Capitulo 2 – A extensão no governo Lula e as ITCPs
2.1. A extensão no governo Lula
A extensão durante esse período (2003 - 2010) volta a receber atenção do governo federal que passa a ser novamente o ator central. A articulação docente segue sendo importante nas IES, via Forproex, mas é através da retomada do Programa de Extensão Universitária45 (Proext) que a extensão ganha dimensão de política pública em âmbito nacional. Nesse momento, o financiamento para a extensão tem como diferencial, em relação ao governo militar, o enraizamento das atividades no entorno das IES e a descentralização das escolhas que envolvem a concepção e execução das atividades extensionistas. Como resultado dessas características, há uma diversificação dos temas dos projetos. Contudo, a descentralização é acompanhada por uma forte ligação entre os editais de financiamento da extensão e políticas públicas específicas de diversos ministérios e órgãos públicos. Por isso, é possível afirmar que a extensão torna-se uma via para articular Estado e sociedade, através da mediação das IES. A seguir, iremos aprofundar a
caracterização da extensão no governo Lula a partir, principalmente, da apresentação do Proext, mas também pelas ações realizadas pelo Forproex nesse período.
O Proext, como já foi apresentado anteriormente, surge em 1998 com uma curta duração e encerramento controverso justificado por falta de recursos pelo governo FHC e escolha ideológica pelos defensores da extensão. O programa será reativado apenas em 2003, no início do governo Lula. Em 2007, o governo federal lança o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) que inclui o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) e, a partir desse momento, há uma priorização do Proext e um significativo aumento do volume de recursos e projeto e programas apoiados.
Diniz (2012) faz um levantamento detalhado dos editais do Proext e dos documentos oficiais relacionados a ele, dividindo-os em dois períodos: de 2004 a 2007 e de 2008 a 2010. Essa divisão evidencia o ponto de inflexão que houve no programa a partir de 2008 que, segundo o autor, também pode ser notado pela instituição do programa por meio do decreto n° 6.495, de 30 de junho de 2008.
Outra importante mudança na evolução do programa, notada pelo autor, é a articulação com os diferentes ministérios e órgãos públicos. A partir de 2009, passaram a ser realizados editais conjuntos entre MEC, Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), Ministério da Cultura (MinC) e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Em 2010, o rol de parceiros se amplia com a entrada do Ministério da Saúde, Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), Ministério das Cidades (MCidades), Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome (MDS) e a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SEPM)46.
46 Atualmente, segundo CGRE/DIFES/SESu/MEC (2012) os parceiros do Proext já se ampliaram significativamente. São eles: MCT, MSaúde, Secretaria de Direitos Humanos (SDH), Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), Ministério da Integração (MI), Ministério da Comunicação (MC), Ministério da Justiça (MJ), Ministério dos Esportes (ME), entre outros.
Segundo Lucas Maciel, coordenador da Coordenação Geral de relações estudantis (CGRE)47, há uma relação entre a ampliação de parcerias no Proext e o aumento de recursos. O autor afirma que
os avanços que estão em curso na proposta do governo para a extensão, sobretudo o Programa de Extensão Universitária – PROEXT, podem ser divididos em dois grandes grupos: os de caráter econômico e os de ordem política. Enquanto o primeiro pode ser resumido como a ampliação exponencial dos recursos investidos na área, o segundo fica explicitado com a maior articulação de órgãos governamentais com a extensão (MACIEL, 2010, p. 18).
A tabela a seguir mostra a evolução dos recursos do Proext
Tabela 2.1 – Evolução dos recursos do Proext
Ano Propostas aprovadas
Recursos totais (milhões de R$)
Média de recurso por proposta (mil R$) 2003 89 4,5 50,6 2004 156 6,0 38,5 2005 178 6,0 33,7 2006 132 4,5 34,1 2007 179 6,0 33,5 2008 122 6,0 49,2 2009 414 19,2 46,4 2010 550 35,0 63,6 2011 709 70,0 98,7 TOTAL 2.529 156,7 62,0 Fonte: CGRE/DIFES/SESu/MEC (2012)
É significativo o aumento de recursos para o programa a partir de 2009 e bastante evidente a observação feita por Maciel (2010) da relação entre a articulação política e ampliação dos
47 A CGRE está dentro da SESu/MEC e tem três linhas de ação: assistência estudantil, articulação com políticas públicas e promoção da função social da universidade e promoção da inovação acadêmica e da modernização da graduação. Dentro da primeira linha, a CGRE tem 5 ações, das quais uma dela é o Proext. Os outros são: Programa Josué de Castro, Plano Nacional de Extensão (ambos aguardando autorização para publicação – mudança do GM), Procampo (programa educação no campo) e Prolind (programa licenciaturas indígenas), esses dois últimos em transição para a CGRE.
