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4. A Compreensão Dos (Pre)Conceitos

4.3. A Família

Abordar o conceito de família é fundamental para a compreensão desta temática. Todos estamos ligados a uma ou mais famílias, mesmo que por vezes só conheçamos ou nos relacionemos com um número muito reduzido de elementos, mas ela funciona com os seus problemas e competências, existindo neste seguimento vários conceitos para definir uma família. Segundo Relvas (1996), esta é entendida como um sistema, um todo, uma globalidade que só numa perspetiva holística pode ser corretamente compreendida. Já Levi-Strauss (1979) define a família como um grupo social, cuja sua origem está no casamento, compreende o marido, a esposa, os filhos nascidos dessa união, e eventualmente, outros parentes. Estes membros estão unidos por laços de aliança, de sangue, legais e/ou religiosos e obrigações de natureza económica, social, cultural ou ideológica e, possui uma rede bem definida, formada pelas leis e pelos costumes, direitos e obrigações sexuais e um conjunto diversificado de sentimentos psicológicos, como o amor, a afeição, o respeito, a sujeição ou outros, incluindo os que decorrem dos constrangimentos sociais e culturais. A família tem sofrido várias alterações ao longo dos anos, e ainda hoje “ (...) não é um produto final nem único.” (Esteves, 1991).

O Papa Francisco afirma que “a família é um ‘centro de amor‘, onde reina a lei do respeito e da comunhão, capaz de resistir aos ataques da manipulação e da dominação dos ‘centros de poder mundanos”, sendo por isso o refúgio dos seus membros. Acrescenta ainda que, “na casa familiar, a pessoa integra-se natural e harmoniosamente um grupo humano, superando a falsa oposição entre indivíduo e sociedade … as relações baseadas no amor fiel, até a morte, como o matrimónio, a paternidade, a filiação ou a irmandade, aprendem-se e vivem-se no núcleo familiar (…) Quando estas relações formam o tecido básico de uma sociedade humana, dão-lhe coesão e consistência (…)” escreveu o Papa.

Será a família sinónimo de todo este amor? Há outras perspetivas… Segundo (Bourdieu P. , 2003), a família é, sem dúvida, a instância que assumiu o papel principal na reprodução da dominação e da visão masculina, é na família que se impõe a

O Lado B da Violência Doméstica Agressores Conjugais, Que Planos de Intervenção?

Escola Superior de Educação e Ciências Sociais de Leiria

Mestrado em Mediação Intercultural e Intervenção Social Página 24 experiência precoce da divisão sexual do trabalho e da representação legítima dessa divisão, garantida pelo direito e inscrita na linguagem. E, neste seguimento, Minuchin (1990) define a família como “um conjunto invisível de exigências funcionais que organiza a interação dos membros da mesma, considerando-a igualmente como um sistema que opera através de padrões transacionais. Assim, no interior da família, os indivíduos podem construir subsistemas, podendo estes ser formados por geração, sexo, interesse e/ou função, havendo diferentes níveis de poder, e onde os comportamentos de um membro afetam e influenciam os outros membros. A família como uma unidade social enfrenta uma série de tarefas de desenvolvimento, diferindo a nível dos parâmetros culturais, mas possuindo as mesmas raízes.

Já Alarcão (2002), diz-nos que a organização estrutural da família está diretamente associada à questão do poder e do género, sendo que a estrutura de poder é normalmente vertical e está definida em função do género e da idade. Com as transformações sociais que as famílias têm sofrido, a igualdade de direitos também se traduz na envolvência do pai em situações que dizem respeito aos filhos e que anteriormente apenas eram tidas como competência da mãe. São mudanças que obrigam o casal a uma reorganização pelo crescimento da família e que por vezes é foco de tensão e de conflitos. O poder e a forma como se dividem as tarefas são, como afirma Dias (2004), domínios de forte tensão na família. Com efeito, embora a imagem da mulher no lar seja menos frequente e a repartição dos papéis sexuais é incerta e variável numa conjugalidade mais informal que assume diversas formas, sendo que o casamento já não está associado ao projeto parental, assistimos a um desfasamento entre paridade de género preconizada pelas sociedades ocidentais democráticas e as realidades socioprofissionais e familiares existentes conduz à persistência de mitos acerca da família. A família e os papéis sociais de género têm que ser desnaturalizados, assim como deve ser rejeitada a dicotomia entre espaço público e domínio privado. Homens e mulheres não existem em contextos naturalmente criados. Pelo contrário, tais espaços resultam de processos complexos de construção social (Dias I. , 2007).

De facto, não existe um tipo de família modelo ou ideal. Podemos afirmar que a família é o primeiro espaço onde a criança se integra e onde vai estruturar a sua personalidade. É a primeira Instituição Social que assegura e responde a determinadas necessidades tais como amor, carinho, afeto, alimentação, proteção e socialização, sendo um sistema que muda em função do espaço e do tempo. Apesar da diversidade de modelos de vida familiar nas sociedades pós-industriais, a família nuclear continua a ser predominante

Capítulo 1

Da Problemática aos Conceitos e seu Enquadramento Legal

nos discursos e políticas sociais. A imagem dominante a ela associada é a de um grupo coeso, formado por um casal heterossexual e filhos. Esta representação é investida de pressupostos morais e ideológicos que transformam a família no reduto de todas as ambiguidades: espaço de segurança, solidariedade e intimidade, ela é também lugar de violência e de desigualdades entre os seus membros. (Dias I. , 2008). A verdade, é que pese embora a observação de profundas transformações na estrutura e dinâmica da família, há ainda a prevalência, na nossa sociedade, de um modelo de família que se carateriza pela autoridade paterna e, portanto, pela submissão dos filhos e da mulher a essa mesma autoridade. Aparecendo essa autoridade, muitas vezes, como protetora dos membros da família. Infelizmente, os números mostram-nos, vezes demais, que esta imagem não cumpre a função de proteção, encobrindo-se em práticas de violência.

No documento O Lado B da Violência Doméstica (páginas 34-36)