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A expressão mimético-musical de uma vida blues

2 GENEALOGIA DA CONTESTAÇÃO LIGADA AO ROCK E AOS SEUS

2.2 A expressão mimético-musical de uma vida blues

Entre os estilos musicais que mais contribuíram na caracterização do rock and roll e, consequentemente para o rock metal, está o blues, primeiramente em sua forma rural e posteriormente por meio da sua versão urbana denominada rhythm and blues.

O blues rural foi descrito por Friedlander (2003) da seguinte maneira: “Homens negros desempregados, carregando seus velhos violões, cruzavam o Sul durante os piores dias da Depressão, cantando sobre a vida difícil e dolorosa que levavam.” (FRIEDLANDER, 2003, p. 32).

Interessante notar que segundo o idioma inglês a palavra “Blue” pode significar a cor azul como também pode semanticamente denotar o sentimento de tristeza, de melancolia.

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Sendo assim, a palavra “blues” definiu com fidelidade a lamuriosa música produzida pelos negros norte-americanos, que expressavam musicalmente as duras condições de existência às quais eram submetidos.

Segundo Lukács (1982), a música enquanto expressão artística passa por um processo de dupla refiguração. É por meio da interação do homem com o mundo externo que se constituem as suas impressões, ou seja, é no mundo objetivo que se desencadeiam os sentimentos interiores do indivíduo. Esses sentimentos constituem-se em uma primeira mediação ou, no caso, refiguração. Portanto, as músicas seriam as representações miméticas desta refiguração. Assim, evidencia-se o processo de refiguração da refiguração, processo este que o pensador denominou de dupla mímesis: a expressão ou refiguração na música de sentimentos que adentraram a subjetividade artística a partir de um processo refigurativo já iniciado.

Toda experiência vivida pelos indivíduos na realidade empírica passa pela mediação da ideia. Essas ideias tomam formas de impressões, sentimentos e emoções, e estas, por sua vez, constituem também a interioridade humana condicionada pelos processos sociais. Os elementos constituintes da subjetividade humana servem como materiais à expressão artística e, no caso aqui específico, à expressão musical. Portanto, os sentimentos e emoções de angústia, de lamentação e de tristeza diante dos problemas sociais vigentes na realidade empírica serviram de materiais à disposição para a composição do blues.

De acordo com Friedlander (2003), o blues rural era geralmente composto por 12 compassos de três acordes, repetição do primeiro verso antes da introdução do terceiro verso (1º verso – 1º verso – 2º verso) e suas letras abordavam as temáticas das dificuldades, dos conflitos e, por vezes, entoavam a celebração.

Já a versão urbana do blues, o rhythm and blues, emergiu após a 2º Grande Guerra Mundial. Com o deslocamento de grande número de indivíduos negros dos campos do Sul para os centros industriais do Norte - durante o colapso econômico de 1929, como consequência da Grande Depressão - em busca de melhores condições de sobrevivência, juntamente com o contingente, também de negros, que se concentrou nas grandes cidades do Norte dos Estados Unidos após retornarem do “front” em 1945, constitui-se o locus favorável ao surgimento de outro estilo de blues. Já as bases emocionais para a constituição de tal estilo foi, segundo Friedlander: “As novidades e a alienação da existência urbana, a ausência do lar rural e da família.” (FRIEDLANDER, 2003, p. 32).

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É importante ressaltar que, diferentemente da sua forma rural, a versão urbana do blues fez uso de instrumentos elétricos, como a guitarra14; todavia, manteve a utilização da “blue note”.15 Sublinha-se neste ponto, também, o importante papel do músico Muddy Waters16 enquanto um dos expoentes do blues urbano, que muito influenciou o estilo musical que estaria por nascer: o rock and roll.

Outro elemento constituinte do blues urbano e que serviu de base para emoldurar o rock and roll foi o estilo vocal dos cantores calcados em altas doses de intensidade emocional. Aliás, intensidade é um elemento definidor do rock e, consequentemente, do “metal”. Seja através do canto ou por meio dos timbres instrumentais, potência e intensidade entrelaçam-se e evidenciam-se nas composições.

Outra vertente musical afro-americana que serviu de base para a constituição do rock and roll foi a música spiritual. Dotado de um estilo harmônico e complexo de canto, também calcado no teor emotivo, o spiritual ou gospel song, como também é chamado, influenciou esteticamente os primeiros cantores de rock e, posteriormente, os novos cantores roqueiros. No entanto, o rock não se constituiu tão somente de influências musicais afro- americanas.

Como exposto anteriormente, estilos musicais “brancos” dos Estados Unidos, como o country e o folk ajudaram a formatar o novo estilo musical. A respeito da folk music, Friedlander expõe:

A música folk sempre foi uma parte importante da tradição musical americana, e as canções de protesto – histórias pessoais ligadas aos eventos políticos e sociais correntes – são parte essenciais de sua herança. Defensores da Guerra de Secessão cantavam canções em homenagem a seu heróis; democratas jeffersonianos desferiam ataques aos federalistas com a música Jefferson and Liberty; abolicionistas atacavam a escravidão e ambos os lados – União e Confederados – em suas canções tristes falando de um país dividido por uma guerra civil. (FRIEDLANDER, 2003, p. 193- 194).

14 Em língua inglesa tanto o violão quanto a guitarra elétrica são denominados pelo substantivo guitar,

diferenciando-se, apenas, pelo acréscimo dos adjetivos acoustic (para o violão) e eletric (para a guitarra).

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De acordo com Joachim E. Berendt a blue note resulta da “confrontação de dois sistemas acústicos, o pentatônico (escala de cinco notas apenas), que os negros trouxeram da África e o tonal (temperado) de origem europeia (de sete notas). Muito rapidamente, porém, os negros assimilaram o sistema tonal, sendo que apenas duas notas da escala que conhecemos permaneciam, para eles, ainda com uma entoação dúbia: a terceira e a sétima nota da escala tonal. Essas notas (mi e si), não existiam no sistema pentatônico (dó, ré, fá, sol e lá)” (BERENDT, 1975, p. 125).

16 Segundo Paul Friedlander: “O falecido Muddy Waters (nascido McKinley Morganfield), um apanhador de

algodão e cantor de blues rural do Mississippi, formou uma importante banda de blues em Chicago no final dos anos 40. Bateria, baixo, uma guitarra rítmica e um piano formavam a seção rítmica básica, ou o ‘núcleo’ da banda. Uma guitarra base e harmônica era acrescentadas como instrumentos solo. Essa formação básica tornou-se modelo para as bandas de rock moderno e, mais tarde, para os roqueiros clássicos que adaptaram este formato de conjunto (ou grupo).” (FRIEDLANDER, 2003, p. 33).

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Foi em meio a esse contexto de efervescência e associações musicais que durante a década de 1950 surgiu a figura de Elvis Presley fazendo um som que mais tarde seria denominado de rockabilly e que, nada mais é do que a fusão do country com o blues e o rhythm and blues. Assim sendo, foi outorgada justamente ao futuro “Rei do Rock”, Elvis Presley, a façanha de ter sido o primeiro músico a gravar uma canção roqueira em 1954 intitulada “That’s All Right Mama” pela gravadora Sun Records.