recursos, uma vez que a partir de 2009 são lançados os editais conjuntos como mostramos anteriormente. Merece destaque também o número de 709 projetos em 2011. Ainda que uma mesma IES possa ter diversos projetos aprovados, é um número relevante48. Sobre a terceira coluna da tabela, sabemos que o limite de recurso para as duas modalidades existentes é distinto (projeto e programa)49. Ainda assim, a evolução da média de recursos por proposta é significativo. Ela pode indicar propostas, de maneira geral, de maior valor, ou maior número de programas aprovados em relação ao número de projeto. De qualquer maneira, esta coluna indica que houve aumento do número de propostas com aumento de recursos por proposta e não o contrário.
Sobre o objeto desta pesquisa, as incubadoras, observa-se que é no segundo edital, em 2005, que a geração de trabalho e renda em economia solidária é incluída como sub-tema da temática 'políticas de direitos humanos e desenvolvimento social' (eram três temáticas) e que em 2006 se torna uma das 12 linhas temáticas contempladas pelo edital. Em 2007 são 6 temáticas e a geração de trabalho e renda em economia solidária é uma delas. Em 2009 há uma nova redução nas temáticas contempladas (de 6 para 4 apenas) e a geração de trabalho e renda ganha foco no processo de incubação com o nome de 'Trabalho, Emprego e Incubação de Empreendimentos Econômicos Solidários'. Em 2010, há um aumento para 10 temáticas (acompanhando a diversidade de parceiros no âmbito do Proext) e a geração de trabalho e renda se mantém, agora mais diretamente ligada às incubadoras, e é denominada de 'Geração de Trabalho e Renda por meio da Incubação de Empreendimentos Econômicos Solidários'.
Em 2006 a linha temática de geração de trabalho e renda soma 17% da totalidade de projetos e programas apoiados (Revista do Proext, 2007). No Proext 2009, na linha temática 4 (Trabalho, Emprego e Incubação de Empreendimentos Econômicos Solidários), foram 67 projetos/programas apoiados e em 2010, 60. Em cada ano foram aportados cerca de R$ 4 milhões, equivalendo a 22% em 2009 e 11% em 2010.
48 Segundo o último Censo da Educação Superior, de 2010, o país tem 2.378 IES, sendo 278 (11,7%) públicas e 2.100 (88,3) privadas (INEP/MEC, 2012).
49 No Proext 2011, as modalidades são projetos e programas e o limite de recursos, respectivamente, é de 50 mil e 150 mil reais.
Para além do Proext, esse período da extensão também é marcado pela atuação do Forproex, seja nas articulações realizadas, seja nas publicações, sistematizando os avanços da extensão, seja na relação colaborativa que volta a ter com o governo federal. Podemos dizer que o Forproex influenciou significativamente as políticas públicas relacionadas à extensão no período. Além do conceito do fórum ter sido amplamente adotado, essa influência pode ser sentida na adoção do Sistema Nacional de Informações de Extensão (SIEX/Brasil) na atual plataforma utilizada pelo MEC tanto para o cadastro das propostas do Proext quanto para sistematização dos programas e projetos apoiados, o SigProj (DINIZ, 2012).
Em relação às publicações, nesse período segue a Coleção Extensão Universitária publicada pelo fórum com seis números e que sistematiza os avanços da ação do Forproex iniciada em 2001. O primeiro volume, intitulado 'Plano Nacional de Extensão Universitária', bem como o segundo 'Sistema de Dados e Informações da Extensão Universitária nas Pró-Reitorias de Extensão' e o terceiro 'Avaliação Nacional da Extensão', são de 2001. Após um período sem publicação, em 2006 são publicados o quarto volume 'Indissociabilidade ensino-pesquisa-extensão e a flexibilização curricular: uma visão da extensão' e o quinto volume 'Institucionalização da Extensão nas Universidades Públicas Brasileiras: estudo comparativo 1993/2004'. Por fim, em 2007 é publicado o sexto e último volume, 'Extensão Universitária: organização e sistematização' que é uma sistematização dos outros números.
