, tendo em vista ser presumível que na prática isso dificilmente ocorrerá. (TEIXEIRA FILHO, 2009, p. 2982).
Na concepção de Martins, o comum acordo também é uma expressão pleonástica2, pois, se firmado há o ajuste comum entre as partes. Caso contrário, não haveria, já que não existe acordo de apenas uma pessoa. (MARTINS, 2012).
Nascimento afirma que para ser fiel ao histórico da questão do comum acordo, pode concluir-se que essa exigência surgiu para hipótese de decisão e solução arbitral perante os Tribunais do Trabalho:
Nesse caso, o entendimento seria harmônico com a previsão constitucional da arbitragem prevista no art. 114 da Constituição Federal uma vez que a arbitragem facultativa pressupõe o mútuo consentimento das partes. Teria todo o sentido a arbitragem por proposta comum das partes. Mas não tem nenhum sentido o processo judicial do dissídio coletivo, como tal, ajuizável somente quando as duas partes desejarem o processo, figura inexistente no direito processual contencioso. (NASCIMENTO, 2012, p. 938).
Sobre a questão histórica, afirma Martins:
A interpretação histórica pode ajudar no entendimento do que vem a ser comum acordo. Ela mostra que na Câmara dos Deputados o debate foi no sentido de reduzir drasticamente o exercício do poder normativo da Justiça do Trabalho, daí a utilização da expressão comum acordo. O objetivo era forçar as partes a negociar. A Justiça do Trabalho funcionaria como espécie de juízo arbitral. (MARTINS, 2012, p. 707, grifo do autor).
1 O pleonasmo vicioso de linguagem é a repetição supérflua da palavra ou da ideia contida nela, são vícios de
linguagem.
Corroborando o exposto por Martins, Barros aponta em sua análise a transcrição das discussões suscitadas no curso da votação da Emenda Constitucional pelo Deputado Ricardo Bersoini, do Partido dos Trabalhadores:
Quero sustentar que uma das teses mais caras do Partido dos Trabalhadores é a luta contra o poder normativo da Justiça do Trabalho. Acreditamos que a negociação coletiva se constrói pela vontade das partes. Ou seja, se não tivermos no processo de negociação a garantia da exaustão dos argumentos, da busca do conflito e da sua negociação, vai acontecer o que vemos em muitos movimentos hoje, particularmente em São Paulo, como o recente caso dos metroviários em que a empresa recorre ao poder normativo antes de esgotada a capacidade de negociação. Portanto, na nossa avaliação, manter o comum acordo é uma forma de garantir que haja exaustão do processo de negociação coletiva. (BARROS, 2013, p. 1009).
Ainda, a autora destaca o pronunciamento do Deputado Mendes Ribeiro do PMDB:
[...] O que se quer é que a Justiça do Trabalho fique com a participação, com o poder normativo quando as partes se julgarem incapazes de encaminhar o diálogo. É um avanço. Agora, se retirarmos o de comum acordo, teremos exatamente o poder normativo da Justiça do Trabalho, contra o qual tantas e tantas lideranças se manifestaram. (BARROS, 2013, p. 1009).
Assim, na visão de Barros, a leitura dos trechos acima mencionados não deixa dúvidas quanto a intenção do legislador em restringir o Poder Normativo. Sendo assim, entende a autora que o ajuizamento do dissídio coletivo depende da comunhão dos interesses das partes e, uma vez ausente esse pressuposto, a possibilidade de negociação ficará aberta podendo a categoria profissional utilizar-se da greve como meio de alcançar algum tipo de ajuste. (BARROS, 2013).
Quanto à dificuldade de consenso sobre a questão do comum acordo, Nascimento explica:
As teses defendidas tanto na jurisprudência como na doutrina divergem nas conclusões e nos fundamentos, nestes desde a impossibilidade de supressão de direito consagrado em cláusula pétrea de constituinte original – o direito de ação -, a inafastabilidade da jurisdição porque está assegurada no plano constitucional, a explicitude da lei, que não ofereceria margens para interpretação contrária à exigência do impulso bilateral para o ajuizamento do dissídio coletivo, a possibilidade do suprimento judicial da falta do consentimento nos casos de abuso de direito e a extinção do poder normativo da Justiça do Trabalho, fundamentos que, como se vê, levam a posicionamentos diferentes sobre tão complexa questão. (NASCIMENTO, 2012, p. 930).
