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5. O CONTEXTO SOCIOAMBIENTAL DA COMUNIDADE DE SANTA MARIA DO

5.2 AMPLIANDO A COMPREENSÃO DO MUNDO: CONHECIMENTO E

5.2.1 A força do conhecimento científico e da vida “moderna”

Entre os moradores de Caiaué, percebi em alguns relatos a afirmação de que “hoje se tem conhecimento”, e por isso se tem mais cuidado com a exploração dos recursos. Eles remetem-se ao conhecimento trazido por técnicos, tais como os pesquisadores do INPA, que elaboraram os diagnósticos para embasar o Plano de Manejo da FLONA Pau-Rosa, e aqueles vinculados ao ICMBio. O valor do conhecimento externo, científico, acadêmico, parece estar espelhado na mesma relação entre colonizadores e indígenas. Uma idéia-força internalizada que reúne um conjunto de valores sobre as populações da zona rural, do campo, de que quem vive ali, quem é dali, não tem conhecimento legítimo. Nesse sentido, o posicionamento de um servidor do ICMBio é um posicionamento de quem “vem de fora”, de quem “domina” a técnica e os saberes necessários à conservação e, por isso, tem valor diante daquelas pessoas.

É nesse sentido que pude compreender o posicionamento de alguns moradores de Caiaué, segundo os quais a destruição da madeira, da itaúba, só ocorreu porque “não se tinha conhecimento”. Hoje os técnicos e outras fontes de informação externas o trazem. Entretanto, embora as informações científicas das áreas biológicas sejam importantes para otimizar o manejo e a exploração de recursos naturais, elas não são por si só suficientes, já que outros processos, como dito antes, operam na constituição de cenários de degradação e de conservação ambiental.

Por exemplo, um dos fatores determinantes dessa exploração não foi exatamente a falta de conhecimento científico sobre a questão, mas sim a sujeição daquelas famílias a um sistema econômico movido pela exploração até a exaustão dos recursos naturais e da capacidade de trabalho. Em outras palavras, uma sujeição a práticas sociais fundadas na compreensão do outro – a natureza ou o ser humano – como fonte a ser economicamente explorada. A condição para a efetividade dessa sujeição foi a alienação quanto às forças e processos estruturantes dessa realidade e à capacidade de sua superação.

Por outro lado, parece existir no senso comum a noção da inesgotabilidade dos recursos naturais. As grandes extensões da floresta amazônica, de seus rios, a variedade de recursos e alimentos que a floresta fornece e a velocidade dos ciclos naturais como, por exemplo, a rápida decomposição e o desenvolvimento das plantações, parecem dificultar a percepção dos sinais da degradação ambiental e, portanto, de suas causas subjacentes. A percepção da abundância geral coexiste com a percepção da escassez pontual. Um dos moradores chamou a atenção para essa questão:

[...] a saúde começa e termina pela boca, né. [...] Nós temos aqui no interior uma decadência com relação a isso. Eu faço uma campanha: “Não mate „dona vida‟!”. É a água. Eu colho esse lixo, eu levo, eu deixo em Maués, entendeu. Uma pequena coisa que você pode fazer pra ter uma saúde, pra melhorar sua saúde. Isso aqui é uma educação que eu acho que tinha que ser investida na sala de aula, tinha que ser uma matéria de sala de aula. Os jovens estão aqui no rio que tu vai estragar, [...] porque nós ainda vivemos num lugar em que podemos viver naturalmente, né. Mas se não cuidar vai acabar. Então esse é outro problema [...] Agora, é uma mudança de cultura. [...] A questão da água: por nós vivermos em abundância de água doce a gente acha que não acaba. “Joga essa [...] aí”. E nós podemos destruir a água doce. Mas você só vai não fazer quando você tiver consciência que você não pode fazer. Se não, você vai continuar fazendo (E9).

Um exemplo relevante diz respeito à tendência de aumento do uso de fraldas descartáveis por bebês e crianças da comunidade. Por não haver sistema de coleta e destinação do lixo, as fraldas são comumente jogadas no rio. A noção de que a água, o rio, leva tudo parece orientar essa atitude. No entanto, ao visitar uma das casas na outra margem do rio, constatei que as fraldas não são sempre levadas pelas águas. Em função da correnteza, as fraldas “dão a volta” e chegam à outra margem, ficando ali, encalhadas. Os moradores próximos com freqüência as recolhem, junto com outros objetos jogados fora, como garrafas pet e sacos plásticos.

