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A Flor Vai Ver o Mar – a palavra e os sons

No documento A obra de Alves Redol para crianças (páginas 80-85)

3. Uma leitura da obra para Crianças e Jovens de Alves Redol

3.2. A Colecção «Flor» – percursos de descoberta

3.2.1. A Flor Vai Ver o Mar – a palavra e os sons

Depois de uma breve leitura, podemos sublinhar que os contos de Redol são construídos a partir do confronto que o escritor estabelece entre a experiência do mundo dos adultos e o mundo da fantasia, levando a criança a

fazer a ponte entre estas duas realidades, estabelecendo uma grande ligação com o quotidiano. A originalidade da sua obra explica a capacidade comunicativa com o leitor, escreve histórias onde alterna o humor com a realidade, construindo ainda uma narrativa que pode ser considerada de teor didáctico e instrutivo. Este interesse pela escrita por parte do escritor resulta, assim, numa combinação, bem conseguida, entre a fantasia e a realidade.

Ao folhearmos este livro verificamos que o autor privilegiou um conjunto de elementos do mundo animal, o Boi, a Rã e o Cão, para participarem na história. Revelando uma profunda consideração pela natureza elegeu uma planta, a Flor, como personagem principal. Ao longo do texto, as personagens vão sendo caracterizadas, aparecendo animadas e com o dom da palavra, como se de seres humanos se tratasse – têm mãos, falam e ajudam-se umas às outras. Esta interligação com o mundo animal e vegetal, verificada através da leitura das histórias, constitui um elemento basilar, uma vez que no seu dia-a-dia a criança manifesta um profundo interesse por estes seres vivos, no contacto directo que estabelece com eles, na visita a espaços físicos onde estejam presentes ou nos programas de televisão.

Nesta breve narrativa, o leitor além de conviver com alguns bichos que dão beleza ao texto, vai também aprender a conhecer melhor o funcionamento dos elementos da Natureza, salientando-se a importância do Sol para as plantas – no crescimento da Flor, porque o sol dá a luz e o calor de que a planta necessita.

Pela leitura, a criança vai integrando no seu imaginário um conjunto de vivências reveladoras de uma profunda amizade, e de um grande espírito de entreajuda colocadas em prática pelos diferentes participantes na acção. Estas situações são apresentadas de forma lúdica, mas são apreendidas pela criança ajudando-a a ver o mundo com outros olhos. Deste modo, ao longo de todo o texto perpassa uma lógica afectiva nas relações que se estabelecem entre as personagens, aparecendo muitas vezes identificadas com algumas características do ser humano. Assim, a expressão de sentimentos, como a alegria e a amizade, assume uma grande preponderância no texto.

Ao longo de toda a história, a criança pode encontrar um conjunto de saberes ligados ao meio rural e ao mundo aquático que são aqui apresentados

em jeito de brincadeira, aparecendo interligados no desenrolar da história. Estes conhecimentos são transmitidos de uma forma lúdica, oferecendo à criança informações úteis e permitindo-lhe uma maior integração neste universo de acontecimentos naturais. Neste âmbito, é de salientar o trecho onde é tratado o tema da história do pão, de uma forma muito elementar – «o chão dá grão que a mó mói em pó e o pó do grão dá o pão».

No decorrer da narrativa ressaltam muitos temas que são abordados de uma forma superficial mas que contribuem para o enriquecimento dos conhecimentos da criança. A referência à madeira que flutua na água, servindo para fazer as naus, que andam no rio que vai desaguar ao mar. O mar também é importante porque dá o sal e tem cais para as naus. Mas do outro lado do mar há outros povos, há outros países, com uma cultura diferente, como o povo do Chim que fala chinês e bebe chá. Verifica-se assim também uma certa ressonância de um tempo histórico, designadamente pela referência à nau.

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Ao percorrermos este primeiro livro da colecção «Flor» apercebemo-nos, pela mancha gráfica das palavras, que predominam vocábulos de tamanho muito reduzido, os monossílabos. Olhando à disposição gráfica do texto, ficamos na dúvida de se poder estar perante um texto de poesia. Porém, as situações de rima, embora existam não são muito frequentes, e o texto em si não cumpre as normas nem as convenções (código rítmico, código métrico) que regulam uma obra de poesia, o que leva a concluir que estamos perante um texto em prosa. Neste domínio, podemos acrescentar que neste texto escrito em prosa aparecem alguns efeitos fónicos e rítmicos, com carácter repetitivo. Estes aspectos parecem estar relacionados com o desenvolvimento da memória e uma maior facilidade em prender o público leitor. A este respeito, devemos salientar o facto de que «a sonoridade das palavras e o ritmo com que são ditas formam, para a criança, uma linguagem especial que as atrai e diverte» (COSTA, 1992: 31).

