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2 A METODOLOGIA DE PESQUISA, A FENOMENOLOGIA E A SEMIÓTICA

2.1 A fenomenologia e alguns conceitos fundamentais

A preocupação constante com o processo de aprendizagem aos poucos foi sendo transferida para o aprimoramento da docência, ou seja, se aprendemos porque não há transferência direta à atividade de ensino? Por mais que se invista em aprimoramento docente, por mais que os processos de educação continuada de professores procurem aproximar-se do cotidiano das salas de aula, poucos resultados práticos têm se apresentado. Para Martins & Bicudo:

“o valor das boas pesquisas conduzidas qualitativamente está no potencial que formam para desenvolver uma linguagem capaz de articular questões pedagógicas (Martins & Bicudo, 1994, p 63)”.

Parece-nos que os resultados das pesquisas não chegam ao processo pedagógico, pois se o professor não tem acesso à literatura especializada, o que provavelmente não favoreceria as mudanças necessárias, o processo de formação não tem levado em consideração os resultados da pesquisa ou esta não apresenta ao professor alternativas pedagógicas que o convençam de sua eficácia. A grande maioria dos professores continua utilizando as mesmas técnicas e métodos, sem aplicar a seu fazer docente os resultados dos processos de aperfeiçoamento vivenciados. Estas constatações levam-nos ao seguinte questionamento: De que maneira o professor percebe sua formação profissional e como relaciona esta aprendizagem à aprendizagem dos alunos?

O trabalho de Netto (2003), onde a fenomenologia é utilizada com resultados interessantes, mostrou ser este um caminho viável para esta pesquisa. A fim de buscar respostas a esta questão associada a como o individuo atribui significados e de que maneira expressa estes significados, optou-se por uma abordagem fenomenológica de pesquisa. O que mais nos interessava saber era como os sujeitos da pesquisa expressavam a experiência vivida durante o processo de aprendizagem.

Segundo Moreira:

“... em geral, os tópicos apropriados ao método fenomenológico incluem aqueles que são centrais à experiência de vida de seres humanos: alegria ou medo, estar presente, estar envolvido, ser um gerente ou um líder, ou de algum tipo de experiência, para pessoas num dado ambiente (Moreira, 2002, p. 112)”.

Apesar de os dados poderem se tornar acessíveis através de outros instrumentos tais como narrativas, história de vida etc, optou-se por utilizar o estudo fenomenológico. Nosso interesse esteve centrado na experiência dos sujeitos, e é esta, o que faz do estudo do fenômeno um caminho alternativo interessante para alcançar os objetivos propostos.

A abordagem fenomenológica tem por objetivo, segundo Moreira (2002), fazer justiça aos aspectos vividos dos fenômenos humanos. Quando nos perguntamos o que há para saber acerca das pessoas, precisamos atentar para dois fatores: o lado observável ou comportamento físico ou verbal e o lado não observável ou pensamentos, sensações etc. também chamados de mundo da experiência.

A experiência caracteriza-se principalmente pela sua inacessibilidade ao outro, é um dado subjetivo que não pode ser dimensionado pelo pesquisador senão através da descrição elaborada pelo sujeito. O foco está no sujeito aprendiz, no sujeito a ensinar e, portanto, é necessário saber como este relaciona-se com a situação, e como vivencia o fenômeno. Para Martins & Bicudo, na pesquisa psicológica e educacional, a idéia de fenômeno assume o sentido da “entidade que se mostra em um local situado, e isto é que é o locus de um objeto com respeito aos eventos, estes fenômenos cada um deles, só podem se mostrar enquanto situados (grifos dos autores) (Martins & Bicudo, 1994, p.22)”.

Sendo assim, ao interrogar e buscar os significados elaborados pelos sujeitos durante o processo por eles vivenciado, procura-se não a generalização objeto da pesquisa quantitativa, mas a “compreensão particular daquilo que se estuda” (Martins e Bicudo, 1994, p.23). Há aqui uma preocupação com as descrições individuais e as interpretações subjetivas que emergem das experiências vividas pelos sujeitos.

A pesquisa qualitativa é classificada a partir da maneira pela qual se interroga o fenômeno em estudo:

“Pode se interrogar o mundo diretamente, perguntando o que é isto que vejo? Este método é chamado de perspectiva de primeira ordem, pode-se também, interrogar as idéias que as pessoas têm sobre o mundo. Neste caso pergunta o que a pessoa pensa a respeito do fenômeno. Este modelo é chamado de perspectiva de segunda ordem (grupos de autores) (Martins & Bicudo, 1994, p.24)”.

Portanto, o objetivo ao realizar esta pesquisa está relacionado à perspectiva de segunda ordem. Buscando uma compreensão particular do objeto de estudo, sob esta perspectiva, o pesquisador deverá estar preocupado não com os fatos, mas com os significados que eles têm para o sujeito da pesquisa, pois:

“... só haverá ciência humana se nos dirigirmos a maneira como os indivíduos ou os grupos representam palavras para si mesmos, utilizando suas formas de significados, compõem discursos reais, revelam e ocultam neles o que estão pensando ou dizendo, talvez desconhecido para eles mesmos, mais ou menos o que desejam, mas, de qualquer forma, deixam um conjunto de traços verbais daqueles pensamentos que devem ser decifrados e restituídos tanto quanto possível na sua vivacidade representativa. (Martins, 2002, p.51)”.

