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2.3 Construção da identidade social por meio do consumo

2.3.3 A expressão de identidade pelos vegetarianos

Segundo Heisley (1992) e Levy (1981citados por KLEINE; HUBBERT, 1993), padrões de consumo alimentar estão associados a um significado simbólico que refletem os padrões sociais de um indivíduo. Para os autores, o vegetarianismo, por exemplo, parece ser mais do que apenas aprender a cozinhar e comer de forma diferente para quem não está familiarizado com o seu sistema de consumo.

Germov e Williams (1999) afirmam que as pessoas podem procurar se diferenciar dos outros, ou, alternativamente, transmitir o seu pertencimento a um determinado grupo social por meio do consumo de alimentos. Pedir uma refeição vegetariana, comer uma torta de carne, jantar em um elegante café, ou comer em uma cozinha exótica podem ser utilizados e interpretados como “marcadores” sociais de status social do indivíduo e como membro de um grupo. Os autores ainda afirmam que as interações sociais desempenham um

grande papel no comportamento de escolha de alimentos e esses fatores precisam ser levados em conta quando se tenta mudar de dieta.

Com o objetivo de investigar casos de aquisição do sistema de consumo vegetariano por pessoas que cresceram dentro de uma cultura com predomínio de onívoros e rodeados de pessoas que comem carne (os entrevistados desta pesquisa foram criados em famílias onívoras e, portanto, originalmente não eram familiarizados com o vegetarianismo), Kleine e Hubbert (1993) fizeram entrevistas em profundidade com vegetarianos que adquiriram esse hábito de consumo durante a vida, buscando entender esse processo de transição e como eles lidavam com isso no contexto social.

Os entrevistados desta pesquisa, até mesmo os mais experientes, expressaram certo desconforto com o rótulo de vegetariano. Apesar de concordarem que comiam como um vegetariano, eles não gostavam de serem estereotipados e não queriam ser conhecidos como tal. Algumas pessoas até eram criticadas pelo hábito de consumo: entre os participantes, uma mulher foi criticada, durante a gravidez, por manter a dieta vegetariana; outro participante foi chamado de “marica” pelos amigos.

Ao mesmo tempo, o papel das outras pessoas no cotidiano dos vegetarianos (família, amigos, e outras interações interpessoais), também, serviu como importante sistema de apoio social para a manutenção do compromisso com a dieta sem carne. Pais não-vegetarianos, irmãs, irmãos ou amigos teriam preparado refeições ou fixados alimentos especiais para acomodar os vegetarianos. Os hóspedes, respeitosamente, foram submetidos a refeições vegetarianas servidas na casa do entrevistado. Amigos que consumiam carne concordaram em ir a restaurantes onde os vegetarianos podiam comer alguma coisa. Aqueles que adotaram o vegetarianismo consistentemente relataram apoio fundamental daqueles que respeitaram o compromisso do vegetariano.

Alguns vegetarianos mostraram preocupações em gerenciar a impressão em situações profissionais (por exemplo, jantares de negócios). Discrição em revelar as preferências alimentares foi a abordagem típica e os participantes citaram estratégias realistas de lidar com isso. Alguns até comeram carne para evitar o constrangimento social. Todos os participantes manifestaram o desejo de evitar os seus hábitos alimentares para não terem problemas com outras pessoas. Cada um expressou o desejo de não tornar seus hábitos alimentares uma barreira para os relacionamentos pessoais ou profissionais. Contudo, quando vão jantar em público, os vegetarianos desenvolvem estratégias para se prevenirem de situações desconfortáveis, tais como: ligar antes para os restaurantes, pedir ao garçom um prato vegetariano, comer antes de sair, ou comer somente alimentos alternativos (salada, batatas assadas, batatas fritas, etc.).

De forma geral, os entrevistados minimizavam a visibilidade das suas próprias práticas alimentares, independente de ser um vegetariano novato ou experiente. Eles pretendiam evitar ser estereotipados ou mal compreendidos. Segundo os autores, dominar as situações sociais para os vegetarianos foi tão importante quanto preparar uma refeição sem carne. Além disso, o autor afirma que a adoção do sistema de consumo vegetariano (comer como um vegetariano) nem sempre é isomórfico com a adoção de identidade (ser um vegetariano).

Com isso, surge uma questão que pode ser respondida dentro do escopo desta dissertação: até que ponto os vegetarianos querem ser vistos como tal ou adotam a dieta somente como forma de bem estar pessoal?

Segundo Kleine e Hubbert (1993), embora a adoção de uma dieta sem carne possa implicar uma eventual mudança no self estendido (BELK, 1988), o processo pode ser diferente das transições tradicionalmente estudadas nessa teoria, pois isso está muito ligado à aprendizagem do consumidor e nos recursos disponíveis no mercado utilizados para fazer a mudança. Há muitas maneiras de ter uma dieta sem carne, cada entrevistado desenvolveu sua versão própria de

fazer o padrão de consumo. Os autores concluem o pensamento afirmando que pode ser que o mercado torne isso possível, ou seja, se houver mais recursos disponíveis no mercado para vegetarianos, pode ser identificado um self estendido mais consolidado.

Fazendo um paralelo com o uma-coisa-leva-a-outra, característica do consumo baseado no efeito Diderot (MCCRACKEN, 2003), os autores ainda afirmam que a adoção de padrões de consumo vegetariano, também, pode acompanhar mudanças em outros sistemas de consumo (por exemplo, vestuário e aparência).

Em conclusão, os Kleine e Hubbert (1993) afirmam que tornar-se vegetariano é inseparável de produtos que devem ser evitados ou consumidos, mas assumem que esse padrão de consumo compreende muito mais do que mudanças de comportamento do comprador. É claramente um processo socialmente integrado, ainda que surja de acordo com a própria maneira de cada pessoa de fazer as coisas.

Contudo, estudos sobre a influência do consumo na construção da identidade social dos vegetarianos ainda são escassos, justificando a importância desta pesquisa.