Várias são as perspectivas que, segundo Bobbio,
podem ser assumidas para desenvolver o tema dos Direitos
do Homem. Ele indica algumas: filosófica, histórica, ética,
jurídica e política. Ele preferiu, porém, englobar e superar
todas estas numa perspectiva que chamou Filosofia da
História
146.
A Filosofia da História é, hoje, desacreditada
especialmente no ambiente cultural italiano, depois que
Benedetto Croce (1866-1952) decretara a sua morte. Hoje,
ela é considerada como uma forma de saber típica da cultura
do século XIX; passou o seu tempo. Diante de um grande
tema, como aquele dos direitos do Homem, é difícil resistir
à tentação de ir além da História meramente narrativa
147.
Fazer Filosofia da História significa, diante de um
evento ou de uma série de eventos, por o problema do
sensus, segundo uma concepção teleológica – finalista – da
História. Isto vale não só para a História Humana, mas
também para aquela natural, considerando o curso histórico
145 Cfr. Ibidem: “Che si cominci dagli obblighi degli uni o dai diritti
degli altri è, rispetto alla sostanza del problema, assolutamente indifferente. I posteri hanno dei diritti verso di noi perché noi abbiamo degli obblighi verso di loro, o viceversa? Basta porre la domanda in questi termini per rendersi conto che la logica del linguaggio mostra l’assoluta inconsistenza del problema.”
146 Cfr. IDEM, “L’età dei diritti”, in ED, 46.
147 Cfr. Ibidem, 46-47: “Oggi la filosofia della storia è considerata
come una forma di sapere tipica della cultura dell’Ottocento, che ormai avrebbe fatto il suo tempo. […] Ma di fronte a un grande tema, come quello dei diritti dell’uomo, è difficile resistere alla tentazione di andare al di là della storia meramente narrativa.”
no seu complexo; da sua origem ao seu cumprimento, como
dirigido a um ‘fim’, a um telos.
Para quem se põem a partir deste ponto de vista, os
eventos cessam de ser ‘dados de fato’ a descrever, a contar,
a alinhar no tempo, eventualmente a explicar segundo as
técnicas e os procedimentos de pesquisa, consolidadas e
habitualmente seguidas pelos históricos, mas se tornam
sinais ou indícios reveladores de um processo, não
necessariamente intencional, em uma direção pré-
estabelecida
148.
O Homem é um animal teleológico que age,
geralmente, em vista de fins projetados ao futuro. Somente
considerando o fim de uma ação, pode-se compreender o
seu sentido. A perspectiva da Filosofia da História
representa a transposição desta interpretação finalista da
ação do indivíduo singular à Humanidade no seu complexo,
como se a Humanidade fosse um ‘grande’ indivíduo ao qual
atribuímos as características do ‘pequeno’ indivíduo
149.
148 Cfr. Ibidem, 47: “Secondo l’opinione comune degli storici, tanto di
coloro che l’hanno accolta quanto di coloro che l’hanno rifiutata, fare filosofia della storia significa, di fronte a un evento o a una serie di eventi, porsi il problema del ‘senso’, secondo una concezione finalistica (o teologica), della storia […], considerando il corso storico nel suo complesso, dalla sua origine al suo compimento, come diretto a un fine, a un telos. Per colui che si ponga da questo punto di vista gli eventi […] diventano segni o indizi rivelatori di un processo, non necessariamente intenzionale, verso una direzione prestabilita.”
149 Cfr. Ibidem, 47-48: “L’uomo è un animale teleologico, che agisce
generalmente in vista di fini proiettati verso il futuro. Solo tenendo conto del fine di un’azione, se ne può capire il ‘senso’. La prospettiva di filosofia della storia rappresenta la trasposizione di questa interpretazione finalistica dall’azione dell’individuo singolo all’umanità nel suo complesso, come se l’umanità fosse un individuo in grande cui attribuiamo le caratteristiche dell’individuo in piccolo.”
Aquilo que torna problemática para a Filosofia da
História é exatamente esta transposição, daqui não podemos
dar nenhuma prova convincente. O importante é que quem
crê oportuno fazer esta transposição, deva ser consciente
que se está movendo num terreno que, com Immanuel Kant
(1724-1804), podemos chamar de História profética. Ou
seja, de uma História cuja função não é cognoscitiva, mas
admoestatória, exortativa, ou somente sugestiva
150.