Se a pesquisa qualitativa interessa-se pelos significados estabelecidos pelos sujeitos em sua convivência com o mundo e com os demais, é a partir das percepções sobre esta vivência que se deve debruçar o pesquisador, as “expressões claras sobre as percepções3 que o sujeito tem daquilo que está sendo

pesquisado, as quais são expressas pelo próprio sujeito que as percebe (Martins & Bicudo, 1994, p.93)”. Para chegar a estes significados, dever-se-á questionar o próprio sujeito, dando a ele a oportunidade de expressá-lo de maneira livre de pressuposições teóricas.

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Entende-se por percepção as formas complexas de obtenção de informações sobre o mundo através dos sentidos e sua apreensão na consciência.

Neste sentido, justifica-se a aplicação da fenomenologia a esta pesquisa, pois em relação aos significados, objetivo perseguido neste trabalho, não se consegue através de metodologias tradicionais responder a questões relacionadas à experiência de vida dos sujeitos.

Embora Hursserl não tenha se proposto a elaborar um método para realizar pesquisa empírica a transposição do método fenomenológico por ele proposto às ciências eidéticas4 para o contexto empírico se fez através de adaptações e

concessões de rigor. Apesar disto, existem algumas unanimidades. Em primeiro lugar, a pesquisa com enfoque fenomenológico tem por objetivo a busca da essência (ou estrutura) do fenômeno que deve estar presente nas descrições (Martins & Bicudo, 1994).

Por este motivo, quase todas as variantes do método citadas por Moreira (2002), apresentam como características comuns as duas reduções: fenomenológica e eidética. Elas levam em consideração a necessidade de olhar para o fenômeno5,

tal qual ele se apresenta, sem análises prematuras. Segundo Martins & Bicudo (1994), “o pesquisador deve deixar de lado seus conhecimentos ou explicações e procurar ver que significados os entrevistados estão tentando mostrar (pág 57)”. Nesta perspectiva, os dados deverão ser obtidos diretamente dos sujeitos da pesquisa através de entrevistas ou relatos escritos por eles.

Como se vê, a coleta de dados que será pormenorizada a seguir, privilegiará a entrevista e avaliações escritas com base na reflexão dos sujeitos sobre o processo vivenciado e para que esta atenda às necessidades ou objetivos da pesquisa, o entrevistado deve sentir-se útil e perceber a importância de suas opiniões para a questão investigada. Além disso, o pesquisador deve evitar juízos de valor e a emissão de atitudes de concordância ou discordância em relação às opiniões do entrevistado. A maior neutralidade possível, sem distanciamento do entrevistado, poderá resultar em descrições mais fidedignas e relevantes para a pesquisa em questão.

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Ciências Eidéticas: eidos, do grego – essência, forma, estrutura. (Dicionário Aurélio Século XXI; Edição Eletrônica) Filos. Segundo Edmund Hursserl (1859-1938), filósofo alemão, relativo à essência das coisas e não à sua existência ou função.

5 Fenômeno (Moreira, 2002, p.60): Dado qualquer objeto no mundo ao nosso redor objeto este que percebemos através dos sentidos, fenômeno é a percepção desse objeto que se torna visível a nossa consciência.

Em relação à descrição, ponto crucial de uma pesquisa com enfoque fenomenológico, é sua função desvendar o fenômeno além das aparências. Não se constitui, como afirma Masini (2002), numa descrição passiva, mas trata-se de uma interpretação capaz de evidenciar “os sentidos menos aparentes, os que o fenômeno tem de mais fundamental (p 63)”.

O que se entende então por descrição do ponto de vista da pesquisa fenomenológica? Segundo Martins (2002), descrever algo envolve audiência, ou seja, toda descrição deve ser dirigida a alguém que não conhece o objeto descrito. Também pressupõe que o objeto descrito exista no momento da descrição, além disso, quem descreve conhece do objeto descrito, coisas que seu interlocutor desconhece.

O propósito de uma descrição é agir como auxiliar no reconhecimento do objeto, em outras palavras é mostrar como se pode diferenciá-lo de um outro. Mas o mais importante em uma descrição, para que possa ser utilizada como dado em uma pesquisa, são os fatores relacionados ao sucesso da descrição. As descrições, normalmente, são atividades complexas e pode-se questionar a veracidade de partes dela, mas não sua totalidade. Pode-se questionar também a suficiência das informações, sua precisão, adequação e equilíbrio.

Martins afirma que alguns pesquisadores buscam “facilitar a obtenção de dados, melhorar a descrição, voltando aos sujeitos e pedindo-lhes mais informações e alguns componentes. Neste caso, o pesquisador estará criando novas condições, contingentes” (Martins, 2002, p.57). Pode-se inferir então que na pesquisa qualitativa os dados devem ser coletados através de descrição feita pelos sujeitos e sua análise deverá ter por base os objetos descritos.