Analisa Teixeira Filho que a expressão comum acordo é um aspecto surrealista da norma constitucional, já que é razoável presumir que na prática, dificilmente as partes entrarão em acordo, dificultando assim a submissão dos dissídios coletivos de natureza econômica à apreciação dos Tribunais do Trabalho. (TEIXEIRA FILHO, 2009).
Ademais, segundo o autor, se as partes em sede de celebração de acordo ou convenções coletivas não entraram em consenso, dificilmente se avençarão para fins de ajuizar o dissídio coletivo. Portanto, no entendimento do autor que essa não foi a melhor forma de estimular às partes à negociação ou resolução consensual do conflito coletivo trabalhista. (TEIXEIRA FILHO, 2009).
Na visão de Ripper, o requisito do mútuo consentimento não representa uma forma de incentivo à negociação coletiva:
Muitos entenderam tratar-se de uma medida incentivadora à negociação coletiva. De certa forma é um contra sensu, pois as partes, quando esgotadas todas as fases das negociações coletivas, dificilmente vão se compor para atribuir a demanda ao Judiciário. Entendemos tratar-se, na verdade, de uma medida que mais incentiva à greve do que impulsiona a negociação coletiva, muito embora essa relação seja inevitável, uma vez que a greve é instrumento dos empregados na negociação coletiva. (RIPPER, 2005, p. 3).
Para Antônio Álvares da Silva, citado por Almeida, a exigência do comum acordo para ajuizar o dissídio coletivo é o lado altamente positivo da reforma. Isto porque, considerando que não era a vontade do legislador a extinção do Poder Normativo, pelo menos foi utilizado do bom senso para limitá-lo. (ALMEIDA, 2008).
Assim, com a necessidade do comum acordo nenhum sindicato poderá ajuizar unilateralmente o dissídio e submeter a outra parte a sentença normativa. Portanto, segundo o autor, o legislador agiu corretamente, pois, em se tratando de conflitos coletivos trabalhistas deve ser mínima a intervenção do Estado, já que o desejo é a resolução do conflito por meio da autocomposição. (ALMEIDA, 2008).
Cabe destacar ainda as palavras de Nascimento, ao afirmar que a exigência do mútuo consentimento pode trazer outra consequência indesejada: o incentivo à litigiosidade contida, vez que estará sendo afetado o próprio direito de propor o dissídio coletivo, caso se conclua pela propositura com a autorização do suscitado. (NASCIMENTO, 2012).
No que se refere a litigiosidade contida, Nascimento destaca o entendimento de Cândido Rangel Dinamarco e Kazuo Watanabe:
Como demonstram Cândido Rangel Dinamarco e Kazuo Watanabe, a litigiosidade contida é perigoso fator de infelicidade pessoal e desagregação social, e, por isso, constitui missão e dever do Estado a eliminação desses estados de insatisfação. O escopo de pacificar as pessoas mediante a eliminação de conflitos com justiça é, em última análise, a razão mais profunda pela qual o processo existe e se legitima na sociedade (Cândido Dinamarco). (NASCIMENTO, 2012, p. 934).
A pleonástica expressão comum acordo, contida no §2º do art. 114 da CF, traz divergência doutrinária sobre o seu enquadramento jurídico-processual. Para alguns é
pressuposto processual, enquanto outros sustentam ser uma condição da ação. Por fim, ainda existe a corrente que sustenta haver inconstitucionalidade na exigência imposta pela EC n. 45/2004. (LEITE, 2012).
Dessa forma, diante das variadas interpretações levantadas a respeito da expressão comum acordo, nos tópicos seguintes serão analisadas os argumentos utilizados pela doutrina e jurisprudência acerca do seu enquadramento.