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3. METODOLOGIA

3.6. O software EXMARaLDA: funções e ferramentas

3.6.1. A ferramenta de transcrição: Partitur-Editor

O Partitur-Editor permite que as transcrições sejam feitas de modo mais preciso e detalhado, vinculando arquivos de gravação e texto. A distribuição e a separação dos participantes da conversa é feita por camadas configuradas pelo transcritor. Essa organização pode ser feita em uma ou mais linhas de transcrição para cada participante, possibilitando uma descrição mais pormenorizada e precisa de eventos verbais ou não verbais (figura 3).

Figura 4. Trecho de transcrição no Partitur-Editor

Como pode ser observado na figura acima, a transcrição é subdividida em camadas (tiers) para notação da fala de cada participante, sendo que cada contribuição é transcrita em seu ponto exato de correspondência na linha do tempo. Dito de outro modo, o trecho que se vê e se ouve da conversa corresponde ao trecho que se lê da transcrição. Como já explicitado nas seções 3.3.1 e 3.3.2, os participantes foram identificados com os códigos B1, B2... etc. E, consequentemente, a identificação de cada um deles nas linhas de transcrição verbal seguiu o mesmo padrão B1[v] ... B5[v] em ambas transcrições, enquanto os demais eventos e comentários foram notados na camada „Trans‟[v], de transcritor (figura 3) ou ainda „U‟[v], para Ulrike, apenas na transcrição da primeira gravação. As pausas, lacunas e silêncios foram transcritos segundo as convenções do GAT 2,31 ressalvando algumas ocorrências notadas

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Mais informações sobre o funcionamento do COMA e do EXAKT podem ser acessadas nos manuais e tutoriais disponíveis no campo de ajuda/suporte do site do EXMARaLDA: <http://exmaralda.org/en/helpsupport/>, acesso em 14/08/2017.

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Convém recordar que as convenções do GAT 2 estão integradas ao sistema operacional do EXMARaLDA. Desse modo, o transcritor pode escolher suas preferências de configuração no próprio programa, o qual inclui, além do GAT 2, outros sistemas de segmentação.

separadamente na linha do participante, quando essas indicavam um lugar relevante para transição de turno (ver LRT, seção 2.3).

A segmentação de áudio e vídeo é feita de modo semiautomático pelo programa, mas também pode ser reajustada pelo transcritor, o qual, por sua vez, tem a tarefa de registrar o conteúdo do trecho ouvido na camada correspondente. Dessa forma, tem-se o „evento‟, que pode ser definido como o texto que descreve algum acontecimento na gravação transcrita e é demarcado pela estrutura sequencial da conversa. O Partitur-Editor numera todos os eventos transcritos. Nos casos em que um mesmo participante detém o turno de fala por muito tempo, a delimitação de cada evento é segmentada em „unidades entonacionais‟ (SELTING et al., 2016, p. 14). E, finalmente, tem-se a distinção do movimento entonacional ao final do segmento, que de acordo com as convenções de notação da AC para o GAT 2 podem ser: alto ascendente (?); ascendente (,); nivelado (–) e descendente (;), especialmente importante para a separação das UE quando é feita a exportação de arquivo.

Segundo Selting (2008), as unidades entonacionais (UE) não se definem unicamente por meios sintáticos, e dessa forma, também é preciso considerar recursos prosódicos, tais como ritmo, ênfase, velocidade, volume de fala etc. A autora ressalta ainda as seguintes estratégias para delimitação de uma unidade entonacional: (1) quando há redução do volume no turno do falante, (2) em casos de alongamentos vocálicos depois de sílabas acentuadas, (3) em contorno entonacional descendente etc. (SELTING, 2008, p. 232). Outros sinais como voz crepitante ao final da unidade, movimento entonacional nas sílabas (não) acentuadas no final da unidade e pausas também podem atuar como delimitadores de unidade entonacional (cf. COUPER-KUHLEN, 1986; DU BOIS et al., 1992; CRUTTENDEN, 1997 etc., também SELTING, 1995 apud SELTING, 2016, p. 26-27). Cabe destacar, porém, que nos casos em que ocorrem sobreposições de turnos (ver eventos 1157 e 1158, na figura 4) tais eventos são separados do restante das contribuições de fala de cada participante.