Dessa coleção, merece destaque a aproximação do Fórum com as contribuições do Fórum de Pró- Reitores de Graduação das Universidades Brasileiras (FORGRAD), explicitada no quarto volume da coleção. Segundo Diniz (2012), o documento traz uma
sistematização de propostas para a flexibilização curricular, onde se enfatiza a necessidade de um novo paradigma curricular fundamentado na indissociabilidade ensino-pesquisa-extensão e voltado para a construção do conhecimento. Neste sentido, o reconhecimento da extensão numa estrutura curricular pautada na interdisciplinaridade e sua vinculação aos projetos político-pedagógicos dos cursos apresentam-se como possíveis alternativas para a construção desse novo paradigma curricular (DINIZ, 2012, p. 65).
Outro destaque é que, na sistematização feita pelo autor, fica evidente a atenção dada pelo Forproex para a definição das áreas temáticas, por meio da uniformização terminológica, com objetivo de facilitar a sistematização e a avaliação das atividades extensionistas e também com o intuito “de estabelecer uma interface da extensão universitária em relação à implementação das políticas públicas” (DINIZ, 2012, p. 68 ). A necessidade dessa uniformização também pode ser entendida pela diversificação ocorrida nesse período das atividades de extensão. As áreas temáticas definidas foram: comunicação, cultura, direitos humanos, educação, meio ambiente, saúde, tecnologia e trabalho. Os sub-temas seriam as linhas programáticas que passaram a ser chamadas de linhas de extensão no último volume da coleção. Nesse documento também, são apresentadas as 53 linhas de extensão. Dentre elas, o único que se aproxima diretamente ao tema da geração de trabalho e renda é a denominada 'Emprego e renda'50. Essa denominação causa estranheza e talvez aponte uma desconexão entre o Forproex e a articulação existente entre universidade e economia solidária, pelo uso do termo emprego ao invés de trabalho, ideia na qual está inserida a noção de trabalho autogestionário ou associado como alternativa ao trabalho assalariado. Essa desconexão também pode ser sentida no relatório do grupo de trabalho do Forproex sobre o sistema de dados e informações sobre extensão (FORPROEX, 1999), no qual é apresentada uma proposta de sistematização das áreas temáticas e das linhas programáticas. Nesse documento há uma área temática sobre trabalho (de oito áreas no total) e das 53 linhas programáticas, apenas uma se relaciona diretamente com o tema 'Organizações Populares: Apoio à formação e desenvolvimento de comitês, associações, organizações sociais, cooperativas populares e sindicatos, dentre outros'. Por outro lado, há uma linha temática para as empresas juniores e outra para as incubadoras de empresas.
Merece destaque também o empenho do fórum em avançar no tema da avaliação da extensão, que resultou nas publicações anteriormente citadas, além do estudo comparativo (quinto volume da coleção) e da realização das edições do Encontro Nacional de Avaliação da Extensão Universitária, iniciado em 2000. Podemos, afirmar, portanto que mesmo sob condições adversas
50 Há outras linhas que podem ser relacionadas com o tema como gestão do trabalho e Saúde e proteção no trabalho, mas não são diretamente relacionadas.
durante o governo FHC, o Forproex se mantém ativo durante aquele governo e que, com o Governo Lula suas ações são potencializadas.
Do ponto de vista da articulação entre as IES, surgem dois eventos acadêmicos de grande importância para a extensão: o Seminário de Metodologias para Projetos de Extensão (SEMPE) e o Congresso Brasileiro de Extensão Universitária (CBEU).