Em um dos seus últimos escritos Kant se pôs a
pergunta se o gênero humano está em constante progresso
para o melhor. A esta pergunta, que ele considerava como
pertencente a uma concepção profética da História,
acreditava que se pudesse dar uma resposta afirmativa,
apesar de alguma hesitarão
151.
Procurando individuar um evento que se pudesse
considerar como um sinal da disposição do Homem a
progredir, Kant o indicou no entusiasmo que levantara na
opinião pública mundial a Revolução Francesa, 1789, cuja
causa não podia ser senão uma disposição moral da
Humanidade. O verdadeiro entusiasmo, segundo ele, refere-
se sempre àquilo que é ideal, àquilo que é puramente moral
e não pode inserir-se no interesse individual. Por causa deste
entusiasmo, portanto o sinal premonitório – signum
prognosticum – da disposição moral da Humanidade,
segundo ele era o aparecer na cena da História do direito
150 Cfr. Ibidem, 48: “Ciò che rende problematica la filosofia della storia
è proprio questa trasposizione, di cui non possiamo dare nessuna prova convincente. L’importante è che chi crede opportuno operare questa trasposizione, legittima o illegittima che sia dal punto di vista dello storico di mestiere, deve essere cosciente che si sta muovendo su un terreno che con Kant possiamo chiamare di storia profetica, vale a dire di una storia la cui funzione non è conoscitiva ma ammonitiva, esortativa, o soltanto suggestiva.”
que um povo tem de não ser impedido por outras forças de
dar-se uma constituição civil que crê boa. Por ‘constituição
civil’ Kant entendeu uma Constituição em harmonia com os
‘direitos naturais dos Homens’, isto é, tal que aqueles que
obedecem à lei devam também, reunidos, legislar
152.
Definindo o Direito Natural como o Direito que todo
Homem tem de obedecer somente à ‘lei’ da qual ele mesmo
é ‘legislador’, Immanuel Kant (1724-1804) dava uma
definição da liberdade como ‘autonomia’, como poder de
dar leis a si mesmo. De resto, ao início da Metafísica dos
costumes, havia afirmado solenemente, como se a afirmação
não pudesse ser discutida, que uma vez entendido o Direito
como a faculdade moral de obrigar outros, o Homem tem
‘direitos inatos’ e ‘adquiridos’; e o único direito inato, isto
é, transmitido ao Homem pela Natureza e não por uma
Autoridade constituída, é a ‘liberdade’: a independência de
152 Cfr. I. KANT, Se il genere umano sia in costante progresso verso il
meglio (1798), in IDEM, Scritti politici e di filosofia della storia e del diritto, UTET, Torino 1965, 219-220, 225;
Cfr. N. BOBBIO, “L’età dei diritti”, in ED, 48-49: “Cercando di individuare un evento che si potesse considerare come un ‘segno’ della disposizione dell’uomo a progredire, egli lo indicò nell’entusiasmo che aveva sollevato nell’opinione pubblica mondiale la Rivoluzione francese, la cui causa non poteva non essere se non ‘una disposizione morale dell’umanità’. ‘Il vero entusiasmo […] si riferisce sempre a ciò che è ideale, a ciò che è puramente morale […] e non può innestarsi sull’interesse individuale’. La causa di questo entusiasmo, e quindi il segno premonitore […] della disposizione morale dell’umanità, era […] l’apparizione sulla scena della storia del ‘diritto che ha un popoolo di non essere impedito da altre forze di darsi una costituzione civile che esso crede buona’. […] una costituzione in armonia coi diritti naturali degli uomini, tale cioè che ‘quelli che obbediscono alla legge debbano anche, riuniti, legiferare’.”
toda constrição imposta pela vontade do outro, ainda uma
vez, a liberdade como autonomia
153.
Inspirando-se neste extraordinário passo kantiano,
Bobbio expôs a sua tese: a partir do ponto de vista da
Filosofia da História o atual debate sempre mais amplo,
sempre mais intenso sobre os direitos do Homem; tão
amplo ao ponto de já co-envolver todos os povos da Terra;
tão intenso ao ponto de ser posto à ordem do dia das mais
respeitáveis Conferências Internacionais, pode ser
interpretado como um sinal premonitório – signum
prognosticum – do progresso moral da Humanidade
154.