O programa também oferece um teclado virtual com as convenções de transcrição do sistema de transcrição GAT 2 e dispositivos que não apenas visam facilitar a tarefa do transcritor mas também contribuem para o rigor do resultado final, como, por exemplo, as ferramentas de edição dos eventos, que possibilitam mesclar, dividir, adicionar e remover células; as ferramentas de metadados, que simplificam a identificação e a organização dos arquivos, permitindo classificar e descrever dados da própria transcrição, tais como características dos participantes, arquivos vinculados ao projeto, convenções de transcrição etc.; as ferramentas de exportação, que facilitam a criação de arquivos em diferentes formatos e assim por diante. Paralelamente, o Partitur-Editor possui uma função semiautomática para

mensurar pausas e silêncios, tanto na camada do participante quanto em linha separada, nos casos em que não se pode atribuir tais fenômenos a um falante específico. Ademais, também é possível inserir manualmente um valor aproximado dessas ocorrências (ver seção 3.5).

Além de permitir a exibição de áudio e vídeo, o software apresenta um oscilograma com a frequência sonora, ferramenta que pode ser muito útil enquanto recurso visual para o delineamento mais acurado das pausas. A figura 4 mostra a interface do Partitur-Editor e os principais componentes programa.

Figura 5. Exemplo de uma tela do Partitur-Editor

Por fim, antes de se prosseguir para as análises de dados e resultados de pesquisa, é importante indicar como foi realizada a segmentação e exportação das transcrições no programa EXMARaLDA e, adicionalmente, explicar de que modo as ocorrências de pausas e silêncio foram mapeadas e contabilizadas, com a ferramenta Exakt (ver seção 3.5.3). Uma vez que o EXMARaLDA Partitur-Editor disponibilizada diferentes formatos para a exportação dos arquivos transcritos, a opção escolhida para este trabalho foi a extensão .txt, que requer pequenas correções e edições no corpo do texto, a fim de que a formatação final possa exibir uma estrutura semelhante à dos Trechos 1 e 2 (ver seções 3.4 e 3.5). A figura abaixo exemplifica uma tentativa de exportação de um pequeno trecho da interação filmada.

Figura 6. Exportação do trecho em arquivo .txt pré-editado

Apesar de o programa oferecer a exportação de dados em diferentes formatos, como .txt, .rtf, .xml e .html, alguns ajustes ainda precisam ser feitos no formato texto (.txt) para que a transcrição se torne mais legível tanto para o pesquisador quanto para o leitor. Isso inclui a adaptação da transcrição às convenções do GAT 2, alterando a fonte para Courier New, monoespaceada e alinhando as sobreposições de fala, marcadas por colchetes.

Por vezes, a exportação no formato .txt é uma tarefa difícil, pois quando há erros de segmentação (parênteses sem fechamento, unidades sem marcação da entonação final etc.) que impedem que outputs sejam gerados não há reconhecimento automático de tais falhas, ficando a cargo do transcritor procurá-las por toda a transcrição. Ademais, frequentemente a execução simultânea dos arquivos de áudio e vídeo é comprometida, ocasionando travamentos durante o andamento da atividade ou ainda, não permitindo que o vídeo seja exibido junto ao áudio, resultando em mensagens de erro.

Contudo, apesar das eventuais dificuldades que o pesquisador possa enfrentar em relação à operacionalidade do software, o EXMARaLDA é uma ferramenta apropriada e muito útil à pesquisa da fala-em-interação, sobretudo em relação à possibilidade de tratamento multimodal e para esta dissertação, especificamente, pelas ferramentas para notação automática das pausas, lacunas, lapsos, hesitações e silêncios. Dessa forma, eventuais falhas não representam impedimentos à utilização eficiente deste programa.