Sobre o SEMPE, Diniz (2012) relata que a iniciativa de sua criação foi da área de Inovação Tecnológica e Organização Industrial da (COPPE/UFRJ) a partir da constatação de uma demanda por formação na área de metodologia para projetos de extensão, com ênfase nas metodologias de pesquisa participativa e pesquisa-ação. A primeira edição do evento ocorreu em 1996 e está na sua sétima edição, realizada em 2011. Diniz (2012) destaca como figura central no evento Michel Thiollent por seu
pioneirismo e inúmeras contribuições (...) nesta área e sua participação na criação e desenvolvimento do evento. Não parece ser um exagero considerá-lo como um dos principais mentores do SEMPE. Foi um dos responsáveis pela criação do seminário e suas reflexões estão presentes em todas as edições do evento, sendo possível perceber sua influência nos demais trabalhos que compõe o quatro teórico-conceitual e metodológico dos seminários (DINIZ, 2012, p. 96).
Não há destaque pelo autor para a temática de geração de trabalho e renda e a atuação das ITCPs, mas o tema aparece nas sessões de apresentação dos trabalhos selecionados ao longo das edições. No IV SEMPE aparece como 'tecnologia e organização do trabalho', no V SEMPE 'tecnologia, questão agrária e cooperativismos', no VI SEMPE a área não é contemplada e no VII SEMPE há uma área temática denominada 'trabalho'.
Já sobre o CBEU, o autor afirma que o evento surgiu durante a realização do V Congresso Ibero- americano de Extensão Universitária, em 2001, mas sua primeira edição ocorreu em 2002, promovida pelo Forproex e pela UFPB. Atualmente o CBEU está na sua quarta edição (realizada em 2009). Afirma o autor ainda que
atualmente o CBEU, sem dúvida alguma, é o mais importante evento da extensão universitária brasileira. Reunindo os três fóruns de extensão universitária existentes no Brasil (das instituições de ensino superior públicas, comunitárias e particulares), o evento procura atualizar a cada edição as discussões acerca das políticas de extensão em suas diferentes dimensões (gestão, financiamento, metodologias, avaliação etc.). Além disso, reúne uma considerável gama de experiências em práticas de extensão universitária realizadas por variadas instituições a partir de diferentes realidades locais e regionais (DINIZ, 2012, p. 109).
Novamente o autor destaca a presença de Michel Thiollent como uma das principais referências metodológicas citadas pelos textos produzidos pelos extensionistas. Sobre a temática de geração de trabalho e renda consideramos que esta esteve presente em todas as edições do CBEU, dentro da área denominada 'trabalho'. Por fim, o autor observa que nesse período da extensão, há uma relação sinérgica entre Estado e os extensionistas e afirma que essa relação
pode ser caracterizada, em geral, pela cooperação e convergência de interesses. Por parte do Estado, a articulação entre financiamento da extensão e políticas públicas sociais tende a reforçar o compromisso social das universidades públicas e as aproxima de sua política social. Por outro lado, é relevante destacar a presença das diretrizes dos extensionistas na política de financiamento (DINIZ, 2012, p. 131).
Um fato que é digno de nota nesse período é a reativação do Projeto Rondon, que havia sido extinto em 1989. O projeto, reativado em 2005, teve sua coordenação atribuída ao Ministério da Defesa. Desde então, o Rondon já levou mais de 12.000 rondonistas a cerca de 800 municípios (MINISTÉRIO DA DEFESA, 2012).
A história do surgimento das incubadoras, que abordaremos na seção seguinte, parece correr em paralelo em relação às articulações da extensão nesse período, principalmente em relação à atuação do Forproex. Essa história, contudo, se cruza com o fortalecimento das ITCPs e de seu principal programa, o Proninc como relataremos a seguir. Os itens seguintes não estão mais organizados de acordo com os períodos detalhados no capítulo anterior, ainda assim, é necessário
tê-los em mente para melhor compreender o surgimento das incubadoras. Sobre o período da extensão sob o governo Lula, é evidente a maior atenção deste à extensão, com aumento significativo de recursos e atuação determinante do governo federal. Nesse período, o Forproex também segue tendo uma atuação relevante.
Em relação ao tema do conhecimento, as ideias de Paulo Freire são amplamente adotadas e referenciadas pela extensão, como afirmamos anteriormente, e surge com destaque a influência de Michel Thiollent na busca por metodologias adequadas de construção conjunta de conhecimento.