Mesmo não tendo sido um defensor dogmático do
progresso irresistível, Bobbio não foi nem mesmo um
defensor outro tanto dogmático da idéia oposta. A única
afirmação que ele considerou de poder fazer com certa
segurança foi que a História humana é ambígua, e dá
respostas diferentes segundo quem a interroga e segundo o
ponto de vista do qual se coloca para interrogá-la.
Não obstante isto, não se pode deixar de interrogar-se
sobre o destino do Homem; assim como não se pode deixar
de interrogar-se sobre a sua ‘origem’. Pode-se fazer isto
153 Cfr. Ibidem, 49: “Definendo il diritto naturale come il diritto che
ogni uomo ha di obbedire soltanto alla legge di cui egli stesso è legislatore, Kant dava una definizione della libertà come autonomia, come potere di dar leggi a se stessi. […] una volta inteso il diritto come la facoltà morale di obbligare altri, l’uomo ha diritti innati e acquisiti, e l’unico diritto innato, cioè tale che è trasmesso all’uomo dalla natura e non da un’autorità costituita, è la libertà, ovvero l’indipendenza da ogni costrizione imposta dalla volontà dell’altro, […] la libertà come autonomia.”
154 Cfr. Ibidem: “[…] dal punto di vista della filosofia della storia,
l’attuale dibattito […] sui diritti dell’uomo […] può essere interpretato come un ‘segno premonitore’ […] del progresso morale dell’umanità.”
somente escrutando os sinais oferecidos pelos
acontecimentos, como fez Immanuel Kant quando se pôs a
pergunta se o gênero humano estivesse em constante
progresso para o melhor
155.
Bobbio distinguiu o progresso científico ou técnico do
‘progresso moral’
156.
Na ambígua História humana o ‘bem’ e o ‘mal’ se
misturam, nela se contrapõe, nela se confundem. Mas quem
ousaria negar que o ‘mal’ sempre prevaleceu sobre o ‘bem’,
a dor sobre a alegria, a infelicidade sobre a felicidade, a
morte sobre a vida? Bobbio soube bem que uma coisa é
‘constatar’, outra coisa muito diferente é ‘explicar’ ou
‘justificar’. As ‘explicações’ ou ‘justificações’ teológicas
não lhe convenceram, aquelas racionais são parciais e estão
frequentemente em tanto contraste entre elas que não se
pode acolher uma sem excluir a outra; mas os critérios de
escolha são transitórios, frágeis e todos suportam bons
argumentos.
Não obstante a sua reconhecida incapacidade de
oferecer uma explicação ou uma justificação convincente,
Bobbio se sentiu muito tranqüilo em afirmar que a parte
‘obscura’ da História do Homem é bem mais ampla do que
aquela ‘clara’
157.
155 Cfr. Ibidem, 50: “L’unica affermazione che ritengo di poter fare con
una certa sicurezza è che la storia umana è ambigua, e dà risposte diverse secondo chi la interroga e secondo il punto di vista da cui ci si mette per interrogarla. Ciononostante, non possiamo non interrogarci sul destino dell’uomo, così come non possiamo cessare dall’interrogarci sulla sua origine, il che possiamo fare soltanto scrutando […] i segni che ci offrono gli avvenimenti […].”
156 Cfr. Ibidem, 50-51.
157 Cfr. Ibidem, 51-52: “Il bene e il male vi si mescolano, vi si
contrappongono, vi si confondono. Ma chi oserebbe negare che il male sia sempre prevalso sul bene, il dolore sulla gioia, l’infelicità
Bobbio não negou, porém, que uma ‘face clara’ tenha
aparecido de vez em quando, mesmo se por breve período
da História. Mesmo hoje que todo o curso histórico da
Humanidade parece ameaçado de morte, existem áreas de
luz da qual o mais convicto pessimista não pode
desconsiderar, por exemplo: a abolição da escravidão, a
supressão dos suplícios que um tempo acompanhavam a
pena de morte, e da própria pena de morte.
É nesta ‘zona’ de luz que Bobbio colocou em
primeiro lugar – junto com os movimentos ecológicos e
pacifistas – o interesse crescente de movimentos, partidos e
governos, para a afirmação, o reconhecimento, e a proteção
dos direitos do Homem
158.
