ANEXO XIII – Vamos nos divertir com as dificuldades – 03/04
CAPÍTULO 4 – O ARTIGO E O MESTRE
4.2 A figura do mestre
Recurso formal importante usado pelo autor do artigo é a divulgação de sua foto, como signo icônico, o que representa a heterogeneidade das formas textuais, associando duas linguagens, a verbal e a não-verbal, tornando o texto bastante rico em elementos sinalizadores. Até o ano de 2001, a foto localizava- se ao centro, no eixo da zona ótica, sem a legenda com o seu nome.
A partir de 2002, a foto desloca-se para a parte superior da zona 4, na dobra de página, apresentando a seguinte legenda: Sagrado Mestre Masaharu Taniguchi. Agora o seu nome aparece duas vezes, antes do título e na legenda. A mudança de lugar da foto é uma estratégia para ocupar o início da zona 4 (zona morta), para otimizá-la com um signo visual que chamaria mais a tenção do leitor e tornaria o texto menos denso.
Como já vimos na revisão da literatura, todo texto procede de um enunciador, é sustentado por uma voz. E esse texto encarna as propriedades
associadas ao comportamento do enunciador, o ethos. A foto, presente em todos os artigos do mestre, facilita a construção dessa personalidade logo de imediato, pois a figura de um mestre, definido como sagrado, com idade avançada, semblante sereno, transmite confiança e fidedignidade, qualidades fundamentais para garantir a adesão do leitor que procura nesse gênero textual a resposta às suas dúvidas.
Ao repassar a sua visão do mundo, o mestre desempenha o papel de fiador do que é dito. O leitor constrói a figura do fiador através de diversos indícios textuais, atribuindo-lhe um caráter, com vários traços psicológicos e uma corporalidade, que se refere a uma compleição física, uma maneira de se apresentar no espaço social.
No caso em estudo, a construção da figura do enunciador é facilitada e reforçada pela foto do mestre, que sugere uma pessoa de idade e com conhecimento. Na cultura oriental, as pessoas, ao completarem 60 anos, começam uma nova fase de vida, onde a sabedoria da experiência é valorizada e respeitada, facilitando então a construção da figura do fiador. Esse caráter e essa corporalidade do fiador provêm de um conjunto de representações sociais valorizadas.
Em Fonte de Luz, nov./2000, o fato de o autor-mestre mencionar um ser divino, superior, logo no início do texto, leva o co-enunciador a confiar em seus argumentos e aceitá-los sem outros questionamentos, reforçando assim, a força do argumentador na figura do fiador:
Deus é a Grande Vida imanente do Universo que nos vivifica, e é dessa Grande Vida que cada um de nós recebe vida. Não só Vida, recebemos tudo, desde teto até comida e roupa.
Assim, a qualidade do ethos remete à imagem desse fiador que, por meio de seu discurso, confere a si próprio uma identidade compatível com o universo de seu enunciado e vai gerar uma ação sobre o co-enunciador (leitor), a incorporação. O co-enunciador assimila esquemas de um sujeito, pela
maneira de controlar seu corpo, da forma específica de sua inserção no mundo, muitas vezes até imitando seu modelo de conduta.
A partir das considerações feitas sobre a figura do mestre como fiador, enfatiza-se a importância do emprego de tipos específicos de argumentos na produção do artigo. Esse é o caso do argumento de autoridade. Na discussão dos princípios da organização, quanto mais importante for a autoridade mencionada, mais indiscutíveis serão suas palavras. A autoridade supera todos os obstáculos que a razão poderia opor-lhe, revelando, então, seu aspecto peremptório e absoluto.
Dois exemplos demonstram a força dessa autoridade: ”Jesus ensinou: - Buscai, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo“ (Fonte de Luz, out./1996). O argumento é introduzido pela autoridade máxima que é o filho de Deus, Jesus, que viveu aqui na terra e que é o representante máximo do catolicismo.
E, ainda: ”Conta-se que Rinzai, grande sacerdote budista que viveu na China, no século IX, afirmou o seguinte: Mesmo que se busque por todo o país, não se encontrará sequer uma pessoa que não esteja salva, pois, na essência, todos são seres búdicos” (Fonte de Luz, set./2003).
Nesse exemplo, o autor recorre à figura de um grande sacerdote budista, o que confere autoridade aos seus argumentos, que afirmam que todos somos seres iluminados (búdicos) e que assim todos seremos salvos. Essa segurança dada ao leitor reforça, mais uma vez, a crença na salvação da alma se adequarmos nosso ser aos preceitos da instituição.
Quando uma pessoa ou um agente é considerado um ser perfeito, divino, a idéia que se faz de seus atos vai beneficiar-se da opinião que se tem do agente, no caso, Deus. E esta opinião inquestionável se torna inatacável, tendo um grande poder de persuasão, como vemos no exemplo onde o autor tenta convencer o público leitor de que o caminho da salvação passa pela abertura do canal de comunicação com o poder Divino, que tudo cria e tudo pode:
Aquele que deseja receber a provisão infinita deve retirá-la do Banco da Provisão Infinita de Deus. Em vez disso, as pessoas fecham esse Banco, dizendo “Até aqui é meu”, represam a corrente da provisão infinita e não a deixam fluir. Para nos ligarmos diretamente a Deus, basta retirarmos essa barreira (Fonte de Luz, nov./2000).
Nos três segmentos retirados do texto do artigo do mestre, podemos observar como o recurso à autoridade é recorrente e bastante explorado pelo autor, que, ao fazer uso desta estratégia de argumentação, ganha a adesão quase que imediata de seus seguidores. Não é, assim, necessário o uso de muitos argumentos para convencer a audiência.