Capitulo I: Criações Midiáticas
1.5 A figura do produtor
Nesse momento vou tratar Lady Gaga como marca para destacar uma figura importante que media entre a indústria cultural e o produto midiático, o produtor/empresário, este é quem gerencia sua carreira artística. Das questões burocráticas e mercadológica. Troy Carter foi empresário de Lady Gaga desde o início da carreira dela até meados de 2013. Em entrevistas e palestras disponíveis no YouTube28, ele conta a construção da figura de Lady Gaga, enfatizando que parte do sucesso dela é devido ao talento, habilidades artísticas, carisma e a vontade de ser uma superestrela. Por esse motivo ela cresceu rapidamente na indústria. Por outro lado, foi devido ao momento de mudanças que a indústria passou, dos canais tradicionais de comunicação por exemplo, ao surgimento de plataformas de streaming. Troy Carter é um produtor que conhece a lógica do mercado, ele é perspicaz, está antenado no que funciona bem ou não na indústria cultural, por isso quando ele fala de Lady Gaga, a imagem de heroína é vendida.
A existência destes heróis provenientes da própria comunidade encontra nos meios de comunicação de massa uma condição sine qua non. A mídia tem frequentemente cumprido o papel de
‘editar’ a saga destes heróis, enfocando e ressaltando certos momentos e atitudes e/ou ocultando e omitindo outros.
(COELHO e HELAL, 1996, p.1)
Lady Gaga, junto à equipe criativa Haüs of Gaga (cerca de quinze integrantes fixos, entre eles, produtores musicais, designers, stylist, coreógrafo e outros profissionais) criam, inventam, compõem músicas e atos cênicos.
Enquanto o empresário gerencia a produção, distribuição, marketing, contratos, vendas e tudo o que envolver o desenvolvimento da carreira. Em mente, todas
28 Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=3H0Pz5P0Ut8> Acessado em: 10/11/2017
42 as questões desenvolvidas a partir da “sociedade do espetáculo” e da “indústria cultural”, não é possível no momento, por questão de acesso às informações, afirmar quanta autonomia Lady Gaga tem sobre sua carreira e em suas criações.
Em palestras sobre gerenciamento de carreiras, Carter conta como a tecnologia da informação contribuiu de forma essencial para o lançamento de Lady Gaga no mercado, por meio das mídias sociais. Isso porque na época, estavam surgindo às mídias sociais, as plataformas de streaming e de vídeos, entre outros canais de comunicação que abriram espaços para novos artistas e aproximação com o público. Isso significa, para nós, que a cibercultura, a forma como a sociedade interage com os computadores, dispositivos eletrônicos e novas tecnologias de comunicação associados à cultura, proporciona uma relação mais próxima entre o emissor, mensagem e o destinatário (LÉVY, 1999). Então, o surgimento dessas novas formas de comunicação aproximou o artista do seu público, de maneira que, para Lady Gaga foi essencial na época interagir e se mostrar presente e próxima de pessoas que se identificavam com seu estilo, suas mensagens e criações. O ciberespaço proporciona esse lugar universal de interações entre os emissores e destinatários. Até hoje, 9 anos depois, acontece a mesma interação social entre Lady Gaga e os “Little Monsters”, sendo que, ambos alternam entre emissores e receptores da mensagem. A comunicação direta com o destinatário passa a impressão de interesse, atenção, relação de proximidade, valor. O que nos faz entender um dos porquês Lady Gaga é a “Mother Monster” em relação aos “Little Monsters”.
Antes da era digital, os artistas dependiam da intermediação da gravadora para serem lançados no mercado. Nesse sentido, as gravadoras detinham poder sobre a escolha dos artistas, o que seria lançado, onde e em quais rádios as músicas tocariam com mais frequência. Então Carter diz que o mercado estava engessado na zona de conforto e o que Lady Gaga tinha era uma proposta inovadora, para um público jovem que não estava sendo atingido satisfatoriamente pela indústria. Os canais de comunicação tradicionais não queriam tocar o material produzido por Lady Gaga, segundo o empresário, as rádios não acreditavam que aquele material atingisse um grande público, diziam “ela está fazendo coisas para a comunidade LGBT e que o público não aceitaria isso”.
43 O produtor deve estar atento às novidades, estar “antenado” nas mudanças, segundo Carter, na época as mídias tradicionais estavam no controle hegemônico e não se atentaram às mudanças que estavam acontecendo nos canais de comunicação alternativos. Elas não se atentaram ao que o público “pedia”. Então, nesse contexto, Lady Gaga é lançada, tocando em pequenos clubes noturnos e boates para o público LGBT. Sendo divulgada nas mídias sociais, tendo suas músicas disponibilizadas na internet, em plataformas online, para o mundo, sem a necessidade de intermediação direta das rádios e das lógicas mercadológicas tradicionais. A indústria teve que se adequar as novas formas de produção, distribuição e marketing. Teve que aceitar o que o público queria ouvir e a internet proporcionou essa mudança.