Em segundo lugar, a descrição obtida durante as entrevistas ou durante a análise inicial dos dados deve pressupor um distanciamento do pesquisador de seus pressupostos e teorias sobre o fenômeno. Para Hursserl, estaríamos colocando o fenômeno em suspensão, ou seja, em “époque”, a fim de estudar suas essências. O objetivo proposto para isto seria:

“... descobrir as estruturas essenciais e relacionamentos do fenômeno, bem como os atos da consciência nos quais os fenômenos apareciam. Essas tarefas deveriam ser conduzidas através de uma exploração filosófica tão isenta quanto possível não

manchada por pressuposições cientificas ou culturais (Moreira 2002, p.71)”.

Como encontrar então estas essências? Em que elas se constituem como tal? As essências estão ligadas a aspectos da experiência comum aos participantes de uma experiência. Pode se dizer que são a parte invariável de um fenômeno, que se mantêm mesmo mudando-se os ângulos de visão deste fenômeno. E se constituirão na base para a análise que o pesquisador fará sobre as descrições dos sujeitos da pesquisa.

Para tanto, pretende-se, a partir das descrições elaboradas, utilizar os quatro momentos indicados, principalmente no método fenomenológico de Giorgi (apud Moreira, 2002, p. 123).

1) Leitura das descrições sem buscar interpretações para se obter um sentido do todo.

2) Discriminação de “unidades de significado” espontaneamente percebidas nas descrições dos sujeitos.

3) Transformação das expressões cotidianas em linguagem psicológica, ou seja, discriminação de categorias a partir das expressões concretas.

4) Síntese das “unidades de significado” transformadas em proposições ou “estrutura da experiência”

Para Giorgi (apud Moreira), as unidades de significado são notadas diretamente na descrição e sua identificação deve ocorrer de forma espontânea. Antes de qualquer análise, a discriminação destas unidades é que valida a “prática da ciência“ dentro do contexto da descoberta antes mesmo do contexto da verificação (Moreira, 2002). Embora a verificação seja importante, não esgota a definição de prática científica, pois é “impossível somente verificar, sem descobrir”. Por outro lado, unidades de significado ou sentido serão constituintes e não elementos, pois estarão sempre apoiadas no contexto, enquanto os elementos apresentam sentidos independentes. O estabelecimento de unidades de significado, apesar de variar de pesquisador para pesquisador, pois estará submetido a critérios psicológicos que dependem do olhar do pesquisador sobre o fenômeno e sua

essência, deverá ser fiel às significações atribuídas pelos sujeitos expressas no texto6 gerado no processo vivenciado.

Em relação à análise dos dados, pretende-se passar pelos dois enfoques psicológicos, ou seja, Análise Psicológica do Individual ou Análise Ideográfica, que está baseada nos três primeiro passos apresentados do método de Giorgi e tem por objetivo a descoberta de significados e a Análise Psicológica do Geral ou Análise Nomotética, que lida com as interpretações e compreensões de divergências e convergências das análises individuais.

A Análise Ideográfica refere-se à representação das idéias dos sujeitos. Consiste na leitura de cada descrição individual e isolamento das unidades de significado para posterior análise psicológica. O pesquisador deve colocar-se no mundo do sujeito para buscar a compreensão, a gênese, as relações e as estruturas gerais do fenômeno através das descrições obtidas.

A Análise Nomotética consiste na passagem do individual para o geral. O pesquisador deve buscar compreender as convergências e divergências que se mostram nas descrições individuais. Embora se busquem generalizações, estas não correspondem às mesmas generalizações que são objeto da pesquisa quantitativa. O que se pretende pode ser melhor compreendido a partir das afirmações de Martins & Bicudo:

“... a modalidade F se fundamenta na fenomenologia, entendida como escola filosófica, onde a ênfase maior na busca do conhecimento está na essência compreendida como representante de um universal de análise, a sua análise qualitativa fica aquém da universidade completa almejada pela análise filosófica. Isso porque na pesquisa qualitativa de F o interesse está mais em captar a essência ou estrutura do fenômeno, o qual é dependente de um contexto relevante para situações típicas do que no conhecimento dos universais. O nível das descrições não é nem universal, nem particular (Martins & Bicudo 1994, p. 36)”.

6 Texto é tudo o que dizemos ou escrevemos, e que pode ser considerado como o registro das ações sociais (Lemke 1997).

Portanto, as convergências, divergências, comparações e generalizações têm por função a elucidação do fenômeno situado e não o caráter de generalização, perseguido nas pesquisas qualitativas.

Outra relevância também se apresenta na dependência existente entre análise nomotética e ideográfica. Sem estabelecer as unidades de significado, ou seja, sem as descrições individuais sistematizadas torna-se praticamente impossível a passagem do individual para o geral. Nesta pesquisa, optou-se por um método qualitativo com base na visão fenomenológica, pois parece ser este o melhor caminho para chegarmos às respostas das questões formuladas. Na seqüência descrevemos a coleta de dados, detalhando os objetivos estabelecidos para cada instrumento utilizado.