1 ORDENANDO O CAOS: CONSTRUINDO UMA UNIDADE POLÍTICA
3.2 A RAZÃO CONSTRÓI A UNIDADE DE VISÃO DA REALIDADE – A
3.2.2 A razão ordenadora: o bem comum para Platão
3.2.2.5 A finalidade das leis: ordem e unidade da polis
Para Platão, cabendo ao filósofo ter acesso ao mundo as Idéias, ao mundo da perfeição, cumprir-lhe-ia o papel político de apontar aos demais cidadãos os caminhos que chegam à verdade, ao bem comum. Porque o acesso à verdade ocorre mediante raciocínio, Platão desenvolve sua pedagogia enfatizando que esse processo pode ser ensinado. Esse o papel da Filosofia: desvendar os caminhos de acesso ao mundo supra-sensível e compreender sua unidade. Deve voltar-se a encontrar as leis ideais, porque essas não submetem a comunidade política às incertezas do devir. Platão busca um regime que seja imunizado a contingências. Pretende alcançar estabilidade e segurança sociais, um regime político perfeito e indestrutível.
À proposta de Platão, surge a questão quanto à origem e aferição de validade de uma determinada regra social: “a quem atribuis, estrangeiros, a autoria de vossas disposições legais? A um deus ou a algum homem?”369. É possível se saber se uma regra não passa de uma invenção humana ou de um convencionalismo social? Ou se essa regra na verdade é expressão de um princípio universal?
Platão entende que é possível trazer à luz os princípios fundamentais da ordem do Universo. No Diálogo Ménon370, Sócrates discutia com amigos sobre a existência ou não de princípios gerais do ser do Universo e de
368 COING, Helmut. Elementos Fundamentais da Filosofia do Direito. Porto Alegre: Sergio Antonio
Fabris Editor, 2002, p. 33.
369 PLATÃO. As Lei, ou da legislação e epinomis. Bauru: Edipro, 1999, p. 67.
todo conhecer. Um escravo analfabeto é trazido. Sócrates interroga-lhe, conseguindo fazer com que ele apenas pelo método socrático da interrogação resolva um problema complexo de geometria. Logo – argumenta Platão – como o escravo nunca aprendera geometria e ninguém lhe fornecera a solução, força concluir que o escravo trazia consigo mesmo a solução do problema, dentro de sua alma. O método de interrogação de Sócrates simplesmente o auxiliou a recordar-se da geometria.371
Esse conhecimento manifestado pelo escravo, na razão platônica, estava gravado na alma do escravo. O escravo levava consigo o conhecimento na alma, porque constituiria um princípio que está dentro de todo ser, por ser um princípio da ordem do próprio Universo. Esses princípios de ordem do Universo estão ínsitos em todas as coisas, são universalmente válidos e estão sempre presentes. Eles organizam o Universo e são responsáveis pelo fato de as coisas não serem uma massa amorfa ou desordenada e caótica de eventos, mas sim um Universo cósmico, ou seja, bem ordenado.372
Em A República373, Platão apresenta três finalidades da lei: a) conferir unidade à polis; b) impor a ordem; c) fazer a mediação entre a Moral e a Política. A correta interpretação e aplicação de uma lei, mas do que um exame particular, exige, dentro dessa configuração, uma compreensão do ordenamento jurídico e de sua articulação com o mundo das idéias.374
Para Platão, a lei tem uma função arquitetônica de permanente reconstrução da unidade. Pensando na democracia ateniense, palco de tantos pluralismos, Platão enxerga nas rivalidades e conflitos inerentes à pluralidade democrática uma semente da desordem. É como se a cidade dos desejos substituísse a cidade das necessidades.375
Platão observa nos filósofos a capacidade para desenvolver a ciência que lhes mostra o ser “que sempre é e nunca muda [...] O filósofo é, portanto, o amante daquela ciência da totalidade do ser [...] que por todo tempo
371 REALE, 1990. p. 146. 372 CIRNE-LIMA, 2002, p. 46. 373 PLATÃO, 1949.
374 GOYARD FABRE, 2002, p. 20.
possui a contemplação de todo o ser”. Na contemplação de todo o ser está a definição que se pode dar à filosofia grega.376
Platão desenvolve uma doutrina de recuperação e preservação da ordem, vendo nas leis esse instrumento de reconstrução da unidade. Não é sem razão que, identificando na ordem e na segurança virtudes para a polis, Platão é acusado por Karl Popper de propagar o totalitarismo, a sociedade fechada.377
Goyard-Fabre compara a organização da Cidade Ideal da República, de onde diz brotar toda a fonte do jusnaturalismo clássico, com a ordem do mundo descrita no Timeu. Neste, Platão, ao narrar a origem do mundo, observa que a alma do mundo é mais antiga que seu corpo, cabendo-lhe então o governo deste. Assim, escreve:
[...] a substancia corporal lhe é prescrita para que o universo seja único e homogéneo. Em outras palavras, suas partes devem se harmonizar entre si, alcançando por fim a unidade cósmica: os círculos do Mesmo e do Outro articulam-se harmoniosamente para dar aos corpos celestes movimentos regulares. A coesão do mundo é garantida por leis harmônicas que são obra do demiurgo calculador. Existe, na verdade, um paralelismo exato entre a ordem cósmica e a ordem jurídica da sociedade política. Por isso, a noção de lei serve para exprimir tanto a ordem da Natureza como a ordem da Cidade. Do ponto de vista estrutural, a Cidade é em todos os pontos comparáveis ao Cosmos.378
Para que a polis se mantenha, Platão defende a recomposição da unidade, juntando e harmonizando a multiplicidade. As leis, por serem réplicas da ordem natural, definem os passos dessa reconstrução, inclusive, apontando as funções que cada uma das particularidades deverá assumir nessa atuação para a reconstrução.379 As leis representam essa ponte entre a realidade sensível, onde
se percebe a pluralidade, e a realidade inteligível, referência para reconstrução da unidade.
376 REALE, loc, cit., p. 393. 377 POPPER, 1987, p. 210. 378 GOYARD FABRE, 2002, p. 21. 379 Ibid., p. 22.