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Capítulo 3 – Regimes Aplicáveis ao Correio Electrónico e Relevância da Actuação dos

3.2 A Expressão “qualquer outra correspondência” no Artigo 179.º do CPP – sua

A eficiência da prossecução penal e processual penal deriva, em larga medida, da correcta e específica redacção dos seus Códigos, não omitindo referências imprescindíveis à boa interpretação da lei. A redacção do artigo 179.º do CPP, além de abrir margem a amplas interpretações, congrega alguns elementos que poderão estar, em certa medida, em contradição com outras disposições legais. Referimo-nos, em tais termos, à bivalência legal que existe, para o correio electrónico, entre o instituto das escutas e o da apreensão de correspondência151. No entanto, parece óbvio que o legislador baralhou de tal forma a sua redacção, ao ponto de incluir uma chamada a todo o tipo de correspondência no artigo da apreensão de correspondência, mas também de se referir às comunicações guardadas em suporte digital no artigo das escutas. É certo que o jus non scriptum revela-se a favor da superação de determinadas brechas existentes na lei escrita. No entanto, nem sempre é linear encontrar uma solução dentro de tão nebuloso cenário legal.

Considerando a letra do artigo 179.º do CPP152, e quando se levanta a interrogação relativamente à natureza jurídica de um e-mail, já não restam dúvidas em defini-lo como um tipo de correspondência decorrente de uma comunicação electrónica. Isto porque, à partida, correspondência será toda a mensagem reduzida a um instrumento de comunicação, na forma escrita.

151 Exemplo de um factor não concordante de ambos, é, por exemplo, o catálogo de crimes que permite cada

uma das medidas. Aqui, apesar deste comentário, estamos conscientes da diferente natureza que o correio electrónico pode apresentar para que se lhe aplique um ou outro regime.

152 Nos termos do qual, “1. Sob pena de nulidade, o juiz pode autorizar ou ordenar, por despacho, a

apreensão, mesmo nas estações de correios e de telecomunicações, de cartas, encomendas, valores, telegramas ou qualquer outra correspondência, quando tiver fundadas razões para crer que:

a) A correspondência foi expedida pelo suspeito ou lhe é dirigida, mesmo que sob nome diverso ou através de pessoa diversa;

b) Está em causa crime punível com pena de prisão superior, no seu máximo, a 3 anos; e

c) A diligência se revelará de grande interesse para a descoberta da verdade ou para a prova.

2. É proibida, sob pena de nulidade, a apreensão e qualquer outra forma de controlo da correspondência entre o arguido e o seu defensor, salvo se o juiz tiver fundadas razões para crer que aquela constitui objecto ou elemento de um crime.

3. O juiz que tiver autorizado ou ordenado a diligência é a primeira pessoa a tomar conhecimento do conteúdo da correspondência apreendida. Se a considerar relevante para a prova, fá-la juntar ao processo; caso contrário, restitui-a a quem de direito, não podendo ela ser utilizada como meio de prova, e fica ligado por dever de segredo relativamente àquilo de que tiver tomado conhecimento e não tiver interesse para a prova.”

Recolha de Prova Digital – Correio Electrónico e Processo Penal

42 Assim, torna-se de certa forma inócua, no contexto deste artigo, a discussão sobre uma eventual intercepção de correio electrónico. O que está aqui em causa, no espírito do legislador, é regular o acesso à correspondência electrónica que se encontra impressa em formato de papel. Isto se, obviamente, a expressão “qualquer outra correspondência” abranger tal forma de comunicação, como infra se analisará. No entanto, embora que de forma menos óbvia, parece também levantar-se a hipótese de este artigo abranger a apreensão de mensagens de correio electrónico recebidas mas não impressas153. Até porque, como veremos, a apreensão de correio electrónico terá mais potencial probatório (ou de utilidade processual), quando a recolha for feita de um suporte digital – tendo em conta que, regra geral, poucas são as probabilidades de se encontrarem e-mails impressos com valia criminal.

Relativamente à expressão mote deste apontamento, importa, antes de mais, retornar à definição base. Assim, segundo o dicionário da língua portuguesa, correspondência significa “acto de corresponder; troca de cartas, telegramas, etc.; o conjunto de cartas, telegramas, etc., que se recebam; relação mútua; simetria; carta a um jornal; comunicação entre países, localidades ou pessoas”154. Ora, importa também verificar se a definição de correio – por completar o conceito de e-mail – se subsume à de correspondência. Do mesmo dicionário extraímos que correio é o “serviço de transporte e distribuição de correspondência; pessoa que transporta ou distribui a correspondência; estação postal; correspondência; indivíduo expedido com um despacho, notícia, recado, etc.; anunciador; precursor; pessoa linguaruda, indiscreta”155.

É então possível afirmar que correspondência e correio podem ser uma e a mesma coisa. No entanto, ainda não abandonámos a dimensão física dos escritos. Nota-se, claramente, que o tipo de prova ínsito na letra do artigo 179.º do CPP se enquadra nos artigos 164.º156 e seguintes do mesmo Código – da prova documental.

153

Adiante neste trabalho analisaremos as diversas hipóteses ou formas em que se poderá encontrar o correio electrónico já enviado.

154 Dicionário “O Português Essencial”, Selecções do Reader’s Digest, Porto Editora. 155 Idem, ibidem.

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Este artigo consagra que “é admissível prova por documento, entendendo-se por tal a declaração, sinal ou notação corporizada em escrito ou qualquer outro meio técnico, nos termos da lei penal”. O CP, por sua vez, define documento no seu artigo 255.º, alínea a), como sendo “a declaração corporizada em escrito , ou registada em disco, fita gravada ou qualquer outro meio técnico, inteligível para a generalidade das pessoas ou para um certo círculo de pessoas, que, permitindo reconhecer o eminente, é idónea para provar facto juridicamente relevante, quer tal destino lhe seja dado no momento da sua emissão quer posteriormente; e bem assim o sinal materialmente feito, dado ou posto numa coisa para provar facto juridicamente relevante e que permite reconhecer à generalidade das pessoas ou a um certo círculo de pessoas o seu destino e a prova que dele resulta”.

Recolha de Prova Digital – Correio Electrónico e Processo Penal

43 Neste sentido, ainda que seja algo envergonhado, por parte do legislador, regular por analogia os procedimentos a ter em conta quando se trata de correio electrónico impresso, compreendemos, agora, que se lhe aplique o regime da apreensão de documentos – e não o da correspondência tradicional, como o referido artigo parece indicar. Senão veja-se: no decurso de uma busca domiciliária, ordenada ou autorizada no âmbito de uma qualquer investigação, o OPC depara-se com alguns e-mails impressos na secretária do suspeito, cujo teor é (ou poderá ser) de potencial interesse probatório se juntos ao processo. Neste caso, com que suporte legal poderá actuar a polícia senão com base na apreensão de documentos, visto se tratarem de “meras folhas impressas” e não “fechadas”? Aqui, a identificação dos e-mails como um simples documento afigura-se, de facto, como a melhor das alternativas.

Resta saber se, no decurso da mesma busca domiciliária, se apresentar diante do OPC um computador em funcionamento e com uma janela de correspondência electrónica (vulgo caixa de correio electrónico) aberta, com e-mails à vista de igual valor deíctico e penal, é de aplicar ainda o regime da apreensão de documentos. Questão a ser aludida infra naquela que se considera ser sistematicamente a sede própria.