Todos esses esforços para o ‘bem’ ou pelo menos
para a ‘correção’, a limitação, a superação do ‘mal’, que são
uma característica essencial do Mundo humano em relação
ao ‘mundo animal’, nascem da consciência do estado de
sofrimento e de infelicidade no qual o Homem vive e do
qual nasce uma exigência de sair dele. O Homem sempre
procurou superar a consciência da morte que gera angústia,
sulla felicità, la morte sulla vita? [...] altro è constatare, altro è spiegare o giustificare. […] le spiegazioni o giustificazioni teologiche non mi convincono, quelle razionali sono parziali, e sono spesso in tale contrasto fra loro che non se ne può accogliere una senza escludere l’altra […]. […] mi sento abbastanza tranquillo nell’affermare che la parte oscura della storia dell’uomo […] sia ben più ampia di quella chiara.”
158 Cfr. Ibidem, 52: “[...] una faccia chiara sia apparsa di tanto in tanto,
sebbene per breve durata. Anche oggi che l’intero corso storico dell’umanità sembra minacciato di morte, vi sono zone di luce di cui il più convinto pessimista non può non tener conto: […]. È in questa zona di luce che colloco al primo posto, insieme coi movimenti ecologici e pacifisti, l’interesse crescente di movimenti, partiti e governi, per l’affermazione, il riconoscimento, la protezione dei diritti dell’uomo.”
seja através da integração do indivíduo singular, o ser
mortal, no grupo a que pertence e é presumido imortal; ou
então através da crença religiosa na imortalidade ou na
reencarnação. Instrumentos e regras de conduta formam o
‘mundo da cultura’ contraposto ao ‘mundo da natureza’
159.
O Homem, disse Bobbio, encontrando-se num Mundo
hostil tanto em relação à Natureza quanto em relação aos
seus semelhantes, segundo a hipótese hobbesiana do homo
homini lupus, procurou reagir a esta dupla hostilidade
inventando técnicas de ‘sobrevivência’ em relação à
Natureza; e inventando técnicas de ‘defesa’ em relação aos
seus semelhantes. Estas técnicas de ‘defesa’ são
representadas pelos sistemas de regulação que reduzem os
impulsos agressivos com penas ou solicitam com prêmios os
impulsos de colaboração e de solidariedade
160.
159 Cfr. Ibidem, 53: “Tutti questi sforzi verso il bene o per lo meno
verso la correzione, la limitazione, il superamento del male, che sono una caratteristica essenziale del mondo umano rispetto al mondo animale, nascono dalla consapevolezza, […] dello stato di sofferenza e d’infelicità in cui l’uomo si trova a vivere, e dal quale nasce l’esigenza di uscirne. L’uomo ha sempre cercato di superare la consapevolezza della morte, […]. A questo insieme di sforzi che l’uomo fa per trasformare il mondo che lo circonda e renderlo meno ostile, appartengono tanto le tecniche produttrici di strumenti, che sono rivolte alla trasformazione del mondo materiale, quanto le regole di condotta che sono rivolte alla modificazione dei rapporti interindividuali per rendere possibile una convivenza pacifica e la stessa sopravvivenza del gruppo. Strumenti e regole di condotta formano il mondo della ‘cultura’ contrapposto a quello della ‘natura’.”
160 Cfr. Ibidem: “Venutosi a trovare in un mondo ostile tanto rispetto
alla natura quanto rispetto ai suoi simili, secondo l’ipotesi hobbesiana dell’homo homini lupus, l’uomo ha cercato di reagire a questa duplice ostilità inventando tecniche di sopravvivenza rispetto alla prima, e di difesa rispetto alla seconda. Queste ultime sono rappresentate dai sistemi di regole che riducono gli impulsi aggressivi con pene o sollecitano con premi gli impulsi di collaborazione e di solidarietà.”
Com uma metáfora usual Bobbio disse que ‘direito’ e
‘dever’ são como a frente e o verso de uma medalha. Mas
qual é a frente, qual o verso? Depende da posição da qual
olhamos a medalha. Pois bem, a ‘medalha’ da Moral foi
tradicionalmente olhada a partir dos ‘deveres’ mais do que a
partir dos ‘direitos’
161.
O ‘problema moral’, afirmou Bobbio, foi considerado
originariamente mais a partir do ponto de vista da
‘Sociedade’ do que daquele do ‘indivíduo’. E não podia ser
diferente: aos códigos de regras de conduta foi atribuída a
função de proteger o ‘grupo’ no seu conjunto mais do que
proteger o ‘indivíduo’ singular.