Por fim, ele diz que o segredo de sucesso é perguntar às pessoas do que elas gostam, o que elas gostariam de ouvir, o que seria inovador. É reconhecer um potencial público.
Com o discurso do exempresário, podemos enxergar o papel do produtorempresário na indústria cultural. O produtor é responsável pela construção da imagem pública do artista dentro das lógicas da indústria, deve ser atento às novidades, à tecnologia, às questões sociais, políticas e econômicas que se destacam na mídia. Além do gerenciamento das questões burocráticas que envolvem a artista, traçar estratégias para o crescimento e divulgação da marca. Compreendemos, a partir de Carter, os processos de fabricação da figura pública, que está para além das habilidades e virtudes provenientes da artista, mas em um todo que vai das demandas do mercado, do público, interage com os canais de comunicação e é lançado, divulgado, produzido em ritmo industrial.
Destaco outro ponto, a aproximação da artista com seu público no ciberespaço. Para os fãs, a interação social online proporcionou um vínculo afetivo com Lady Gaga, por meio das mídias sociais eles podem manifestar reações, opinar em comentários, e alguns, pelo perfil online dela são respondidos também. Podem participar de sua vida pelo ciberespaço, por exemplo, quando os “Little Monsters” são convidados a meditar com ela por 20 min numa transmissão ao vivo no instagram. Ambos dividem a experiência de meditar juntos, cada um em seu espaço físico natural (em casa, por exemplo) e ao mesmo tempo estão presentes no espaço virtual (o instagram). De acordo
44 com Lévy (1999, p. 4751), tanto o mundo físico natural quanto o mundo virtual são reais, a diferença entre ambos é o espaço virtual ser acessado por um dispositivo eletrônico. Talvez para os fãs, Lady Gaga não desvincule a vida pessoal da profissional, sendo uma única coisa. Para a sociedade do espetáculo, ela é uma personagem, portanto, há desvinculo entre a vida pessoal e profissional.
Como visto anteriormente, Lady Gaga tem muitos seguidores nas redes sociais Twitter, Facebook e Instagram, até mesmo criou um canal de comunicação (DEBORD, 1994; LÉVY, 1999, KELLNER, 2011; SOARES, 2015) chamado “Littlemonsters.com” uma rede social desenvolvida para interação com os “Little Monsters”, possivelmente com o intuito de concentrar informações sobre agenda de shows, novidades, lançamentos, fotos, e conteúdos produzidos pelos “Little Monsters”. Em 2017, o acesso é feito pelo aplicativo “Little Monster” disponível para celulares e tablets. Para acessar o aplicativo é necessário fazer um cadastro com um email, ou através da conta do Facebook. O aplicativo é uma mistura de outros sites conhecidos Facebook, Twitter, Pinterest, Instagram em que os fãs podem compartilhar diretamente com Lady Gaga e a Haus of Gaga as suas criações, desenhos, homenagens, fotos e fazer parte de uma comunidade com interesses comuns, um laço que a música promove.
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Capítulo II: As “Eras” de Lady Gaga
Nesse capítulo, abordo parte importante do universo de Lady Gaga para os fãs, a chamada “Era”, que significa cada fase que os diferentes álbuns musicais promovem. Conheceremos cinco, dentro da música pop, The Fame, The Fame Monster, Born this way, ARTPOP e Joanne. Assim, Lady Gaga cria, com sua equipe Haüs of Gaga, um novo contexto para o espetáculo se renovar. Nesse capítulo, tenho por objetivos observar, descrever as narrativas de cada “Era” associandoas às imagens (SOARES, 2015; VELASCO, 2010) e outros produtos midiáticos. A fim de conhecer, o que envolve e o que significam as “Eras” na relação fãídolo, entre “Little Monsters” e Lady Gaga.
Portanto, a “Era” é formada pela estética de imagens, que inclui figurinos, maquiagens, músicas, videoclipes, coreografias, looks, ensaios fotográficos. Uma mensagem central, trabalhado em cada álbum um tema específico, que se divide em narrativas literárias e performances em cada
“Era”. As narrativas desenvolvidas nas canções são propagadas em entrevistas e discursos (às vezes militantes), pela própria Lady Gaga e, assimilado, por seus “Little Monsters”. A performance é o momento em que todo o conceito concebido pela Haüs entra em destaque, por exemplo, a música Poker Face na
“Era” The Fame não é interpretada da mesma forma na “Era” Joanne.
A equipe criativa Haüs of Gaga (Casa de Gaga, tradução livre) é formada por profissionais da música, da moda, do design, da tecnologia, dentre outras áreas. Com essa variedade de profissionais em sua equipe, Lady Gaga consegue dialogar com diferentes linguagens artísticas. Usando técnicas de criatividade e tecnologia para criar narrativas literárias verbais e nãoverbais (imagens) que envolvem produção de música, performance, videoclipes, interludes e shows (Debord, 1994).