É certo que o conhecimento científico propiciou uma compreensão do mundo sem a qual não seriam possíveis transformações e o desenvolvimento de tecnologias importantes para a vida humana. No entanto, novamente, o arcabouço científico por si só não é suficiente para desenvolver práticas sociais comprometidas com a conservação da vida e a melhoria da qualidade de vida das pessoas.

No caso da noção da inesgotabilidade de recursos naturais, da abundância da floresta e dos rios, não basta que seja comprovado cientificamente que é esse um entendimento equivocado. Tampouco basta que esse conhecimento seja disseminado, como se a partir de sua aquisição as pessoas dispusessem automaticamente das motivações e habilidades para a mudança de atitudes. Conhecimento é uma construção social e, portanto, prática social, permeada de valores. A própria noção de “recurso natural” nos remete a uma relação utilitária entre sociedade e o que se considera natureza, o que é uma das características da visão de mundo orientadora da ciência e do capitalismo nas sociedades modernas.

Outro aspecto do modo de consumo que se está ampliando na região diz respeito à alimentação. Os refrigerantes, para muitos, são preferíveis em relação aos sucos de frutas da região, embora essas estejam disponíveis naturalmente ou em sistemas de plantio.

O pessoal prefere o refrigerante [risos] (E11).

Porque não fazem o suco, não, ninguém faz. A gente faz, quando tem açúcar a gente faz. [os demais] ainda não se acostumaram, o costume.

Quando vem refrigerante, puxa vida! Trazem 10, 12 fardos de refrigerante, aquilo de repente, no outro dia, dois, três dias não tem mais, acabou. É muito consumido. [...] eu acho que ainda não se acostumaram mesmo a tomar suco. Mas quando está pronto, vixe, todo mundo gosta! [risos]. Eles têm é preguiça de fazer (E7).

As motivações para o aumento do consumo de refrigerantes e outros produtos industrializados, tendência já apontada por Higuchi et. al. (2009), parecem ir além da questão do paladar. Existe hoje um trânsito cada vez mais freqüente entre a comunidade e a cidade, e mais acesso à informação por meio da televisão – há a propensão de cada casa ter um televisor. Existe, com isso, uma veiculação constante dos valores culturais das sociedades urbanas. Dentre eles, o estímulo ao consumo de produtos representativos do que se designa por “moderno” – os de procedência industrial – como meio para o bem-estar, o sentimento de inclusão e a felicidade.

De modo geral, a influência de valores urbanos já havia sido indicada em outros aspectos do modo de vida da comunidade de Caiaué, como na disposição das casas e no consumo de outros bens manufaturados, como móveis e utensílios domésticos (HIGUCHI et. al. 2009). Essa questão certamente não é novidade para outros grupos sociais em áreas rurais, tendo em vista a lógica homogeneizante dos valores e visões de mundo do modo de vida urbano que a eles chegam por meio dos canais de comunicação e do trânsito entre suas moradias e as cidades.

A questão é que os valores que orientam as necessidades de consumo nas sociedades modernas operam por meio da desqualificação a priori do que não se enquadra em seus critérios de valor e de estética. Essas necessidades são pensadas muitas vezes externamente às reais demandas sociais, porém em função das demandas para manter em funcionamento a circulação de capital. As informações que nos chegam por diversos veículos de comunicação são as de que é aparentemente moderno e desejável consumir refrigerantes em bonitas embalagens. Não assistimos a propagandas estimulando a produção por nós mesmos do vinho ou suco da fruta madura no pé – ou o plantio de frutíferas para que tenhamos a fruta no pé – mas sim o consumo de sucos “naturais” envasados industrialmente em caixinhas ou garrafas.