Na descrição das personagens verifica-se, com alguma frequência, a utilização da redundância, através do quiasmo, repetindo-se os nomes ou as características na expressão seguinte – «O Boi é bom. /É bom e tem […]»; «O sol é bom. / É bom e tem as mãos no Céu. / Mas as mãos do Sol […]». Neste redobro verifica-se o reforço de alguns traços que já foram indicados. São redundantes, também, algumas expressões presentes nos diálogos – «Vem daí, vem!»; «[…] não vais, não!»; «Pois sim, sim!».

Ao longo do texto, o autor joga com os sons numa perspectiva lúdica, o que de uma certa forma permite uma maior facilidade na memorização do conteúdo apresentado, por parte da criança. Nota-se, numa análise feita à área vocabular, uma tendência para a concreção e uma predominância dos substantivos, essencialmente nomes de animais, elementos da natureza e membros do corpo humano, entre muitos outros. Ao longo do texto aparecem alguns numerais, os pronomes também são uma constante, porém os adjectivos aparecem em menor número, verificando-se um confronto entre os opostos – «O Mar é bom e é mau». Contrariamente, predominam alguns verbos conjugados principalmente na primeira/segunda pessoa do singular, na terceira pessoa do plural e no infinitivo. O uso de palavras formadas por aglutinação é bastante repetitivo, possibilitando o predomínio dos monossílabos.

Nesta linha, verifica-se ao longo da história a repetição do mesmo som, como que a intensificar o que foi dito, numa tentativa de valorizar a mensagem que se quer fazer passar. Repetem-se algumas formas verbais, principalmente o mesmo som através do uso da aliteração – «[…] e vai, vai, vai …»; «E a Flor ri, ri, ri»; «E o Boi ri, ri, ri». Apresenta ainda a listagem de expressões – «[…] e o chão dá o grão»; «e a mó, que mói o grão».

Um outro aspecto que aparece também de uma forma muito evidente é a predominância do diálogo. Deste modo, é de acentuar a naturalidade com que se impõe a oralidade, pelos diálogos frequentes estabelecidos entre as personagens, daqui decorre o recurso às frases interrogativas, questionando- -se tudo e todos, ou questionando apenas por questionar, surgindo assim algumas perguntas retóricas – «E eu? Eu sou o Sol!», aqui é feita a pergunta e dada a resposta pelo próprio; «E eu? / E faz ão-ão», aqui não dá uma

resposta, mas emite o som, porque estão a falar da voz dos animais. Ou então o recurso às frases exclamativas, reveladoras de alguma admiração e, também às interjeições – «Oh, não!»; «Ah! Bem bom!»; «Flor! Ó Flor!»; «Ó Boi!». Nos diálogos apresentados, o encadeamento de perguntas e respostas permite a sua utilização pedagógica, podendo ser considerado como um auxiliar didáctico e educativo de alguma eficácia, em diferentes níveis de ensino, constituindo, assim, um excelente exercício prático da própria língua escrita, levando consequentemente ao sucesso escolar. O uso da negativa é frequente nos diálogos estabelecidos entre as personagens, salientando algumas acções que não devem ser feitas ou algumas situações que não podem ser levadas a cabo, por motivos que não são inerentes àqueles que participam delas.

Podemos ainda referir a utilização de onomatopeias identificando sons resultantes dos comportamentos dos animais – «cué-cué»; «mã»; «ão-ão»; «béu-béu» ou traduzindo ruídos do mundo – «zás»; «nem chus nem bus»; «trás-pás». Estes sons cativam o leitor pelo seu conteúdo fónico permitindo uma identificação mais directa com o elemento que representam. Há ainda a referir o uso recorrente da anáfora – «Ri da Flor, que tem … / ri da Flor, que não tem …»; «A voz da Rã diz … / a voz do Boi diz …»; «[…] o boi é mais que cem cães; / o Boi é mais que mil rãs …».

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Na sequência dos elementos que salientámos neste registo, importa distinguir o grande esforço empreendido pelo escritor na árdua tarefa de conseguir utilizar predominantemente monossílabos. Consideramos que a conjugação de diferentes metodologias e estratégias resultaram de forma positiva. Com muita imaginação, o escritor conseguiu dizer muito utilizando pouco vocabulário, variando e repetindo as palavras, evidenciando os sons das mesmas, mas respeitando sempre as características internas próprias ao texto. Num esforço notável, as temáticas abordadas destinam-se essencialmente aos mais novos, constituindo a base do seu centro de interesses. Nos volumes seguintes, Redol esforçou-se por gradualmente ir

adequando o vocabulário e os temas explorados ao crescendo etário do seu público leitor. Desta forma, nas quatro histórias, os momentos da vida real aparecem mesclados de muita fantasia e imaginação, num intercâmbio perfeito entre o lúdico e o didáctico. Nestas pequenas narrativas, os temas não são explorados de uma forma pormenorizada, abrindo portas para um posterior aprofundamento pelos adultos, quer em casa pela família, quer na escola com os colegas e o professor.

3.2.2. A Flor Vai Pescar Num Bote – o imaginário e o

No documento A obra de Alves Redol para crianças (páginas 80-85)