Originariamente a função do imperativo ‘não matar’
não era tanto aquela de proteger o membro do grupo quanto
impedir uma das razões fundamentais da desagregação do
grupo: a morte do indivíduo-membro. A melhor prova disto
é o fato que este preceito, considerado justamente como um
cardo da Moral, valia somente ao interno do grupo; não
valia em relação aos membros dos outros grupos
humanos
162.
161 Cfr. Ibidem, 55: “[…] si può dire che diritto e dovere sono come il
retto e il verso di una medaglia. Ma qual è il retto, quale il verso? Dipende dalla posizione da cui guardiamo la medaglia. Ebbene la medaglia della morale è stata tradizionalmente guardata dalla parte dei doveri più che da quella dei diritti.”
162 Cfr. Ibidem: “Il problema morale è stato considerato
originariamente dal punto di vista della società più che dell’individuo. E non poteva essere altrimenti: ai codici di regole di condotta è stata attribuita la funzione di proteggere il gruppo nel suo insieme piuttosto che di proteggere l’individuo singolo. Originariamente la funzione del precetto di ‘non uccidere’ non è tanto quella di proteggere il singolo membro del gruppo quanto quella di impedire una delle ragioni fondamentali della disgregazione del gruppo. Ne è la miglior prova il fatto che questo precetto, considerato giustamente come uno dei capisaldi della morale, vale solo all’interno del gruppo, non vale nei
Para que pudesse acontecer a passagem do ‘código
dos deveres’ ao ‘código dos direitos’, ocorria que fosse
invertida a ‘medalha’: que o problema moral fosse
considerado a partir do ponto de vista não mais da
‘Sociedade’, mas a partir do ponto de vista do ‘indivíduo’.
Ocorria uma verdadeira e própria ‘revolução
copernicana’, se não no modo ao menos nos efeitos, que
analisarei abaixo. É possível que uma ‘revolução’ radical
possa acontecer em modo ‘não-revolucionário’, por graus.
Bobbio falou de uma revolução copernicana no sentido
kantiano, como inversão da perspectiva de observação
163.
Aqui nos basta ter presente que para explicar a
natureza desta ‘revolução’ Bobbio se serviu de uma outra
contraposição: a relação política por excelência é a relação
entre ‘governantes’ e ‘governados’, entre quem tem o poder
de vincular com as suas decisões os membros do grupo e
aqueles que são submetidos a estas decisões. O ‘indivíduo
singular’ é essencialmente um ‘objeto’ do poder ou ao
máximo, um sujeito passivo. Mais que dos seus direitos se
fala, nos tratados de política, dos seus deveres, entre os
quais, o principal é o dever de obedecer às leis.
Ao tema do ‘poder de comando’ corresponde o tema
da obrigação política, que é, portanto, a obrigação,
considerada primária para o cidadão, de observar as leis. Se
riguardi dei membri degli altri gruppi.”
163 Cfr. Ibidem, 55-56: “Affinché potesse avvenire, […], il passaggio
dal codice dei doveri al codice dei diritti, occorreva che fosse rovesciata la medaglia: che il problema morale fosse considerato dal punto di vista non più soltanto della società ma anche dell’individuo. Occorreva una vera e propria rivoluzione copernicana, se non nel modo almeno negli effetti. Non è detto che una rivoluzione radicale debba avvenire necessariamente solo in modo rivoluzionario. Può avvenire anche per gradi. Qui parlo di rivoluzione copernicana proprio nel senso kantiano, come capovolgimento del punto di osservazione.”
reconhecermos nesta relação um ‘sujeito ativo’, ele não será
o indivíduo singular com os seus direitos originários que
deve fazer valer mesmo contra o poder de governo, mas o
‘Povo’ na sua totalidade, na qual o indivíduo singular
desaparece como ‘sujeito de direitos’
164.
164 Cfr. Ibidem, 57: “L’individuo singolo è essenzialmente un oggetto
del potere o tutt’al più un soggetto passivo. Più che dei suoi diritti si parla, nella trattatistica politica, dei suoi doveri, tra i quali principale è il dovere di obbedire alle leggi. Al tema del potere di comando corrisponde dall’altro capo del rapporto il tema dell’obbligo politico, che è per l’appunto l’obbligo, considerato primario per il cittadino, di osservare le leggi. Se un soggetto attivo si riconosce in questo rapporto, esso non è l’individuo singolo coi suoi diritti originari da far valere anche contro il potere di governo ma il popolo nella sua totalità, in cui l’individuo singolo scompare come soggetto di diritti.”