Esses sistemas de valores existem em dicotomias – moderno/atrasado, urbano/rural, índio/branco, industrial/artesanal – e trazem nessas relações assimetrias de poder (SANTOS, 2008c) que se naturalizam no modo de ver, desejar e atuar no mundo. Em Caiaué, a longa história de inferiorização e exploração de seus moradores parece favorecer a prevalência do valor do urbano, do global, na medida em que a assimetria foi permanentemente afirmada na relação de dominação. Trago novamente o exemplo da perda da língua indígena contada por um dos moradores não-descendentes dos Munduruku:

Aqui houve uma violação da cultura daqui. Houve uma violação muito grande. Por exemplo, uns preconceitos tolos, de que quem falava a língua deles mesmo, a língua natural... Eles não querem falar, ainda mais, você chega hoje, jamais eles vão falar pra ti. Eles são “preconceituados” com isso. Acham que não devem falar. E com isso, aquilo que você pratica, aquilo vai ficando mais lapidado na tua... né? Aquilo que não pratica vai morrendo. Então... praticamente a língua deles natural é morta, e não sei se tem alguém que dê uma explicação específica aqui (E9).

De fato, a inferiorização de práticas sociais em relação àquelas inseridas na concepção de desenvolvimento hegemônica, orientado pelo modo de vida moderno, leva ao esquecimento dos conhecimentos a elas associados. Ainda na esfera da alimentação, algumas comidas típicas produzidas pelos antecessores Munduruku vem sendo deixadas de lado, muito embora sejam apreciadas:

Esse tarubá era a bebida deles [dos Munduruku]. O tarubá, xibé, a senhora pega a farinha, coloca água nele, e bebe aquela água azeda. Uma das coisas que perdemos (E11).

Passando pela dimensão do conhecimento, do modo de consumo e de práticas culturais, o contexto socioambiental de Caiaué é então permeado com intensidade pela força dos valores das sociedades modernas. Esses valores ainda coexistem, no entanto, com outros aspectos socioculturais da história indígena e da cultura cabocla que abrem a possibilidade para o fortalecimento de um olhar crítico sobre esse modo de vida que se pretende hegemônico e para ampliar as alternativas de ser e estar no mundo.

Essa questão é tão mais imperativa quanto mais se revela que:

[...] a experiência social em todo o mundo é muito mais ampla e variada do que a tradição científica ou filosófica ocidental conhece e considera importante. [...] esta riqueza social está a ser desperdiçada. É deste desperdício que se nutrem as idéias que proclamam que não há alternativa, que a história chegou ao fim e outras semelhantes (SANTOS, 2008c, p. 94). Situando a crise ambiental como parte da crise da ciência moderna e do modelo de desenvolvimento nela calcado, os problemas ambientais emergentes na crise não podem ser respondidos pelo mesmo modelo de pensamento que os criou. “[...] podemos afirmar que temos problemas modernos para os quais não temos soluções modernas” (SANTOS, 2007, p. 19). Sob o marco teórico científico, a única solução que pode ser apontada, em um futuro abstrato e infinito, é a confiança no aprimoramento do mesmo desenvolvimento científico e tecnológico. Contudo, “não é simplesmente de um conhecimento novo que necessitamos; o que necessitamos é de um novo modo de produção de conhecimento” (SANTOS, 2007, p. 20).

As conseqüências da superexploração da itaúba, da poluição gerada pela opção de se consumir fraldas descartáveis e das escolhas de alimentação nem sempre são perceptíveis, por mais evidentes que possam parecer. Essas questões podem ser um ponto de partida de processos educadores ambientais de forma a trazer à tona alguns aspectos da vida de Caiaué e problematizá-las com as pessoas. Não se trata de colocar toda exploração da floresta como degradante, ou toda exploração não destinada à subsistência como destruidora, tampouco de inibir o consumo de fraldas descartáveis ou ainda prescrever hábitos alimentares “corretos”. Trata-se, antes, de criar oportunidades de reflexão sobre os fatores que orientam essas opções e a lida com o ambiente, assim como as implicações em outras esferas da vida.

Essa reflexão, mais do que apenas um processo abstrato, deve estar comprometida com a ação, com a construção ou potencialização de canais políticos e institucionais pelos quais transformações individuais, coletivas e políticas podem ser desencadeadas. É nesse processo que poderá emergir o protagonismo, individual e coletivo, para intervir na realidade.