CAPITULO I. DESENVOLVIMENTO LOCAL
1.3. A R ENOVAÇÃO DO C ONCEITO DE D ESENVOLVIMENTO – O P ARADIGMA T ERRITORIALISTA E A D OUTRINA
1.3.5. A «fileira» das pessoas e das comunidades
Também designada por “fileira vermelha,
inclui conceitos de desenvolvimento essencialmente centrados nas pessoas e no local, “sendo o desenvolvimento, antes de mais, o exercício pleno da cidadania e o resultado de uma participação activa de todos. A satisfação de necessidades é uma consequência, mas não a vertente principal do conceito (Amaro, 2004: 57).
Esta fileira inicia-se em 1950, com a emergência de um conceito novo, que reparasse os estragos realizados nos países ditos do “terceiro mundo” com a aplicação dos modelos e dos “kits”, assentes no paradigma da modernização, cujo expoente máximo se traduziu no Documento das nações Unidos – “Progresso Social através do Desenvolvimento Comunitário”. Nesse documento desenvolvimento comunitário é definido “como um processo tendente a criar condições de progresso económico e social para toda a comunidade, com a participação activa da sua população e a partir da sua iniciativa” (Silva in Carmo 2007: 84).
1.3.5.1. Desenvolvimento Participativo
O conceito de desenvolvimento participativo, segundo Amaro (2004:57) traduz-se
na adopção de uma metodologia participativa nos processos de mudança e de melhoria das condições de vida das populações, desde a concepção e decisão à avaliação, passando pela execução, direcção e acompanhamento, implicando a afirmação plena da cidadania, nos seus direitos e deveres.
É assim introduzido os conceitos de participação e de empowerment nas metodologias de trabalho adoptadas, nomeadamente pelas ONG’s, Banco Mundial e ONU.
1.3.5.2. Desenvolvimento Local
Inicialmente reconhecido através das inúmeras experiências realizadas pela sociedade civil, no mundo inteiro, que lhe conferiu diversidade e riqueza - via indutiva, e posteriormente por via dedutiva, através da evolução académica do conceito, assente na revisão dos paradigmas até então dominantes, obtendo assim reconhecimento académico, o conceito de desenvolvimento local (DL), reuniu nos anos 80 os factores e as condições necessárias para se afirmar.
Assente nos pressupostos do paradigma territorialista, defende que cada território deverá promover o melhor uso possível dos seus recursos naturais, de capital físico e humano.
Muitos são os autores que definem o conceito, Greffe (in Henriques 1990: 29), apresenta-o como um processo de diversificação e enriquecimento das actividades económicas e sociais sobre um território a partir da mobilização e da coordenação dos seus recursos e das suas energias. Será o produto dos esforços da sua população e pressuporá a existência de um projecto de desenvolvimento integrando as suas componentes económicas, sociais e culturais. Finalmente, fará de um espaço de contiguidade física um espaço de solidariedade activa.
Vachon (1993 : 104), intégra na definição do conceito a noção de parceria e de inovação :
une stratégie qui vise, par des mécanismes de partenariat : à créer un environnement propice aux iniciatives locales afin d’augmenter la capacité des collectivités en difficulté; à s’adapter aux nouvelles règles du jeu de la croissance macro-économique ; ou à trouver d’autres formes de développement qui, par des modes d’organisation et de production inédits, intégreront des préoccupations d’ordre social, culturel et environnemental parmi des considérations purement économiques.
exprime fundamentalmente o processo de satisfação de necessidades e de melhoria das condições de vida de uma comunidade local, a partir essencialmente das suas capacidades, assumindo aquela o protagonismo principal nesse processo e segundo uma perspectiva integrada dos problemas e das respostas.
Diferentes, mas reunindo aspectos comuns, as definições de DL apresentadas e outras que não foram transcritas, são unânimes em defender que deverá existir tantos modelos de DL, quantas as diversidades de contextos, espaços e percursos socioculturais. Terá que assentar numa iniciativa de carácter endógeno, de mobilização voluntária, regra geral alimentada por um projecto local, que promova as condições necessárias à referida iniciativa e mobilização, ou seja, que promova competências e capacidades nas pessoas para trabalharem individualmente e em grupo, que promova lideranças no interior do grupo,
Inscreve-se numa lógica circular, sistémica e integradora, que se caracteriza pela interpenetração das três dimensões do ser humanos (individual, colectiva e ambiental), contendo todas as dimensões práticas sectoriais antes utilizadas de forma dispersa, interligando e ponderando, da base para o topo, em busca de objectivos consensuais, capazes de dar coerência a uma estratégia comum para o desenvolvimento interno de um território e de suas relações com outros solidariamente articulados, procurando o bem-estar da comunidade.
O DL, constitui uma prática que funciona como um exercício dinâmico de cooperação para a aquisição da capacidade de gerir interesses, algumas vezes conflituantes, como resultado de uma consciência sócio-política, prova da evolução democrática das lideranças locais que alavancam o desenvolvimento da base para o topo.
Caracteriza-se, ainda, por uma ruptura face ao desenvolvimento preconizado no pós guerra, que, como refere Roque Amaro, exige verdadeiros actores sociais e não, apenas, simples figurantes. Cada processo é único e irrepetível, os projecto de desenvolvimento local são feitos à medida e não de “pronto-a-vestir”, poderá haver pontos em comum, mas será sempre necessário adaptar e acima de tudo inovar13.
Assim, parece ser de entendimento comum, que constitui condição necessária para que o DL ocorra, ou melhor, para que se verifiquem práticas de DL, a existência de iniciativa privada, vontade e decisão, sugestão de caminhos e reivindicações. Ninguém externo, seja pessoa ou instituição, pode assumir esse papel que compete aos agentes e demais actores sociais existentes na comunidade, no entanto e como refere Mortágua (1998), o DL não deve ser apenas expressão
de uma vontade forte de um grupo ou organização em querer planear e desenvolver o território de todos. Tem que ser a resultante, tecnicamente trabalhada, da vontade expressa pelo maior número possível de pessoas que vivem nesse território. No fundo é uma concepção que reafirma a convicção de que, sem
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liberdade e práticas democráticas substantivas, não é possível o Desenvolvimento das sociedades humanas, por muita que seja a “riqueza” material que possuam.14